Anotações sobre Mozart provocadas pelo filme Amadeus

Anotações sobre Mozart provocadas pelo filme Amadeus

O personagem principal de Amadeus (1984), de Milos Forman, é Antonio Salieri. É ele quem conta a história. Mas a figura estrelar é a de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), um moleque de enorme gênio e risada contagiante, muito sedutor no início do filme e dramático no final. O roteiro é baseado na peça homônima de Peter Shaffer, livremente inspirada nas vidas dos compositores Mozart e Salieri, que viveram em Viena na segunda metade do século XVIII. Amadeus foi indicado para 53 prêmios e recebeu 40, incluindo oito Oscars (entre eles o de melhor filme e o de melhor ator principal para F. Murray Abraham, no papel de Salieri).

Revi o filme há dois dias. Obviamente, ele não é rigorosamente biográfico. O roteiro é esplêndido ao amarrar a realidade e as lendas que se formaram nestes mais de 200 anos, acrescentando mais alguma coisa às últimas.

Como tenho que preparar uma pequena palestra na APPOA (Associação Psicanalítica de Porto Alegre) sobre o filme e penso que minha parte seja mais a da história da música, escrevi (ou montei) o texto abaixo, utilizando muito a História da Música Ocidental de Jean e Brigitte Massin e outras informações esparsas. Divirtam-se.

O ambiente infantil

Há uma cena na qual Mozart, quando criança, toca piano ou cravo de olhos vendados, lembram? De Gottlieb para Amadeus.

A vida de Mozart começou como um conto de fadas. Era um lindo menino emotivo, terno, dócil e espontâneo. Queria aprender tudo — como, por exemplo, matemática. Nasceu numa família unida: brincava bastante com Nannerl, a irmã mais velha e muito musical, e tinha como professor o notável pedagogo que era seu pai Leopold. (Leopold é, inclusive, autor de um Tratado sobre como tocar violino que é um clássico até hoje). E então aconteceu o milagre: aos seis anos, a criança revelou que poderia tornar-se um músico superdotado. Tocava cravo com grande habilidade, compunha promissoras pecinhas, mas, sobretudo, compreendia como a música se processava. Ou seja, assimilou rapidamente suas técnicas e estilos.

A família prestou mais atenção no virtuose do que no compositor. E papai Leopold largou tudo, dedicando-se exclusivamente a ensinar e a explorar o fenômeno. Dali por diante, entre 1762 e 1768, dos seis aos doze anos de Wolfgang, Leopold levou seu filho e irmã para exibições em toda a Europa. Salzburgo era apenas porto seguro onde, entre um sucesso e outro, eles vinham refazer suas forças.

Munique, Viena, Bruxelas, Paris, Londres, Haia, Paris, Zurique, Viena, as cortes e os soberanos, os diletantes e os curiosos maravilhavam-se diante do pequeno milagre. Para que mais patente ficasse o virtuosismo de Wolfgang, faziam-no executar proezas do tipo das que se exige de um cachorro amestrado, como tocar por cima de um pano que cobria o teclado ou de olhos vendados. O menino — afagado, presenteado e recompensado financeiramente — era a grande estrela. Ele literalmente sentava no colo de duquesas e príncipes e causava admiração por ter conservado sua humildade, simpatia e simplicidade. Mais proveitosas do que estas apresentações circenses, foram as relações travadas com compositores. Um deles iria marcar por muito tempo o estilo mozartiano: Johann Christian Bach, um dos filhos do homem.

Sua produção como criança e adolescente demonstram domínio da linguagem musical, mas ainda não aparecia a futura genialidade.

Durante todo o ano de 1769, Leopold e Wolfgang permaneceram em Salzburgo: o adolescente de treze anos foi nomeado Konzertmeister do arcebispo. Permaneceu no cargo por 12 anos, até 1781. Mas, entre 1770 e 1773, o jovem Mozart fez três viagens à Itália, com estadas mais longas em Verona, Florença, Nápoles, Bolonha, Veneza e Milão. E tome soberanos: o papa nomeou-o cavaleiro da Espora de Ouro; em Bolonha, o padre Martini, ilustre erudito, iniciou-o nos estilos da música antiga e fez com que Mozart fosse aceito como membro da Academia Filarmônica. Mozart tinha 14 anos e esta foi a última alta distinção que recebeu na vida. Mas, nessas viagens, recebeu da música e da vida italianas muito mais que lições de contraponto: aprendeu novos contornos melódicos e uma nova vivacidade, jamais sobrecarregada.

Pensando melhor, talvez o maior ensinamento que Mozart recebeu da Itália foi a revelação de si mesmo, tanto assim que italianizou o último de seus prenomes, Gottlieb (em latim, Theo-philus), para Amadeo ou Amadeus.

A autonomia

No filme, ele aparece adulto e livre de qualquer emprego regular. Isso não era muito comum na época

Sua maior aspiração era a de libertar-se da semi-escravidão na qual a maioria dos músicos da época se encontrava. Todos trabalhavam para as cortes ou igrejas. Em 1781, Mozart fez aquilo que depois foi chamado de “o 14 de julho dos músicos”. Ele passava uma temporada em Viena dando concertos e recebeu uma notificação do arcebispo com ordens para retornar imediatamente a Salzburgo, ficando proibido de, no futuro, dar concertos sem autorização expressa. Mozart desobedeceu, consciente do que fazia. Licenciou-se do cargo por sua própria conta e risco. Na tentativa de “convencê-lo” a retornar, um dos funcionários do arcebispo chegou a dar-lhe um pontapé.

Me disseram que eu era o patife mais devasso que já servira à igreja, que ninguém nunca tinha servido tão mal ao arcebispo, que me aconselhava a partir hoje mesmo, senão ia escrever para Salzburgo mandando cortar meus vencimentos… Chamou-me de mendigo, de piolhento, de cretino… Não quero mais saber de Salzburgo, odeio o arcebispo até a loucura. Lá em Salzburgo, ele é o senhor. Mas aqui não passa de um idiota, como eu sou aos olhos dele… Acredite-me, caríssimo pai, preciso de toda minha força viril para lhe escrever aquilo que manda a razão… Mas mesmo que eu tenha de mendigar, não vou querer mais, de forma alguma, estar a serviço de tal patrão.

Mozart desejava ser um músico independente em Viena e passou assim seus dez últimos anos de vida. Teve dias de glória, especialmente como virtuose do piano, mas conheceu também a amarga experiência dos imprevistos associados à “liberdade do artista”. Como compositor, teve admiradores, inclusive nas classes dirigentes. Só que depois de 1785, começaram os fracassos. Eles se iniciaram com os seis quartetos de cordas dedicados a Haydn. O fracasso não ocorreu junto ao homenageado, um dos raros que imediatamente souberam dar valor às composições, mas junto ao público de Viena que antes o amava.

“Música que nos faz tapar os ouvidos”, tal foi o julgamento. O hoje célebre quarteto “As Dissonâncias” (K. 465) continha, é claro, algumas dissonâncias em seu início. Quando o editor Artaria, depois de os haver publicado, enviou-os à Itália, os seis quartetos de Mozart foram logo devolvidos porque havia erros de impressão. Os erros eram simplesmente os acordes inusitados escritos por Mozart.

(Quando mostraram o Quarteto das Dissonâncias para Haydn, ele disse que era um equívoco, que aquilo não podia ser. Então, lhe disseram: “Mas é de Mozart”. E o velho respondeu: “Bem, neste caso, trata-se de um erro de minha parte. Eu é que não entendi.”).

Porém, para explicar o fracasso de Mozart em Viena, há que se levar em conta outros fatores que não apenas a originalidade e as “dificuldades” de sua música. Temos que mencionar seu pouco tino para negócios, e sobretudo dizer que, se Mozart houvesse vivido mais tempo, teria visto melhorar sua situação material e assistido a uma verdadeira revanche artística. Sim, a revanche veio de forma fulgurante logo após sua morte.

Apesar de tudo isso, o que permaneceu para a história foi o desencontro de Mozart com a sociedade vienense dos anos 1780.

Disso dá testemunho o que sucedeu com Haydn. Também ele conquistou sua autonomia, mas por outros meios e com outros resultados.

Casamento e angústias

A ideia, passada pelo filme, de que ele foi uma eterna criança

Ganhando bem a vida, requisitado e aplaudido pelo público vienense, saudado pelo genial Haydn, Mozart julgava-se um homem realizado no início da década de 1780. Ele casou em 1782 com Constanze Weber. Foi um casamento um tanto pressionado pela mamãe Weber. O casal se entendia bem, mas sabe-se que Mozart não era um exemplo de fidelidade. Em 1784, houve Theresa von Trattner, para quem ele escreveu a Sonata em dó menor precedida pela Fantasia em dó menor. Dois anos depois, apareceu a cantora Nancy Storace (a Susanna de As Bodas de Fígaro), para quem escreveu a admirável ária de concerto Ch’io mi scordi di te? [Que eu me esqueça de ti?] antes de ela partir de Viena.

Mozart era dúbio em muitas atitudes. Promovia a frivolidade em seu ambiente, mas dizia estar cansado da mesma. Queria ir mais longe com sua música, ignorando o ambiente musical de Viena, mas não saía da cidade. E reclamava:

Sinto uma espécie de vazio que me faz muito mal, uma certa aspiração que nunca se satisfaz e que por isso constante, dura sempre e que a cada dia cresce mais.

É significativo que os testemunhos deixados sobre Mozart por certas pessoas que lhe eram próximas insistam em traços de caráter e comportamento que condizem mais com a insatisfação do que a graça e a tranquilidade. “Ele estava sempre de bom humor, mas também muito absorto”, escreveu sua cunhada Sofia Haibel, prosseguindo: “Até quando lavava as mãos de manhã, ele ficava de lá para cá no quarto, nunca parecendo tranquilo e sempre pensativo.” Seu cunhado escreveu:

“Ele falava passando de uma coisa a outra, fazendo brincadeiras de todo tipo; descuidava-se na maneira de vestir. Parecia gostar de ver suas grandes ideias musicais contrastadas com as vulgaridades da vida cotidiana, fazendo ironias consigo mesmo.”

Esta angústia íntima pouco corresponde à lenda do menino eterno, que continuam sendo alimentadas por alguns. No entanto, quando se ouve certa música de Mozart é dessa “angústia íntima” que se é levado a lembrar.

Decadência

O gosto musical de Viena, a resposta para José II, Don Giovanni, as três sinfonias, a pobreza e o azar

Mesmo contando com a oposição do público de Viena, Mozart seguiu audaciosamente escrevendo suas obras exatamente como tinha vontade de as compor, sem preocupar-se muito com as conveniências e os hábitos do público.

O preço desta liberdade era previsível: Mozart deixou de ser o homem da moda em Viena. Os colegas e os críticos começaram a ter atitudes reticentes ou de desaprovação que foram se acentuando e dando o tom para um público que já não mais ia assistir aos concertos do compositor-virtuose. As preocupações com dinheiro apareceram. As Bodas de Fígaro nada rendem: em Paris, foi um grande escândalo, mesmo que as tiradas mais acerbas houvessem sido excluídas do libreto. Em Viena, foi um choque. Já por ocasião da representação de O Rapto do Serralho, José II — Imperador Romano-Germânico e Arquiduque da Áustria — observara: “Notas demais, meu caro Mozart.” Ao que respondeu o autor: “Nenhuma mais, Majestade, todas são necessárias” — frase que nunca sairia da boca de um cortesão experiente.

Porém no final de 1787, aconteceram dois meses marcados pelo estrondoso sucesso de Don Giovanni. Só que o fato ocorreu em Praga. Montado em Viena no ano seguinte, Don Giovanni só deu prejuízo. José II assim se expressou a respeito: “Isto não é prato para os meus vienenses.” Para Viena, Mozart, aos 32 anos, era um homem acabado, um antigo menino prodígio decadente e sem serventia.

As preocupações com dinheiro dão lugar à miséria. As dívidas e os pedidos de empréstimo a agiotas se multiplicam. Wolfgang e Constanze mudam-se constantemente e adoecem seguidas vezes. Tinham altos gastos com médicos e os filhos morriam — tiveram seis, mas apenas dois meninos sobreviveram –, tudo gerava despesas. Uma série de bilhetes suplicantes escritos pelo compositor dão testemunho de indigência.

Entre junho e agosto de 1788, com vistas a um grande concerto que esperava dar, Mozart escreveu a trilogia de suas mais belas sinfonias: as três últimas. Como poucos ingressos foram vendidos, não houve o concerto, pois daria prejuízo. No ano seguinte, a mesma coisa. Sem encomendas, a produção diminuiu.

Na primavera de 1789, aproveitando um dinheiro emprestado, Mozart fez uma viagem exploratória: Praga, Dresden, Leipzig, Berlim. Voltou de bolsos vazios, sem muitas encomendas, nem esperança de melhora, mas entusiasmado com a descoberta que fizera em Leipzig. Tivera contato com alguns Motetos, ainda inéditos, de Johann Sebastian Bach. Somente Joseph Haydn continuava a proclamar sua admiração por Mozart, “este ser único”.

No outono de 1789, o imperador José II — que, embora com reservas, ainda apreciava Mozart — encomendou-lhe uma ópera, escolhendo ele mesmo o tema para evitar escândalos e intrigas: Così fan tutte. A primeira representação da ópera foi bem sucedida, mas o imperador morreu alguns dias depois e o luto da corte suspendeu as apresentações.

AMADEUS, Tom Hulce, 1984, ©Orion /

Morte

A virada que chegou tarde, o Réquiem para o Conde von Walsegg, assistindo a Flauta Mágica

No começo de março de 1791, Emanuel Schikaneder, um velho conhecido que se tornara diretor de um pequeno teatro de um bairro popular de Viena, encomendou a Mozart outra ópera. Ele teria parte da bilheteria, nada de dinheiro adiantado. A Flauta Mágica foi escrita praticamente a seis mãos. Mozart, o diretor Schikaneder e Ignaz von Born, o líder mais eminente e progressista da franco-maçonaria vienense. O texto era formado por duas histórias entrelaçadas: um conto de fadas propício ao grande espetáculo feérico e popular, e uma viagem simbólica que leva à busca de si mesmo e à descoberta da sabedoria. Tudo isso fora dos grandes teatros.

A agitação de tanta atividade, o desgaste causado pelas privações e pelas angústias da miséria, a moléstia fatal talvez já em andamento (existe hoje o consenso de que se tratava de uma infecção renal), tudo isto minou as forças de Mozart, que começou a dar mostras de dificuldades para trabalhar. Mesmo assim, foi em frente. Na mesma época, havia a encomenda de um Réquiem, que deixou inacabado, e de outra ópera para Praga, A Clemência de Tito, a qual foi escrita a toda pressa, tendo passado a um aluno a parte dos recitativos.

Meses antes de Mozart morrer, teve lugar a estreia de A Flauta Mágica no pequeno teatro de Schikaneder. O cartaz mencionava em letras garrafais o nome do dono do teatro e, mais abaixo, em formato pequeno: “A música é do Sr. Mozart” — aquele Mozart que já fora a moda de toda Viena. O sucesso foi imediato, avassalador, contínuo. A cada dia o entusiasmo crescia. Viena inteira deslocou-se ao teatro de Schikaneder. As ofertas e as encomendas agora iriam chegar — tarde demais.

Uma lenda que por muito tempo persistiu, surgida logo depois da morte de Mozart, quer mostrá-lo vivendo na angústia obsessiva da morte que se avizinhava e obcecado pela ideia de estar compondo um Réquiem para si mesmo, após ter recebido a encomenda de um misterioso desconhecido no mês de julho. Nada deveria subsistir desta lenda — já posta em dúvida por mais de um biógrafo — depois de se ter recentemente encontrado o texto de um contrato entre Mozart e um certo Conde von Walsegg zu Stuppach que nada tinha de misterioso. De fato, as cartas de Mozart do mês de outubro, apesar do estado de extrema fadiga em que ele já se encontrava, deixam por vezes transparecer uma animação quase burlesca. Nessas cartas, Mozart fala muito das representações de Die Zauberflõte, do Concerto para Clarinete, que estava concluindo, e do enorme trabalho que passava para finalizar o Réquiem.

Entregue às alegrias do triunfo que se afirmava com toda evidência, Mozart viveu mais seis semanas escrevendo música de alta qualidade, embora seu estado de saúde só piorasse. Depois, passou um mês de cama e, em dezembro de 1791 morreu.

Nos últimos dias fora da cama, dedicou todas as suas noites para assistir A Flauta Mágica. Ele acompanhava, compasso por compasso, o desenrolar da representação no teatro. Ali, Tamino e Pamina cantavam: “Pela força da música, felizes, avançaremos pela tenebrosa noite da morte.”

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E Salieri? Ele não atentou contra a vida de Mozart como certas narrativas dizem? Não o envenenou? Não comprou um Réquiem? Não foi um vilão? Não foi sequer invejoso? OK, talvez possamos admitir a última característica. Qual compositor não invejaria tal talento? O fato é que ele sofreu uma tremenda sacanagem póstuma. E foi um bom compositor. Não era genial mas era bastante bom, nada autônomo, feliz com seu empreguinho na Corte de José II.

Bach, Vivaldi, suas mortes e a ironia das datas

Bach, Vivaldi, suas mortes e a ironia das datas
Vivaldi e Bach

Ingmar Bergman, o cineasta que dedicou parte de sua obra a analisar o silêncio de Deus e a solidão do ser humano, morreu em Fårö no dia 30 de julho de 2007, na mesma data em que morria em Roma Michelangelo Antonioni, o cineasta da incomunicabilidade. Miguel de Cervantes faleceu em Madrid na data de 23 de abril de 1616, mesmo dia da morte de William Shakespeare em Stratford-upon-Avon. O fato de a morte dos dois maiores escritores da Idade Moderna ter ocorrido na mesma data apenas é deslustrado por uma verdade que destrói o mito temporal: Shakespeare faleceu sob a regência do calendário juliano, o que empurra sua morte para dez dias depois. Já Johann Sebastian Bach (1685-1750) não morreu no mesmo ano em que Antonio Vivaldi (1678-1741) faleceu, mas há muitas coincidências que ligam os dois maiores nomes da música barroca — para começar, ambos “escolheram” o 28 de julho como data de morte.

Bach e Vivaldi foram compositores totalmente diferentes. Basta uma audição de alguns segundos para que fique identificado um e outro. Eles criaram suas obras numa época especialmente complicada — são compositores do barroco tardio, ou seja, produziam no momento histórico em que se iniciava o período clássico. Eram, portanto, compositores antiquados em seu tempo. Os filhos compositores de Bach já encaravam o pai como alguém do passado e Frederico II, quando o convidou para visitar sua corte, ouviu-o sem o menor respeito, como quem ouve um animal em extinção, apesar do que dizem algumas lendas desinformadas. Já Vivaldi, il prete rosso, sem público em Veneza, vendeu grande parte de seus manuscritos para pagar uma viagem a Viena, onde Carlos VI o admirava, mas o imperador faleceu dias depois de sua chegada, frustrando os planos do italiano. A consequência é que ambos, Bach e Vivaldi, morreram pobres e fora de moda.

Vivaldi: um talentoso padre que não escondia suas relações com mulheres

Se não havia relações de estilo, havia relações musicais entre ambos, ao menos no sentido de Bach ter sido um admirador do estilo italiano e de conhecer profundamente a obra de Vivaldi. Ele fez mais: transcreveu vários dos concertos de Vivaldi para o cravo e o órgão. Alguns concertos para violino do L’Estro Armonico (1712) e de outros ciclos foram transcritos por Bach e certamente interpretados por ele, seus filhos e alunos. Podemos citar também a quase inevitável religiosidade dos dois compositores numa época em que se ensinava religião por mais da metade do horário escolar. Por muito tempo, Bach foi considerado uma espécie de santo, ao menos até Emil Cioran colocar alguns empecilhos, separando Bach e Deus, com vantagem para aquele: Sem Bach, Deus seria apenas um mero coadjuvante. Sem Bach, a teologia seria desprovida de objetivo, a Criação fictícia, o nada peremptório. Se há alguém que deve tudo a Bach, é seguramente Deus. E Vivaldi? Vivaldi era padre. Il prete rosso, o padre ruivo, ou vermelho.

Apesar de sacerdote, Vivaldi teve muitos casos amorosos, um dos quais com uma de suas ex-alunas do conservatório de Ospedale della Pietà, a depois influente cantora Anna Giraud (ou Girò), com quem mantinha também relações profissionais na área da ópera veneziana. As biografias mais pudicas dizem que Anna foi a moça por quem o grande compositor se apaixonou, a inspiradora de suas óperas e a tormenta de todos os seus dias, até a morte. Ela teria muitas vezes beneficiado Vivaldi em troca de papéis adaptados a suas capacidades vocais. Tais trocas levaram outros compositores, como Benedetto Marcello, a escreverem panfletos contra Vivaldi e Giraud. Já Bach teve dois longos casamentos. O amor por suas esposas pode ser depreendido através de suas cartas e dos vinte filhos resultantes — sete com a prima Maria Bárbara e treze com Anna Magdalena, uma cantora profissional com metade de sua idade. O casamento com Maria Bárbara acabou em razão da inesperada morte da mulher e o com Anna Magdalena ocorreu em 1721. Bach tinha 36 anos; Anna, 18.

Bach: evolução permanente e cegueira

Bach escreveu mais de mil obras. Muitas são curtas, mas há mais de 200 Cantatas com duração aproximada de vinte minutos e Paixões com 3 horas de duração. Sua obra completa foi gravada numa coleção da Teldec: são 153 CDs, mais ou menos 153h ou 6 dias e 8 horas de música, sem repetições. Já Vivaldi escreveu 477 concertos — segundo o hostil Stravinsky, tratava-se de 477 concertos iguais — , mais 46 óperas e 73 sonatas. Em seu caso, ainda há muitas óperas não gravadas — porém, considerando o porte das óperas gravadas, é crível que o tamanho de sua obra seja semelhante ao de Bach.

Vivaldi parecia ter nascido pronto, seu estilo de composição variou pouco durante sua vida. Já a música de Bach, se não teve seu estilo alterado de forma radical, foi ganhando qualidade de forma inacreditável. Grosso modo, suas últimas composições foram as Variações Goldberg, A Oferenda Musical e A Arte da Fuga. Estas são monumentos, verdadeiras catedrais construídas em homenagem ao contraponto e à polifonia. No final de sua vida, Johann Sebastian Bach estava em seu auge, criando, se não suas obras mais perfeitas, aquelas que mais recebem tempo e dedicação dos especialistas.

Bach fora míope durante toda a vida e, durante a composição de A Arte da Fuga, sua visão se apagou. Porém, em fins de março de 1750, ano de sua morte, o famoso cirurgião oftalmológico John Taylor esteve de passagem em Leipzig. Ele foi levado até Bach e o operou. Taylor afirmou que em dois os três dias o paciente voltaria e enxergar. Depois de algumas semanas, como o paciente não apresentasse melhoras, houve uma nova operação, além de sangrias, ventosas e bebidas laxativas para limpá-lo. Apareceu um outro médico que brigou com Taylor. Então foi utilizado sangue de pombo nos olhos do compositor, além de açúcar moído e sal torrado. Dizem que em 18 de julho, dez dias antes de morrer, ele voltou a enxergar, mas no mesmo dia teve febre alta e caiu na inconsciência.

Não era alguém importante para a época. Nem sequer seu túmulo foi indicado. O corpo se perdeu. É um fato tristemente cômico que aquilo que está na catedral de São Tomás, em Leipzig, uma espécie de jazigo construído em sua honra em 1950 — por ocasião do bicentenário de sua morte — não sejam seus restos mortais, mas apenas o testemunho de seu esquecimento. Sua obra começou a ser recuperada por Felix Mendelssohn em meados do século XIX. Mas não é mera casualidade o fato de Mozart e Beethoven terem conhecimento de parte da obra do mestre. Eram estudiosos. Tanto que Beethoven escreveu que seu nome não deveria ser Bach (regato, ribeiro) e sim mar.

Túmulo de Bach na Catedral de St. Thomas, em Leipzig: Bach não está aí

Já Vivaldi foi esquecido por muito mais tempo. Sua ressurreição começou apenas em 1939, quando o compositor italiano Alfredo Casella organizou uma exótica Semana Vivaldi. Depois veio a guerra e só em 1947 foi fundado um tímido Istituto Italiano Antonio Vivaldi com o propósito de promover a música de Vivaldi e publicar novas edições de seus trabalhos. O longo inverno vivaldiano começou logo após sua morte. Quando morreu, era um mendigo em Viena. Teria morrido de “infecção interna”.  Em 28 de julho, ele foi enterrado em um túmulo simples no cemitério do hospital de Viena. Seu corpo, assim como o de Bach, foi perdido. Hoje existe apenas uma placa de homenagem na parede da Universidade de Viena registrando um dos possíveis locais do seu túmulo.

Placa indicando a possível localização do túmulo de Vivaldi, em Viena (Áustria)

O emprego de Bach está vago. Quem se habilita?

O emprego de Bach está vago. Quem se habilita?

Começaram as audições para o cargo de kantor na Igreja de St Thomas, em Leipzig, onde, inclusive, estão os restos mortais de Bach. São quatro finalistas de um grupo inicial de 41 candidatos.

Os candidatos são Markus Teutschbein, 44 anos, que atualmente rege em Basileia, Suíça; Clemens Flämig, 39, que dirige o coro da cidade na cidade de Halle, perto de Leipzig; Markus Johannes Langer, 44 anos, regente na cidade alemã de Rostock e Matthias Jung, 51, que manda na Dresden Choir Boys.

Cada um tem uma semana para convencer a banca sobre suas qualidades.

“É uma imensa pressão”, admitiu Stefan Altner, membro do comitê decisório. “Se nós não encontrarmos o candidato certo entre os finalistas, começaremos tudo de novo.”

Não é como contratar um técnico de futebol qualquer.

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As Mulheres e o Café

As Mulheres e o Café

Schlendrian é um pai grosseiro e está preocupadíssimo porque sua filha Lieschen entregou-se à nova mania de tomar café. Todas as promessas e ameaças para desviá-la de tão detestável hábito foram infrutíferas até que, para dissuadi-la, ofereceu-lhe um marido. Lieschen aceita a idéia com entusiasmo e o pai parte apressadamente para conseguir-lhe um. Esta é a idéia principal da Cantata do Café, obra cômica de J. S. Bach, uma mini-ópera, que foi apresentada entre 1732 e 1735 na Kaffeehaus de Zimmermann, em Leipzig. A primeira Kaffeehaus da cidade foi aberta em 1694 — o café chegara à Alemanha em 1670 — e em 1735 a burguesia podia escolher entre oito privilegiadas casas.

A Kaffeekantate, BWV 211, foi encomendada a Bach por Zimmermann e é, em parte, uma ode ao produto (sim, puro merchandising) e, de outra parte, uma punhalada no movimento existente na Alemanha para impedir seu consumo pelas mulheres. Acreditava-se que o “negro veneno” pudesse causar descontrole e esterilidade ao sexo frágil, mas Bach, em troca do pagamento de Zimmermann, ignorou estes terríveis perigos. Senão, talvez não musicasse uma ária que diz: “Ah, como é doce o seu sabor. / Delicioso como milhares de beijos, / mais doce que um moscatel. / Eu preciso de café”; e nem nos brindaria com estas delicadezas…: “Paizinho, não sejas tão mau. / Se eu não beber meu café / as minhas curvas vão secar / as minhas pernas vão murchar / ninguém comigo irá casar”.

Bach aprendera muito bem, em sua vida familiar e em seu trabalho como professor, que influenciar os jovens não era assim tão fácil. Portanto, adicionou um recitativo no qual os planos de Lieschen são revelados: o homem que quiser casar com ela terá de consentir numa cláusula: o contrato matrimonial preverá que ela possa tomar café sempre que lhe apetecer.

No final, há um breve coro de três cantores, onde o café e a evolução são admitidos como coisas inevitáveis. Esta Cantata — ao lado de outras poucas obras vocais profanas — é uma evidente exceção na obra de Bach. O compositor, que possui a injusta fama de sério, aceitou o convite de Zimmermann para compor uma propaganda de seu Café e, como quase sempre fazia, produziu uma obra-prima, uma pequena comédia que funciona tanto no palco quanto nas salas de concertos. O efeito da primeira apresentação deve ter sido consideravelmente ampliado pelo fato de que às mulheres não era permitido cantar em cafés (nem em igrejas) e o papel de Lieschen foi, provavelmente, interpretado por um cantor em falsete. Bach, com o auxílio do poeta Picander, construiu dois personagens muito humanos e verossímeis: um pai resmungão e rústico e uma filha obstinada e cheia de caprichos. O compositor parece estar à vontade ao traçar a caricatura do pai com o baixo pesado, os ritmos acentuados e a prescrição con pompa, enquanto os violinos rosnam para indicar seu temperamento irascível.

Quando ele ameaça privar Lieschen de sua saia-balão de última moda, Bach indica seu tremendo diâmetro de forma escandalosa. A ária de Lieschen em louvor ao café é convencional, tão convencional que parece que o compositor quer insinuar que ela futilmente adotara tal hábito apenas para seguir a moda, o que seria um gol contra para Zimmermann. Entretanto, seu entusiasmo por um possível marido não é simulado… A alegria expressa na melodia em ritmo de dança popular é contagiosa. Para os puristas, o divino e sacro Bach chega a ser grosseiro: afinal, quando Lieschen diz que quer um amante fogoso e robusto, os violinos e as violas silenciam, como para deixar bem clara aos ouvintes a afirmativa sem rodeios. O Café Zimmermann deve ter vindo abaixo…

Há uma montanha de gravações esplêndidas desta Cantata. Uma delas está aqui. Outra, ainda mais fácil de baixar, está aqui.

Mais: há um bonito site onde encontramos uma biografia ilustrada do mestre, com um mapa clicável das cidades por onde ele passou. E deve navegar por aqui — comece por Curiosità — quem estiver interessado num site que fale sobre o café no cinema, nas artes plásticas, na música, etc. (É em italiano, mas se eu que sou burro entendi, imagine você!)

Bibliografia: leituras de textos de discos e CDs, de livros que não lembro mais e de Karl Geiringer, principalmente.