A noite da espera, de Milton Hatoum

A noite da espera, de Milton HatoumFoi um choque iniciar e leitura de A noite da espera logo após ler Oblómov. Foi como cair num pântano após quilômetros de caminhada tranquila. O livro simplesmente não me envolveu e eu esperava muito dele. Imaginem que cheguei a dá-lo de presente a um amigo, na certeza de que era um excelente romance. Não é. E tinha tudo para eu gostar: era um romance escrito por um grande autor sobre a geração que esteve na universidade durante a ditadura militar nos anos 70, a minha geração. Tive vontade de abandoná-lo, mas fui até o fim. Logo de cara vê-se uma estrutura frouxa, como um tênis desamarrado. Fiquei esperando por alguma virada, mas nada aconteceu. Não tem boa trama, o conflito é contra algo que não se vê e que não parece perigoso ou incompreensível, o cenário é pintado com superficialidade, enfim, dá vontade de largar. O protagonista e narrador da história é desinteressante. Burro, até diria. Perdido na cidade, mudando de moradia a toda hora e, incrivelmente, refletindo pouco sobre os fatos de sua vida — a separação dos pais, o sumiço da mãe, o pai entusiasmado com a “revolução” dos milicos, os amores — Martim vê tudo passar sem intervir e, pior, sem refletir muito. O livro vai ficando cada vez mais difícil de entender em razão de sua superficialidade e péssima construção. Eu, como leitor, tive que anotar o nome dos personagens e como eles se relacionam, pois todos falam e agem igualmente, sem a menor distinção. São chatos nos dois sentidos. Todos dizem insignificâncias. A política também não é muito tocada. Só se sabe que há censura, perigo e corrupção. Bem, não é uma novidade. E onde ficou a trama, o romance, a tensão, a reflexão, a humanidade? Oblómov tinha setecentas páginas e este romance tem duzentas e poucas, só que muito mais longas. Um saco.

Não recomendo. E, digo-lhes, meus sete leitores, este é o primeiro volume de uma trilogia… Tô fora.

Mídia promocional do programa Impressões do Brasil (TV Brasil)

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Lendo Oblómov

OblómovEstou lendo cada vez mais lentamente Oblómov e não é por não estar gostando. É que não dá para interromper os capítulos no meio, há que ler cada um deles por inteiro, pois são peças muito perfeitas do mosaico que está sendo formado para serem lidas com interrupções. Dá mais prazer ler cada capítulo completo. O próximo capítulo tem 20 páginas, então preciso de 20 páginas de tempo sem correr riscos de ser atrapalhado.

Oblómov é a história de um latifundiário russo que se caracteriza pela indolência e apatia, para não dizer coisa pior. Deitado em seu sofá, olhando para o teto, ele deixa passar os dias. Embora vários problemas o atormentem — principalmente sua fazenda, que cada vez gera menos dividendos –, ele apenas planeja a melhor maneira de resolvê-los, sem agir. A mera ideia de deixar sua poltrona causa-lhe desconforto, então ele deixa a inércia guiar sua vida, que vai de mal a pior. A vida passa ao largo. Mas não pensem que é um livro monótono, muito pelo contrário, é bastante movimentado e os diálogos e os pensamentos de Oblómov são vivíssimos. Ele realmente tem o ócio como bandeira.

Ele tem um amigo de infância, Stolz, que é o que poderíamos chamar de homem de ação. No pequeno tempo livre de que dispõe, ele tenta retirar seu amigo da inação em que vive imerso. Instiga-o a resolver imediatamente seus problemas, a viajar e viver. Graças a Stolz, Oblomov conhece uma jovem por quem se apaixona. Então, vive um curto despertar. Aluga outra residência, visita e visita a amada. Porém, antes de casar, tem que resolver os assuntos de sua propriedade. Além disso, Olga quer que ele esteja atualizado com o que está acontecendo no mundo. Mas tudo isso parece ser uma demasia para ele.

Ele mora na cidade, mas planeja construir uma casa em sua propriedade para lá morar com Olga, mas seus rendimentos são decrescentes e o descontrole é absoluto. O que faço, o que faço, o que faço? Ele tem boas ideias a respeito, está consciente de tudo o que lhe ocorre, só que é o Rei da Procrastinação, o Príncipe da Indolência… Dispõe de criados que o servem e roubam. Zakhar, o principal deles, é um tremendo personagem, assim como todos os que circulam pelo romance.

O livro gerou uma expressão na Rússia: oblomovismo. Iliá Ilitch Oblómov representaria a velha Rússia czarista, com suas relações de trabalho e corrupção feudais. Os patrões são aristocratas inúteis, os servos são escravos. Já Andrei Stolz representaria o futuro e o progresso. Era uma estrutura social onde uns e outros estavam em decadência e se os grandes temas da humanidade são o amor, a morte e a existência ou não de Deus, creio que a decadência mereça o quarto lugar.

P.S. — Estou na página 490 de 736.

Cena do filme Oblómov, de Nikita Mikhalkov

Cena do filme Oblómov, de Nikita Mikhalkov

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Os Direitos Inalienáveis do Leitor, por Daniel Pennac:

Por algum motivo, eu ainda não consigo cumprir o Nº 3. Cumpro brilhantemente o Nº 7 — já li até em estádio de futebol. Nunca vi necessidade do Nº 9 e minha amiga Cláudia Beylouni Santos me vem com mais dois direitos:

11. O direito de acumular uma muralha de livros amados, por ler, em todo o entorno da cabeceira da cama.
12. O direito de falar incessantemente sobre um livro apaixonante que se leu.

O Julio Ribeiro pede mais um:

13. O direito de comprar mais livros do que se consegue ler.

E a Maria de Abreu também:

14. O direito de parecer antipático e não responder por estar enredado e absorto entre uma linha e outra.

Mas chega! Vamos aos 10 direitos originais de Pennac:

1. O direito de não ler.
2. O direito de saltar páginas.
3. O direito de não acabar um livro.
4. O direito de reler.
5. O direito de ler não importa o quê.
6. O direito de amar os “heróis” dos romances.
7. O direito de ler não importa onde.
8. O direito de saltar de livro em livro.
9. O direito de ler em voz alta.
10. O direito de não falar do que se leu.

Daniel Pennac

Daniel Pennac

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Sobre “As Academias de Sião”, conto de Machado de Assis

O conto completo está aqui, dentro do site Domínio Público.

As Academias de Sião, de Machado de Assis, dá pano para muitas mangas, apesar de não ser um de seus maiores contos. O pano para as mangas é tecido ao longo de um plot mais do que original para a época: as academias de Sião tentavam resolver um peculiar problema: “Por que é que há homens femininos e mulheres masculinas? O que as induziu a discutir isso foi a índole do jovem rei. Kalaphangko era virtualmente uma dama. Tudo nele respirava a mais esquisita feminilidade: tinha os olhos doces, a voz argentina, atitudes moles e obedientes e um cordial horror às armas. Os guerreiros siameses gemiam, mas a nação vivia alegre, tudo eram danças, comédias e cantigas, à maneira que o rei não cuidava de outra coisa”.

Uma das academias venceu com a seguinte certeza: “A alma é neutra; nada tem com o contraste exterior”. Porém, Kinnara, a mais bela concubina do Sião, durante um encontro privado com rei, questionou a decisão dizendo existirem almas sexuais. Assim como o rei era o homem feminino, Kinnara seria a mulher máscula: “Um búfalo com penas de cisne”. Depois de um beijo, Kinnara convence o rei para que suas almas troquem de corpo por seis meses. Cumprido o prazo, cada uma seria restituída ao corpo original. A fábula de Machado pega emprestado temas orientais, sobretudo hindus. Basta lembrar o parentesco do conto com a “história hindu” de Thomas Mann As Cabeças Trocadas, onde há um personagem belo, mas com um corpo magérrimo, e outro feio, mas de belo corpo. Em Mann, há a troca de cabeças; em Machado, a de almas.

Após a troca, Kalaphangko, ou o corpo do rei agora com alma de Kinnara cuidou da fazenda pública, da justiça, da religião e matou uns tantos que não pagavam impostos. “Sião finalmente tinha um rei”, afirma Machado. Já a alma do rei “espreguiçava-se todo nas curvas femininas de Kinnara”. Sim, Machado de Assis diverte-se sempre conosco. E nós com ele.

O conto parece indicar que a alma masculina seria mais ativa e racional, enquanto a feminina seria passiva e emocional. Mas Machado de Assis não está aqui criando teses e sim controvérsias e boas piadas. Um pouco mais sobre Kinnara. Quando há a troca de almas, ela passa a um plano secundário e Kalaphangko planeja matá-la para não desfazer a troca, porém ela revela estar grávida e o rei sente-se incapaz de matar seu próprio filho, símbolo de sua virilidade e da continuidade da linhagem real. Ou seja, primeiro Kinnara consegue fazer a troca de corpos através de um beijo e depois logra não ser morta pela maternidade, um predicado físico feminino. Neste sentido, a simples Kinnara é mais uma mulher decisiva num mundo machadiano cheio delas. As mulheres de Machado seduzem, escolhem, querem e conseguem, expelindo sensualidade tanto em lentas e inexoráveis secreções ou como em espasmos (ou jatos…).

Tenho vontade, mas reluto em fazer uma interpretação do século XXI sobre um conto que não é mais do que um scherzo de Machado. Mas há outros aspectos intrigantes neste conto cheio de curiosidades que independem do instrumental psi de nossos dias. (1) Machado não cai em momento algum nas piadas fáceis e depreciativas de uma sociedade machista — e estamos em 1884. (2) Diferentemente de Tolstói, por exemplo — um escritor absolutamente contemporâneo de Machado — , o brasileiro não está nem um pouco preocupado em explicar o mundo ou em trazer a Verdade e a Solução a seus leitores. Ele apenas narra brilhantemente os fatos e nos deixa aqui pensando… (3) Os acadêmicos consideram um ao outro perfeitos estúpidos, mas permanecem academia, inclusive protagonizando o festivo momento final de As Academias de Sião, cantando todos juntos o hino “Glória a nós, que somos o arroz da ciência e a claridade do mundo!”.

A bela Kinnara — àquele momento já destrocada — não entendia como os membros da academia podiam ser a claridade do mundo quando reunidos e se detestarem separadamente… Mas sabemos que é assim. É notável que o fundador da Academia Brasileira de Letras nos passe uma noção tão bufa e verdadeira do comum das academias — locais que  podem ser melhor descritos como cestas de ofídios do que como clarões para o mundo.

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Requiem: uma alucinação”, de Antonio Tabucchi

Requiem TabucchiNão hesito em chamar este Requiem: Uma Alucinação de obra-prima. Vamos manter a grafia original da palavra “requiem” sem acento porque o livro foi escrito diretamente em português de Portugal pelo italiano Tabucchi. Antonio Tabucchi (Vecchiano, 24/09/1943 – Lisboa, 25/03/2012) foi o italiano mais português de que tenho notícia. Chegou a se naturalizar. Ele era professor, escritor e tradutor de Fernando Pessoa. Amava o país. Ele escreveu vários excelentes pequenos livros e sua grande obra, como escreveu Simenon sobre si mesmo, foi o mosaico formado por estes pequenos romances. Todos são excelentes, mas por favor, este Requiem é um exagero.

Requiem: Uma Alucinação foi o único livro que Tabucchi escreveu diretamente em português. A obra é uma homenagem a Lisboa, a Portugal, a Fernando Pessoa e até a Saramago — vide os diálogos sem pontuação. Também se come muito bem neste livro. Lisboa, como se sabe… Bem, escrevo próximo do horário do almoço e é melhor deixar de lado aquela maravilhosa gastronomia. O livro é literalmente um sonho. No calor do verão português, o personagem principal deita, dorme e sonha. São 12h que começam em um encontro que não acontece. Este seria, supõe-se, com Fernando Pessoa, chamado de “O Convidado”. Calma, gente, o  encontro acontecerá ao final do romance.

Enquanto isso, veremos o personagem que sonha deambulando por Lisboa. Ele encontrará amigos quase todos mortos, andará de táxi, terá uma linda cena numa pensão onde descansará, entrará no Museu de Arte Antiga onde encontrará um Pintor Copiador de Bosch, conversará e suará muito no escaldante calor. É tudo muito verossímil, contado em tom de conversa ao pé do ouvido, mas é a realidade de uma alucinação. Em Requiem, é natural acertar as contas afetivas com os mortos. Pouco a pouco, o vaudeville vai diminuindo seu ritmo e tornando-se melancólico. Uma obra-prima.

Recomendo fortemente. A edição é da extinta Cosac; isto é, acho que só pode ser encontrada em sebos.

 (Livro comprado na Ladeira Livros).

Antonio Tabucchi (1943-2012)

Antonio Tabucchi (1943-2012)

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O Torcicologologista, Excelência, de Gonçalo M. Tavares

TORCICOLOGOLOGISTA-280Duas pessoas, ou excelências, como prefere Gonçalo M. Tavares, conversam sem parar sobre os mais variados e, às vezes, disparatados assuntos. Não há descrições, introduções, “palavras do autor”, nada disso. O que há são diálogos cerrados, como uma peça de teatro onde dois indivíduos (ou travessões) falam sem parar. São muitos capítulos, todos eles com títulos que parecem ter sido buscados nos romances ingleses do século XVIII. Dito assim, parece confuso, mas não é. O Torcicologologista, Excelência é um livro fluido em que a lógica é subvertida ou seguida de forma tão rigorosa que acaba em absurdo. Os assuntos são os mais variados. O livro inicia tratando de revoluções, e vai para qualquer lado, como a dança, a preguiça, o corpo, as ideias — há uma guilhotina que corta ideias tolas — , a moda, a tradição, a covardia, a coragem e a linguagem, a linguagem, a linguagem. É um livro cheio de filosofia e ironia, onde as pequenas e grandes questões individuais e coletivas têm o mesmo tamanho.

O Torcicologologista, Excelência mostra um escritor único, desses que nos provam que nem tudo ainda foi feito. Se as frases são claras, o todo é desconcertante e estranho. E com desvios. “Tudo o que é sério tem dois lados divertidos”, escreve Tavares. Desta forma, nada deixa de passar por sua máquina de experimentações que atenta moderada ou crassamente contra o sentido convencional das coisas.

Eu adorei o livro. Ele não apenas escancara uma superfetação de fantasias e possibilidades como aponta para um mundo impossível no Brasil literal e burro de hoje. Um mundo onde a linguagem nem sempre fala daquilo que deixa no papel.

Eu penso muito que a criação crítica sobre o contemporâneo é uma criação crítica sobre a linguagem, porque nas democracias grande parte das batalhas essenciais são linguísticas. E nós percebemos que a linguagem é uma máquina que pode funcionar de diferentes maneiras: uma máquina por vezes irônica, por vezes de manipulação, por vezes uma máquina de cercar, muitas vezes uma máquina de tentar explicar a realidade. Portanto a linguagem está sempre no centro da democracia. Felizmente, de alguma maneira, a arma foi substituída pelo verbo. E o que me parece interessante é que as pessoas deveriam ter uma espécie de manual de defesa da linguagem e não têm, um pouco como aprender uma arte marcial, aprender a estrutura da linguagem, a forma como ela funciona. E no Torcicologologista, os diálogos partem muito dessa ideia de que as frases não dizem apenas uma coisa, elas têm vários sentidos, podem ir por um caminho, ou pelo caminho oposto; que a linguagem pode ser sabotada, que a linguagem pode aparentar que está a falar de uma realidade mas está a falar de outra. Percebemos que a linguagem depende de quem a diz, pois mais importante que perceber a frase de alguém é perceber o que essa pessoa quer. De alguma maneira os diálogos andam muito à volta dessas ideias, pois o diálogo é uma maneira da pessoa dizer coisas que não sabia que sabia. É o outro, através de suas questões, de suas frases, que faz que eu diga algo novo para mim, portanto o diálogo não é um somatório de monólogos, é mesmo uma possibilidade de descobrir coisas diferentes. E nesse aspecto esses diálogos são claros herdeiros dos diálogos clássicos, de Platão, e daquela ideia socrática das perguntas até como uma espécie de tortura. São questões que de alguma maneira não têm resposta prévia e, portanto, provocam uma investigação individual. Nesse sentido O torcicologologista é um herdeiro desse mundo.

Gonçalo M. Tavares, talvez à espera de um torcicologologista

Gonçalo M. Tavares, talvez à espera de um torcicologologista

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Leituras no Estomago Café

Descobrimos há poucos dias o Estômago Café ali na subida da Miguel Tostes. O local é ótimo, a comida e os petiscos veganos são sensacionais, mas tem mais. Sobre as mesas estão os livros de um grande leitor. No caso de uma grande leitora, a proprietária Júlia Fraguas. Não são livros de literatura comum, mas excelentes livros que foram lidos e anotados. Os livros anotados são coisas vivas, digo eu, um contumaz riscador e sublinhador deles, além de dialogador com autores ausentes, muitas vezes mortos.

Como sabemos, todo apaixonado por livros gosta de que falem bem de literatura, de que lhe elogiem os hábitos e a estranha forma de vida que o faz carregar livros para perto de si, como se fossem objetos transicionais. (Sabe aquele paninho, bichinho de pelúcia ou qualquer objeto que sirva de apoio emocional para a criança na infância? Pois é, o nome daquilo é objeto transicional e é fundamental porque tem a função simbólica de produzir conforto, segurança e sensação prazerosa). O que está escrito entre os parênteses acima parece a definição de livro para algumas pessoas…

Pois bem, estava aguardando uma pessoa lá no Estômago e comecei a fotografar alguns trechos presumivelmente sublinhados pela Júlia. O resultado está aí embaixo.

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Nosso Capitão, de Sadi Schwerdt

20170907-1-sadi-capa-706x1024Eu nasci em 1957 e acompanho futebol diariamente desde 1966, quando a Copa da Inglaterra me fisgou. Por outro lado, um núcleo familiar 100% colorado me trouxe para o Inter. Então, por ter vivido os fatos como expectador e torcedor, conheço boa parte daquilo que é descrito pelo lateral Sadi Schwerdt, o Sadi, neste livro franco e belamente escrito. Li feliz e muito rapidamente suas 222 páginas de texto simples e direto.

De certa forma, aos 75 anos, Sadi segue sendo o capitão do Inter. Sua visão ainda é a de identificar problemas e denunciá-los, mas também guarda a postura de proteger colegas e a instituição. Os anos 60 foram terríveis para os colorados. O Campeonato Gaúcho era o máximo que Grêmio e Inter podiam aspirar e, entre 1956 e 1968, o Grêmio ganhou todos, à exceção de 1961. A derrota de 1962 foi especialmente ridícula. Sadi chegou depois disso à titularidade, para ser a estrela de um Inter que destinava recursos para a construção do Beira-Rio e deixava os investimentos em futebol para um plano secundário. Lembro que o time nem era tão ruim, mas os dirigentes do futebol faziam coisas, que vistas de hoje… Como é que deixaram Alcindo escapar para o Grêmio? Como é que Sérgio Lopes também foi parar no tricolor? E por que contrataram Foguinho para técnico em 68? (É o mesmo que o Grêmio contratar Falcão hoje para dirigir a equipe ou o Inter contratar Renato). José Alexandre Záchia era tão perdido quanto seus filhos Pedro Paulo e Luiz Fernando, que afundaram novamente o Inter nos anos 90. Ou seja, os dirigentes da época deram enorme contribuição para o adversário.

Tais confusões ficam claras no livro de Sadi, mas jamais pensem que ele grita cada um dos fatos. Não, eles são citados elegante e calmamente pelo Capitão do time. É como se perdoasse. Menos tranquilas são as referências feitas ao ambiente de sacanagem e politicagem barata da Seleção Brasileira, onde ele se destacou sem ser capitão. Analisando suas atuações por lá — que, sei, foram sempre muito boas –, Sadi é mais explícito e explica o funcionamento dos grupos de cariocas e paulistas e as pressões.

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Quando cheguei ao futebol mesmo, em 1969, já entendendo escalações, um pouco de tática e a importância de cada um, Sadi já tinha iniciado a série de lesões que o impediram de ir à Copa de 70. Já se tornara um lateral mais comedido no ataque, mas mantinha a segurança defensiva. Lembro do meu desespero cada vez que Jorge Andrade era escalado em seu lugar. Lembro também dos gritos da torcida do Grêmio com a finalidade de perturbá-lo. Gritavam até o nome de sua esposa… E sei que só os grandes jogadores recebem tal tratamento. (Lembro também de vaiar Ronaldinho e outros grandes jogadores do Grêmio… Puro medo, né? Ninguém perde tempo e voz com as ruindades).

Como disse João Saldanha, nos anos 60, o Inter era um time modesto com um grande jogador. Ficou assim até 1968, quando começaram a aparecer Claudiomiro, Bráulio, Sérgio, Valdomiro, etc, e um novo período de glórias chegou.

Nosso Capitão dá um belo painel do clube e do Rio Grande daquela época sob a ditadura militar. Também traz fotos e a recordação especialíssima abaixo. Esta é a foto do álbum Gigante da Beira-Rio que dez entre dez crianças coloradas completaram, incluindo este que vos escreve. É óbvio que reconheci na hora.

Recomendo o livro, mas antes de terminar, digo que Sadi, quando entrou para a política, rejeitou a Arena. Escolheu a oposição. Isso diz muito de meu ídolo.

O lançamento de Nosso Capitão será dia 14 de Setembro, quinta-feira, no Restaurante Terra & Cor Gastronomia (Avenida Praia de Belas, 1400) com a presença de velhos ídolos colorados.

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Passado Perfeito, de Leonardo Padura

Padura Passado PerfeitoBêbado, logo após uma virada de ano bastante alcoolizada, o detetive Mario Conde é acordado por seu chefe, o Velho, com uma urgência: Rafael Morín, um executivo do Ministério da Indústria, homem que viaja pelo mundo negociando produtos da ilha, está desaparecido. Morín é um ex-colega de aula que ostenta a fama de ser rigorosamente honesto e competente. Um grande quadro, dos maiores. Conde chega a reclamar dos elogios unânimes que são feitos a ele. Tinha um passado perfeito. Para completar é casado com Tamara, espécie de símbolo sexual da escola, a mulher por quem todos eram apaixonados 17 anos antes. Já Mario, triste e desiludido, é a antítese de Rafael.

Não leio muitos livros policiais. Alguns amigos mais especializados na área aprovam com reservas a série de livros policiais de Padura que tem Conde com personagem principal. Faltariam o humor e as frases de efeito típicas do gênero, sobrariam sexo e cenas de Havana. Chego à conclusão de que, com efeito, não sou um grande admirador do gênero, pois achei que Passado Perfeito está muito acima da média que gênero. Gostei demais da cor do romance, da criação do ambiente e das pessoas que circulam tratando uns ao outro como latinos — queridos, afáveis e corruptos. Importante: Padura jamais deixa de fazer críticas à cidade e ao país. Parece ter menos medo de criticar a situação do que os escritores brasileiros, que desejam convites para feiras e eventos e evitam críticas aos políticos…

Li, em algumas outras críticas, certa má vontade com o fato de haver tanta gente esperta e viva em Havana. Também com o fato de Padura descrever a prostituição, a pobreza, a vida de pessoas que vão se ajudando, se amando e sobrevivendo bem — inclusive a do amigo Magro, que ficou paraplégico em razão de um tiro que levou na Guerra de Angola –, sem grandes ranzinzices. Mas estes são os nossos tempos, né?. Já eu, que estou aqui pela literatura mesmo

Recomendo.

Livro comprado na Bamboletras.

padura

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Cinzas, poema de Sergei Kruglov

Às vezes, eu e Elena traduzimos alguma coisa do russo para o português. Dá trabalho, porque ela me explica palavra por palavra, dá o sentido e discorda de minhas soluções… Menos mal que logo entramos em acordo. Ontem à noite (28), ela me pediu ajuda para traduzir um poema que ela ama, de autoria do padre-poeta ortodoxo Sergei Kruglov. Eu sou ateu, ela é ortodoxa. Sem problemas, ainda mais que nenhum dos lados jamais fez proselitismo e o poema é estrondosamente bom. Desta vez foi tudo muito rápido. Espero que Kruglov não saiba português.

Cinzas

— Não vi o seu Cristo!

— Eu vi meu Cristo.
Ele não foi longe,
Ele esteve, como todos nós,
Na linha de produção da morte.
Ele era apenas um trabalhador.
Ele está entre nós.
Apenas Ele consegue
Cometer sabotagem:
Colocar em cada pistola uma falha,
Em cada bomba, a possibilidade de não explodir,
Em cada cela (lembre-se do
Ano 23, o dentista Turner?
Sua angústia em termos de
Limpeza do estilo? – lembre-se:
“Ação Tiergartenstrasse 4”?) – monta uma porta,
Pequena, estridente, que vai
Para o céu.

É isso que Hannah Schwanke,
Membro do Esquadrão da Morte,
Testemunhou perante todo Nuremberg:
“Eu vim, apenas a manhã amanheceu,
Trazer a mirra. Mas os portões do forno
Estavam abertos. Não havia nem cinzas. Alguém
Removeu a pedra,
E os restos de quinhentos e cinquenta e cinco condenados
Não foram encontrados.”

Sergei Kruglov
28/08/2015

Campos de concentração

.oOo.

Para quem curte um russo, aqui está o original:

ПЕПЕЛ

-Я не видел твоего Христа!

-А я видел моего Христа.
Он недалеко ушёл,
Он трудится, как и все мы,
На конвейере смерти.
Он был просто рабочий.
Он среди нас.
Только Он умудряется
На этом конвейере
Совершить диверсию:
В каждый пистолет заложить осечку,
В каждую бомбу вложить возможность невзрыванья,
В каждую камеру (помнишь
23 год, стоматолога Тёрнера?
Его мучения в плане
Чистоты стиля? – помнишь:
«Акция Тиргартенштрассе 4» ?) – вмонтировать дверцу,
Маленькую, скрипучую, ведущую
В небо.

Вот потому Ханна Шванке,
Член айнзатцкоманды,
Свидетельствовала пред всем Нюрнбергом:
«Я пришла , только забрезжило утро,
Принести туда миро. Но врата печи
Были открыты. Не нашлось даже пепла. Кто-то
Откатил камень,
И останков пятисот пятидесяти пяти приговоренных
Найдено не было».

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Correr com rinocerontes, de Cristiano Baldi

correr com rinocerontesDespretensão, sinceridade, texto curto e fluido. Era isso o que queria quando comecei a escrever resenhas de livros neste blog. A merda é que esta é a 243ª resenha que escrevo e hoje o Google me encontra fácil quando alguém quer saber de um livro que eu tenha lido nos últimos anos. Hoje, o desafio é fazer de conta que ninguém lê estas resenhas. Não é fácil fingir esquizofrenia. Pois se considerar que alguém pode balizar sua compra por mim, vou revisar e revisar o texto, inclusive retirando o que mais gosto, o estilo gonzo das resenhas.

Então começo dizendo que tive a impressão de que o livro de Cristiano Baldi, Correr com Rinocerontes, cresce muito à medida que avança, mas que isso talvez tenha mais a ver com a lentidão com que iniciei a leitura — estava bem atrapalhado pessoalmente — e com o tempo que finalmente pude dispor para ler a segunda metade.

O livro pode ser dividido em duas partes, antes e depois de um trágico acidente familiar que não vou contar. Na primeira parte, o narrador subitamente viaja de volta para Porto Alegre a fim de encontrar sua família. Algo tinha acontecido. De forma divertida, ele nos mostra que não é aquele bom-moço coisa querida tão presente nos discursos feicebuqueanos e tão ausente na atividade prática dos donos dos perfis. Ou seja, ele é franco ao expressar algumas vagas opiniões políticas e franco no prazer, desprazer e dor, assim como em narrar alguns descompromissos afetivos. Suas observações sobre Porto Alegre são lastimáveis e absolutamente cheias de razão.

Quando os motivos da viagem passam ao papel, o livro cresce muito ao mostrar a reação de cada familiar à tragédia. Cada um corre para um lado. Com personagens bem construídos, o tom é o do humor ácido, apesar dos acontecimentos narrados serem efetivamente estarrecedores. Na escolha da linguagem, creio que uma das maiores influências seja a do Salinger do Apanhador. Tal escolha impõe um narrador inteligente, suficientemente interessante, divertido e iconoclasta. É o caso. (Mas jamais pensem que a vinda para sul tenha algo da literatura de Noll, tá?).

Recomendo.

Cristiano Baldi: no livro ele é bem mais animado. (Foto roubada do Guia de Caxias do Sul)

Cristiano Baldi: no livro ele é bem mais animado. (Foto roubada do Guia de Caxias do Sul)

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De Amor e Trevas, de Amós Oz

De amor e trevas Amós OzLi este livro após enorme insistência do meu amigo de Fortaleza Heitor de Lima, o Rei do Inbox Literário, que só conheço das teclas. É claro que, após a grande propaganda, minha expectativa era muito elevada. Oz não negou fogo, pelo contrário. No início, achei que estava lendo um Dickens moderno, um escritor dedicado a contar uma autobiografia detalhada, uma história familiar que acabaria — isto não é spoiler, está na contracapa e o autor reafirma a cada momento o que acontecerá no final — com o suicídio da mãe de Oz. Os avós, os tios, suas vidas na Europa, a nova diáspora ocorrida antes e durante a 2ª Guerra Mundial, tudo é contado com riqueza de detalhes.

A prosa de Oz é tão viva e humana que o desespero explícito dos filmes de judeus de Hollywood é um item menor em relação à vida interior dos personagens. A tristeza, mesmo o suicídio da mãe, vem digna, sem exageros. O sofrimento é autenticamente judeu, contado sempre com um humor levemente auto-depreciativo. O livro é um sinfonia. Tem momentos de enorme pesar e outros hilariantes. Oz é um mestre. Humor, drama e fatos familiares de então e de agora estão misturados de tal forma que tudo me pareceu potencializado, muito sensível e vivo, mas sem jamais cair na pieguice de um Dickens.

O livro foca a relação de Oz com os pais e as famílias paterna e materna. Vista pelos olhos da criança, as decepções da mãe — uma mulher linda e brilhante do ponto de vista intelectual — e a figura do pai — um erudito árido e chato, espécie de fracassado dentro de uma família com meia dúzia de escritores de peso em Israel — são descritas em pinceladas incompletas, de uma forma onde o leitor compreende o todo por sua própria vivência. Como pano de fundo, está a formação do estado de Israel, fato que encanta o pai de Amós e é visto com indiferença pela mãe.

A autobiografia de Oz é interessante também porque sua vida é muito distinta do comum. Dois anos após a morte da mãe, com apenas 16 anos, Oz saiu de Jerusalém, abandonou a futura carreira de escritor que todos os Klausner — família do pai — previam e foi viver em um kibutz, largando de vez o pai para tornar-se um “um homem do campo”. Mesmo que Oz não fale muito mal do pai, fica claro o motivo pelo qual ele muda o seu sobrenome de Klausner para Oz.

As desajeitadas aventuras sexuais do adolescente também são contadas com especial cuidado e talento. As coisas dos meninos estão lá.

(Já comecei a ler um outro livro hoje, de um escritor gaúcho. Ele logo dá duas opiniões políticas gratuitas e faz uma mal disfarçada autopromoção. Acho melhor voltar a um escritor de virtuosismo arrebatador como Oz. Após mais de 600 páginas de prosa inteligente, bela e modesta, é triste voltar a nossa realidade. E que elegância Oz demonstra em suas considerações políticas sobre Israel!).

Mas Oz é filho de pai e mãe. Afinal, tornou-se o grande escritor que os Klausner prognosticavam e sua relação com a mãe é fundamental. Sua morte marcou as escolhas de Amós de uma forma decisiva. Se numa primeira fase a revolta fez com ele fugisse da literatura, o tempo encaixou os ensinamentos de uma família que se entregava à cultura com intensidade. Também é sugerido que a mãe virou suas opiniões políticas para a esquerda.

A elegância e o perfeito senso de estilo de Oz estão por todo lado. Aqui vou dizer, ali omitir.

O final, que não contarei, é de extrema simplicidade, é comovente, curto e exato. Oz escolhe um lamento, um apelo, um rogo inútil e impotente que torna complicada a leitura das últimas linhas com aquelas letras dançando enquanto a gente tenta se controlar.

De Amor e Trevas é grande literatura. Recomendo fortemente.

Livro comprado na Bamboletras.

Amós Oz

Amós Oz

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Se eles cagam para o plágio, por que vou me importar?

Sou todos os autores que li, todas as pessoas que conheci, todas as aventuras que vivi.
Jorge Luís Borges

Certa vez, um crítico contou o número de plágios de Shakespeare. Ele vasculhou 6.043 versos. Destes, 1.771 foram copiados, 2.373 foram reescritos (na verdade foram muito melhorados) e os restantes 1.899 pertencem a Shakespeare. Entre os plagiados, há autores como Robert Greene, Marlowe e muitos outros. Mas, meus amigos, a obra é de Shakespeare. Afinal, só ele juntou e alinhavou tudo aquilo.

Shakespeare brincava que às vezes boas filhas nascem em más familias e que cumpria corrigir a natureza… Mas ocorre também o contrário de uma filha estabelecida em boa família migrar para uma pior ou para uma de mesmo porte.

Deste modo, se um autor rouba ideias de outro, é plágio; se rouba de muitos autores, é pesquisa. Esta frase é minha? Sei lá, entende? Ah, Chaucer, Sterne e De Quincey também foram grandes ladrões. A grande, a imensa literatura inglesa está cheia deles.

Dentre os músicos, Bach, mas principalmente Rossini e Händel, faziam algo mais lícito, mas que às vezes enche o saco. Eles faziam o autoplágio, complicado de ser descoberto numa época em que as músicas eram apenas escritas em partituras, mas facilmente descoberto hoje, mesmo por meros melômanos como eu.

Meu blog já foi plagiado. Ontem descobri mais um. Eram duas frases. Olha, quando é uma frase, um trecho, fico até honrado. Agora sei que é sabedoria…

O Eduardo Lunardelli publicou em seu blog duas divertidas imagens relativas a plágio que copio, claro, abaixo.

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A Noite das Mulheres Cantoras, de Lídia Jorge

O volume da LeyaA Noite das Mulheres Cantoras

O volume da LeYa de A Noite das Mulheres Cantoras, de Lídia Jorge

Há poucas semanas, li com agradável surpresa o livrinho de contos de Lídia Jorge Praça de Londres. A excelente impressão que tive da escritora portuguesa ampliou-se nesta narrativa longa, o belo romance A Noite das Mulheres Cantoras (LeYa, 320 páginas). O livro inicia com o reencontro das mulheres que formavam um grupo musical dos anos 80, o Apocalipse. Durante o evento, surge João Lucena, que voa em direção a Solange Matos, narradora do romance. “Lembras de mim?”.

Toda a narrativa, contada em primeira pessoa pela letrista do grupo — a citada Solange — dedica-se a explicar e detalhar o significado deste reencontro, coisa que não faremos aqui. Além disso, mostra a trajetória do quinteto vocal lisboeta em busca de espaço no mundo pop português. O grupo tinha como projeto o estilo dançante de Donna Summers e aquilo que chamavam de “música para ver”, ou seja, mulheres que cantavam, dançavam e encantavam com suas coreografias e músicas. Para tanto, era necessária muita disciplina e a líder do grupo, Gisela Batista, chegava ao ponto de tentar impedir os namoros de suas pupilas e de trazer balanças para que elas se pesassem diariamente. Nada de engordar, meninas! Às vezes, havia clara revolta: “Música para ver, pintura para ouvir, comida para ler, roupa para cheiras, dança para roer…” — ironizou uma das cantoras –, mas o maior perigo vinha sempre silenciosamente e de lugares afastados das fofocas das moças e do controle de Gisela.

A narrativa de Lídia Jorge é estupenda do ponto de vista da criação de cada um dos clímax. Com pleno domínio de vários meios narrativos, a autora alterna trechos decididamente cronísticos com outros de grande densidade de significados. Os traumas gerados pela busca incessante da fama e dos holofotes, independentemente do preço, são graves e irreversíveis para as meninas do Apocalipse. Tal como nos livros de Jane Austen, uma série de detalhes de aparência fútil servem para mostrar um pesado pano de fundo social, em parte vindo continente africano.

A Noite das Mulheres Cantoras traz uma excelente construção de personagens, como as das cinco mulheres, a do coreógrafo João de Lucena e do estudante Murilo Cardoso — espécie de consciência da obra. Além da alternância de estilos, Lídia Jorge trabalha com esmero e bons resultados o fato de o presente estar sempre lá, lançando seu olhar perplexo sobre os anos 80. O movimento de fazer emergir fatos do passado para o presente raras vezes foi tão bem articulado.

Indico!

Lidia Jorge

Lídia Jorge

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Poemas, de Wisława Szymborska

A edição da Cia. das Letras

A edição da Cia. das Letras

Na semana passada, minutos após comprar este livro na Ladeira Livros, fui almoçar com meu amigo Norberto Flach no Tuim. Cheguei à mesa onde ele estava sentado e lembrei que tinha esquecido o celular. Estamos passando pela tortura de reformas em casa e é sempre bom estar com o aparelho por perto. Antes de voltar rapidamente ao Sul21 ali pertinho para pegá-lo, disse para o Norberto meio de brincadeira: “Fica lendo isso aqui que eu já volto”. Quando voltei, ele falou que parecia que a poetisa falava em seu ouvido. Boa observação. A sensação de profunda, inteligente e simpática empatia, além da beleza, talvez sejam mesmo as características mais fortes da grande Wisława Szymborska, Nobel de 1996, escritora vinda do mais poético dos países onde as consoantes mandam recados assustadores aos ignorantes como eu.

O personagem japonês de Paterson — no final do filme, lembram? —  diz que ler poesia traduzida é como tomar banho de capa de chuva, mas a única forma de tomar conhecimento com a maravilhosa obra da polonesa Szymborska é a tradução e eu achei lindos, verdadeiramente inesquecíveis, os poemas traduzidos por Regina Przybycien. Não sei o quanto perdi usando capa de chuva, mas o que sobrou foi muito.

Alguns chamam Szymborska de o Mozart da Poesia e creio que a comparação não é nada absurda. A irresistível de combinação de ousadia e leveza é Mozart, mas a de sinceridade e intimidade são Tchékhov. Quando a comparo alguém a Tchékhov, estou fazendo comparações com o escritor que mais valorizo, com aquele que, como disse Konchalovsky, a gente fala quando escreve alguma coisa duvidosa. “O que você acharia disso, Anton?” e só prossegue após o consentimento do russo.

Em 60 anos de vida literária, Szymborska publicou apenas uns vinte livros curtos. Ela explica: “Escrevo os poemas à noite, mas releio-os à luz do dia, e nem todos sobrevivem”. Aprendam, meninos.

Szymborska tem humor de Drummond, boa filosofia, amor pelo humano, fluência, fabulação, ou seja, tudo o que gosto. É uma poesia coloquial, anti-sentimental e despojada de efeitos fáceis, de sofisticada simplicidade. Faz perguntas “inocentes”, terrivelmente inocentes. A clareza é absoluta. Fico imaginando o que são seus famosos artigos em revistas, onde dava mais vazão à veia humorística.

É difícil falar sobre um livro tão delicado e do qual se gostou tanto sem a indelicadeza da adjetivação. Talvez seja melhor dizer logo que — agora que o li e vou pegar outro — tenho vontade de morder o livro para seguir sentindo seu gosto.

Ah, os poemas dela, mesmo em português, estão por toda a internet. Então só vou deixar um com vocês. Um dos mais famosos. E super recomendo o livro.

Alguns gostam de poesia

Alguns —
ou seja nem todos.
Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.
Sem contar a escola onde é obrigatório
e os próprios poetas
seriam talvez uns dois em mil.

Gostam —
mas também se gosta de canja de galinha,
gosta-se de galanteios e da cor azul,
gosta-se de um xale velho,
gosta-se de fazer o que se tem vontade
gosta-se de afagar um cão.

De poesia —
mas o que é isso, poesia.
Muita resposta vaga
já foi dada a essa pergunta.
Pois eu não sei e não sei e me agarro a isso
como a uma tábua de salvação.

(Livro comprado na Ladeira Livros).

Wisława Szymborska (1923-2012)

Wisława Szymborska (1923-2012)

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O Ruído do Tempo, de Julian Barnes

O Ruído do Tempo Julian BarnesO Ruído do Tempo usa o enorme drama que foi a vida de Dmitri Shostakovich como material ficcional. É um livro dividido em três seções maiores que contêm, cada uma delas, capítulos curtos e fora de ordem cronológica, muitas vezes de apenas um parágrafo. Tais capítulos vão adicionando informações curiosas ou estarrecedoras sobre o compositor, tudo com bastante invenção, mas sobre um esqueleto rigorosamente biográfico, verdadeiro.  As três seções mostram os três traumáticos encontros de Shosta com o poder, em 1936, em 1948 e em 1960. Todos em anos bissextos, todos separados por 12 anos. A ideia é boa, mas…

O livro é pouco sofisticado, extraordinariamente conservador e chega a ser “matado” em vários trechos, não fazendo jus às nem à arte de Shostakovich, nem a seus dramas. As críticas ao regime soviético são naturais e inteiramente razoáveis, não fosse a profusão de clichês bobos ao estilo da CIA. O pior é que a ficção de Barnes não faz a biografia ou os dramas vividos pelo compositor avançarem em qualquer direção.

FaulknerPara quem, como eu, acredita que só a ficção arranha a realidade, o livro foi uma decepção. Espécie de jornalista gonzo imaginário, Barnes vai ficando cada vez mais afastado da obra de seu biografado, perdido em detalhes triviais. Não há complexidade ou verdadeira tensão, apenas contradições — verdadeiras — e medo mal descrito. O livro de Barnes toma um baile das poucas páginas dedicadas a Shosta no clássico de Alex Ross O resto é ruído, de quem parece ter roubado o título.

O livro é, em parte, um exercício de nostalgia da Guerra Fria. Coisa muito inglesa para descrever um soviético. Seus melhores trechos são aqueles que examinam a natureza da integridade pessoal. A ótima arte pode nos resgatar do “ruído do tempo”, superar tudo e, portanto, desculpar o comportamento ruim? E era possível comporta-se melhor? Acho que faltou a Barnes alguma vivência sob regimes ditatoriais. Sua descrições são de um tranquilo inglês que examina à distância um Shostakovich que é muito mais herói — e concordamos nisso, Mr. Barnes — do que Mephisto.

(Livro comprado na Ladeira Livros).

Julian Barnes

Julian Barnes

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A Noiva Jovem, de Alessandro Baricco

A Noiva Jovem Baricco(Sem spoilers). De escrita primorosa e de grande originalidade, A Noiva Jovem deixou-me verdadeiramente embasbacado. Em entrevista que li agora, concedida ao Estado de S. Paulo, Alessandro Baricco afirma que se propôs a escrever um livro com 20% de realismo mágico, 20% de Lampedusa e 60% dele mesmo. Deu razão a este leitor que, sem entender de onde vinha aquele argumento, pensou em uma mistura de García Márquez e Lampedusa. Uma mistura altamente poética e potente. Só que ainda predominam, é claro, os 60 % de Baricco, com as constantes e curiosas intervenções do escritor no texto, que fala até num notebook perdido e numa namorada que critica a obra que está sendo escrita, além das perfeitas mudanças de foco narrativo. Também há Baricco na criação de um clima estranho, que faz com que o livro grude em nossas mãos, como já me acontecera na leitura de Mr. Gwyn.

Tudo acontece em um ambiente familiar muito curioso. Não há nomes, mas um Pai, uma Mãe, um Filho, uma Filha, um Tio. E a Jovem Noiva. O único que ganha nome é Modesto, o gentil mordomo que tudo vigia para que a felicidade seja um estado permanente. As relações são delicadamente insanas, as manias e medos são muitos.

O Filho conhece a Jovem Noiva ainda adolescente e ela é prometida a ele. Conheceram-se na Europa, mas a família dela, falida, foi tentar a sorte na Argentina. Quando completa 18 anos, a Jovem Noiva atravessa o oceano de volta para chegar a uma paisagem que parece a Sicília de Lampedusa. Vem para juntar-se ao Filho. Ela entra numa casa que parece cheia de personagens de García Márquez, todos eles docemente malucos, dando respostas e tomando atitudes entre o desconcertante e o poético, mas de um realismo mágico altamente racional.

Mas o Filho não está lá e demora. Entre os mil fatos, novidades e experiências que a casa oferece, o far niente começa trabalhar. Passam-se meses e a tensão cresce. E o Filho não chega. Isto atormenta e faz amadurecer a Jovem Noiva. Ela mantém a certeza de que ele virá.

Parabéns para a excelente tradutora Joana Angélica d`Avila Melo. Não deve ser fácil traduzir um livro que muda tantas vezes seu foco narrativo.

Baricco é um escritor altamente sofisticado que também faz crítica musical de música erudita, é pianista e apresenta um programa na televisão italiana. Seria bom iniciar correntes de orações para que tivéssemos alguém tão talentoso por aqui.

Recomendo fortemente!

Livro comprado na Bamboletras.

Baricco também faz critica musical. De eruditos, claro.

Baricco também faz critica musical. De eruditos, claro.

 

 

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Não há amanhã, de Gustavo Melo Czekster

Gustavo Melo Czekster não há amanhãQuando recebi este livro de Gustavo Melo Czekster, sorri imediatamente. Conheço o Gustavo. Ele é um cara simpático de 1,90m e tem o sorriso mais fácil do mundo. Invejo-o. Trata-se de um craque das fotos, algo que nem sempre é fácil para este que vos escreve. Porém, se eu tirasse uma foto com o autor de Não há amanhã, sei que sorriria de forma muito convincente. Inevitável. Parece um sujeito muito alegre. Mas… Ao ler os 30 contos de Não há amanhã, ficam claras as sombras de envolvem esta criatura que, de forma concomitante ao lançamento do livro, mudou sua foto de perfil no Facebook, antes sorridente, por uma muito séria (abaixo). Não vou especular.

Sempre que recebo um livro de um amigo, fico na dúvida se devo ler ou não. Porque é chato criticar pessoas que cruzam com a gente. Tenho graves problemas nesta área. Já dei palestras a respeito do tema de ser crítico em nossa província. Na palestra, contei sobre a Ospa, sobre alguns escritores que passaram a me negar cumprimento, sobre ameaçadores e-mails, sobre músicos que dizem que eu não entendo nada de nada, sobre pequenos linchamentos patrocinados por autores e músicos no Facebook que costumam dar o link de meu texto e perguntar para seus amigos: “Vocês concordam com este crápula?”. Quem está de fora, ri, enquanto eu procuro ignorar, o que é difícil às vezes.

Abri Não há amanhã, segundo livro de Gustavo — não li o primeiro — e, após o susto de ler seu prefácio histericamente laudatório — autoria de um sujeito que fala em “estonteante linha final” –, fiquei surpreso por sua alta qualidade. Estou com sorte porque, nos últimos seis meses, li três excelentes livros escritos por vizinhos: o de Nelson Rego, o de Julia Dantas, o de Iuri Müller e este. Ufa, vou passar mais um tempo sem problemas, já que desisti de escrever sobre a música de Porto Alegre.

Não há amanhã é um livro de 160 páginas e 30 contos que variam entre o curtíssimo — praticamente crônicas ficcionais — e o longo. Mas a característica principal é que, mesmo que autor transite bastante na área do fantástico, suas criações não são nada leves, ligeiras ou meramente mágicas. São histórias de impacto que não prescindem de um pós-prandial reflexivo. Eu não conseguia partir para a próximo conto sem parar para pensar sobre o que tinha lido. Algumas histórias são dignamente grandiosas, outras são irônicas, mas todas elas perturbam através de elementos representativos de fatos exteriores que amplificam o texto.

Gostei muito do insolucionável Problemas de Comunicação, do ofegante A Passionalidade dos Crimes, do curioso e igualmente ofegante Neve em Votkinsk, dos conselhos de Os que se arremessam, das multiplicações de Os problemas de ser Cláudia (que merecia perder seus 3 últimos parágrafos *), do mímico Mas não falam, das elegantes equações de A revolução como um problema matemático, da bela cena de O silêncio e do parque de Um outro sentido. Mas nada do restante é esquecível.

Os contos guardam fartas doses de unidade entre si e, repito, não são de modo algum literatura descartável, de entretenimento. Czekster consegue fabular e ser autenticamente filosófico, por todo o tempo. É literatura séria, até um pouco dura e sombria, onde o fantástico e a morte estão muito presentes.

Recomendo fortemente.

* Explico: como um devoto da ficção, não gosto quando entra certo “tom de tese”. Não estraga o conto, mas ele poderia ser perfeito, não?

Gustavo Melo Czekster

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O Tribunal da Quinta-feira, de Michel Laub

O Tribunal da Quinta-Feira

É preciso ser muito estúpido para transformar um registro teatral e hiperbólico entre duas pessoas conversando em privado numa declaração literal e pública que revela intenções e caráter.

Michel Laub, O Tribunal de Quinta-feira

Sem spoilers, tá? O publicitário José Victor, de 43 anos, está se separando após um casamento de 4 anos com Teca. Ele sai de casa deixando o computador e, poucos dias depois, ela descobre uma série de e-mails trocados entre seu ex e Walter, um velho amigo gay de Victor. Eles têm um tratamento bastante franco, jocoso e “incorreto” nos e-mails, mas suficientemente irritante e informativo para Teca, que bota os melhores lances no maior dos ventiladores, as redes sociais. (Não pensem que os amigos tinham um caso, nada disso, Laub não se utiliza de lugares-comuns). E começa o linchamento típico da Internet, cujas consequências são tratadas por Laub. Este é um resumo que ignora boa parte da complexidade do romance, que também envolve AIDS, relações profissionais, culpa e hipocrisia.

O livro é ótimo, mas há algo que me incomodou. Laub é um narrador poderoso e, em capítulos curtos, vai montando uma complexa teia que nos traz um contexto bem real da situação. Seu ritmo é lento e inexorável. A cada capítulo, vamos sabendo mais e mais, mas não gostei das pequenas intervenções ensaísticas inseridas na narrativa e nem da aceleração final da mesma. Me pareceu que Laub, controlando magnificamente a história, decidiu deixá-la sensacional nos últimos capítulos. Ou seja, já tinha ganho a partida quando decidiu massacrar. Acabou tomando um contra-ataque que resultou num inútil gol do adversário e manchou o que estava perfeito. Tipo 7 x 1.

O tribunal do título refere-se principalmente à explicação que ele terá de dar que à pessoa que realmente feriu durante o episódio, mas tal fórum pode ser expandido para o descontrole, suscetibilidades, desinformação e distorção das redes sociais.

Excelente livro. Recomendo.

michel_laub

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Carta pública de Mempo Giardinelli a Mario Vargas Llosa

Admirado Mestre, onde quer que esteja:

Eu não tive a sorte de ser seu amigo, mas, como você sabe, considero-me seu devoto discípulo. Ambas as vezes em que nos encontramos, uma em Buenos Aires, outra em Lima, cumprimentamo-nos calorosamente, e outras vezes o Sr. me enviou saudações, das quais me orgulho, por outros meios. Mas o que é mais importante para mim é o fato de ter lido quase toda a sua obra com prazer e paixão. Mais: como professor de graduação e pós-graduação, eu sempre dou aulas sobre seus romances, ao menos uma por ano — em 2016 eu abordei Os Filhotes — e sempre retorno a suas palestras sobre Flaubert e Arguedas.

Desde logo vou dizendo que não concordo com nenhuma de suas idéias políticas, mas até agora optei por não contradizê-lo, apenas lamentando silenciosamente várias de suas declarações. Toda vez que eu lhe vi na TV, mudei imediatamente de canal em tributo à qualidade de sua prosa, de sua poética e de seus personagens. Mesmo quando se armou um protesto em 2012, aqui em Buenos Aires, porque o Sr. iria inaugurar a Feira do Livro, escrevi neste jornal que seu Prêmio Nobel foi “irrepreensível por premiar uma estética literária moderna, inovadora, original e escrita à margem da civilização imperial”. E eu também escrevi que “para além do grande narrador, é também um cruzado neoliberal, destes que se espantam com qualquer gesto equivocado kirchnerista, mas que tolera ver Menem rifar o país, o petróleo, as ferrovias, os portos marítimos, etc.”. E chegamos a 2015, quando você fez campanha eleitoral dizendo que, “se fosse argentino, votaria em Macri”. Neste caso, também mantive silêncio, apesar de que me doía vê-lo manifestar-se.

Mas, embora eu jamais tenha retrucado as suas opiniões nem muito menos contra-atacado — e não farei isto agora –, quero lhe dizer que fiquei estupefato com o diálogo que você manteve em Madrid, nesta semana, com o presidente de meu país. Ao ver você aceitar e celebrar tanta mentira não literária, concluí que meu silêncio já era demasiado.

Vargas Llosa também têm feito aparições em peças teatrais de sua autoria. Os críticos têm sido irônicos sobre o Nobel-ator.

Vargas Llosa também têm feito aparições em peças teatrais de sua autoria. Os críticos têm sido irônicos sobre o Nobel-ator.

O governo liderado pelo Sr. Macri é um governo de bandidos, em primeiro lugar, porque chegaram ao poder prometendo o que o povo argentino queria e precisava ouvir, mas determinados — desde o primeiro momento — a trair cada uma dessas promessas.

Em segundo lugar, é um governo de facínoras insensíveis, de canalhas que, ao longo de quatro décadas, e em todos os seus governos, depositaram aproximadamente 350 bilhões de dólares em paraísos fiscais. Por isso, o primeiro ato do Sr. Macri foi o de legalizar essas fortunas, que supostamente retornariam ao país.

O Sr. Macri é hoje considerado — não no mundo da América Espanhola, é claro — um dos cinco governos mais corruptos do planeta. E o repertório de escândalos que os grandes jornais e o sistema de televisão argentino omite é chocante. Sabe-se que existem mais de 40 empresas ligadas ao Grupo Socma, de propriedade da “Famiglia” Macri. E são públicos os repetidos “perdões de dívidas” e favorecimentos, como nos casos de Correo Argentino (de seu pai) e Ferrocarril Sarmiento (de seu cunhado).

Claro que fico pasmo por vê-lo celebrar Macri, ignorando tudo isso. O gabinete argentino se assemelha ao do Dr. Caligari, com mais de 50 membros processados (incluindo o presidente e seu vice) e com vínculos perversos com a empresa brasileira Odebrecht, cuja diretoria é grande parceira do presidente.

Você deve saber, com certeza, que a atuação do Supremo Tribunal Federal foi alterada através de decreto e que agora o país é governado por “decretaços” como fizeram há décadas os militares aqui e os ditadores no  Peru. E com certeza está ciente dos favores obscenos a latifundiários e a alvoroçados empresários, que puseram milhões de trabalhadores na rua, destruindo não somente empregos, mas educação, famílias e sonhos. Em pouco mais de um ano, foram fechadas 7000 fábricas e empresas produtivas, o ensino público está em estado terminal e, nestes 14 meses, nossa dívida externa aumentou ad infinitum, para algo que nunca vamos pagar.

Custa-me crer que você, meu Mestre, com a sua acuidade proverbial, preste-se a esta farsa. Pergunto, então: são tão grandes os negócios que nos preparam na Espanha que justifique uma recolonização? São tão grandes esses interesses a ponto de você descartar uma grande carreira literária e favorecer um arruaceiro que se assemelha tanto a seu compatriota Fujimori?

Minha lealdade de discípulo e a consciência de minha pequenez literária não me impedem de ver, com dor, o triste papel encarnado por você na televisão ao discursar platitudes com a finalidade de criticar o presidente venezuelano. Dói-me ouvir suas falas cheias de conotações racistas e classistas.

Me deu muita pena do Sr., Don Mario, ao vê-lo tão generoso e dócil na frente do lamentável governante desta terra que lê e gosta de seus livros. Eu senti dor e um certo embaraço por ser seu admirador.

Sim, sem dúvida, vou continuar admirando sua obra literária, mas que enorme vergonha senti de vê-lo agora, em idade avançada, desempenhando um papel como Zavalita perguntando: “Em que momento se fudeu a Argentina?”.

Seguirei devoto de sua grandeza literária. Mas apenas dela.

Péssima tradução de Milton Ribeiro.

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