Em livro, Koff confirma auxílio para o Grêmio sair da Série B em 1992

fabio-koffNo livro Fábio André Koff, Memórias e Confidências — o que faltou esclarecer, depoimento do ex-presidente do Grêmio nos períodos de 1982-1983, 1993-1997 e 2013-2014, concedido a Paulo Flávio Ledur e Paulo Silvestre Ledur (Ed. Age, 2a. edição), há um trecho que põe por terra um dos mitos gremistas, o da volta “honesta” para a primeira divisão em 1992. O livro conta os bastidores das principais conquistas de Koff no clube e outros detalhes deliciosos. Sabiam, por exemplo, que Koff foi técnico de futebol?

O livro completo encontra-se neste link. Mas o que nos interessa é esclarecer um ponto que os gremistas adoram negar: que houve uma enorme colher de chá para que o clube voltasse à primeira divisão em 1992. Houve. E com a participação do ínclito Eurico Miranda. Vejam abaixo a palavra do ex-presidente do Grêmio:

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Estádio Chile, 1973 traz de volta Victor Jara, um homem armado de música

Publicado em 14 de setembro de 2014 no Sul21

Com o livro-reportagem Estádio Chile, 1973 – Morte e Vida de Victor Jara, a voz da Revolução Chilena (Editora Unijuí, 328 páginas), o jornalista Maurício Brum finaliza um projeto de três anos. Foram várias viagens ao Chile — passou lá seis meses, somados todos os períodos –, mais de 50 entrevistas e visitas aos locais onde viveu e morreu o compositor, cantor, diretor teatral e militante político Victor Jara. No livro, Maurício busca reconstruir a trajetória do artista e a multiplicidade de versões sobre sua morte. As entrevistas e relatos permitiram a elaboração de uma vasta crônica sobre a vida e morte de Jara, explicando não somente os fatos e as lendas, mas sua permanência na memória do Chile a da América Latina.

Maurício falou ao Sul21 no último 11 de setembro, dia dos 41 anos do infame Golpe Chileno.

Sul21: Qual foi a origem de Estádio Chile, 1973 – Morte e Vida de Victor Jara, a voz da Revolução Chilena?

Maurício Brum: Ao todo foram três anos de trabalho. Comecei a apuração das informações em meados de 2011 e a parte mais importante da pesquisa foram os seis meses que passei no Chile – somadas todas as viagens que fiz para lá. No Chile, pude obter um material muito rico. Ao todo, fiz cerca de 50 entrevistas, inclusive com pessoas que estiveram com ele no Estádio Chile, local onde ocorreu seu assassinato. Também coletei materiais na Fundação Victor Jara. O material era tão rico que me permitiu organizar não apenas tudo o que se sabe sobre sua morte, reconstituindo os acontecimentos no Estádio Chile, como quem era este personagem, escrevendo uma crônica de sua vida. Não tenho a pretensão de ter escrito a biografia definitiva, mas sei que no livro há muito do homem Victor Jara.

Sul21: Essas entrevistas foram com amigos, músicos…

Maurício Brum: Sim, com pessoas que conviveram com ele, seja na Escola de Teatro, seja como músicos, companheiros de partido, integrantes do Quilapayún, do Inti-Illimani — que foram grupos da Nueva Canción Chilena, movimento do qual ele participou. Também conversei com a viúva Joan Jara Turner, amigos pessoais e outros que se encontraram com ele na prisão política. É um grupo de personagens distintos que cruzaram com ele e que eu procurei juntar. Então, a primeira parte do livro é sobre a vida de Victor Jara e a segunda sobre a prisão política e a morte. Os músicos me ajudaram muito na biografia, mas, obviamente, contribuíram menos para a descrição dos acontecimentos dos dias de prisão, pois não estavam lá.

Sul21: Vamos falar sobre a prisão? O golpe foi na manhã de 11 de setembro, há exatos 41 anos… 

Maurício Brum: Pois é, neste horário os militares estavam entrando no Palácio. Talvez Allende já estivesse morto.

Mauricio Brum, colunista do Sul21

Mauricio Brum, autor do livro

Sul21: Como aconteceu a prisão?

Maurício Brum: Na manhã do dia 11, havia uma convocação da CUT chilena — não se imaginava que o Golpe ocorreria, é claro — para que os trabalhadores ocupassem seus postos de trabalho. E eles atenderam ao chamado. Victor Jara foi até a UTE (Universidade Técnica do Estado), pois tinha um compromisso lá. Naquela manhã, Salvador Allende iria ao campus, abriria uma exposição sobre os riscos de uma Guerra Civil e os meios da esquerda pensavam que ele, o presidente, convocaria um plebiscito para definir a continuidade ou não de seu governo. Quando se soube que não haveria o discurso, todos permaneceram na UTE em parte por causa desse chamado da CUT e em parte por causa do toque de recolher imposto pelos militares. Eles ficam o dia inteiro e a noite lá. O campus é cercado e atacado pelos militares. Na manhã do dia 12 eles são presos. As mulheres são quase todas liberadas, mas os homens permanecem detidos e depois são levados para Estádio Chile — que, apesar do nome, é um ginásio, hoje chamado Victor Jara. As mulheres, mesmo liberadas, foram deixadas no centro de Santiago sob toque de recolher. Ou seja, sem transporte, tinham que correr para casa de qualquer maneira passando o risco de serem mortas ou novamente presas. O Estádio Chile era um dos recintos que eles improvisaram como prisão política, era próximo do campus. Dá menos de um quilômetro. Eles foram levados de ônibus e em caminhões.

Sul21: Victor Jara foi logo reconhecido?

Maurício Brum: Sem dúvida! Victor Jara era uma pessoa extremamente conhecida, um cantor popular. Suas fotos estão em todos os lugares. Primeiro ele tenta se livrar da carteira de identidade. Ele a joga no chão para dificultar a identificação, mas não dá certo. Logo na entrada ele já é identificado e apartado dos demais prisioneiros. E ali mesmo já começa a ser golpeado. Os relatos que temos é que já na fila os militares batiam em Victor Jara. Foram para trás da porta do ginásio e vinham coronhadas, de golpes de fuzil, chutes… Aí ele é isolado e permanece dois ou três dias num corredor interno do Estádio que fica atrás da quadra. Neste período, ele é levado ao menos uma vez por dia aos porões — na verdade os vestiários do ginásio –, onde aconteciam os interrogatórios e as torturas. Em torno do dia 13 ou 14, não se sabe precisamente, há uma chegada grande de prisioneiros que ocupa os militares. Então Jara fica sozinho no corredor. É o momento que os detidos da arquibancada dão um jeito de carregá-lo para as arquibancadas e tentam enfim disfarçá-lo com o que é possível. Cortam seus cabelos com cortadores de unha e tentam que ele passe desapercebido. Era uma tentativa desesperada, claro. É nesse convívio nas arquibancadas que surge a maior parte das versões e lendas que depois ficaram famosas. Ele teria tido suas mãos cortadas em frente aos demais prisioneiros. Nada disso aconteceu.

A família Jara: as filhas, Joan e Victor

A família Jara: as filhas, Joan e Victor

Sul21: Na autópsia posterior, ele tinha as mãos, mas quebradas, certo?

Maurício Brum: Sim, ele teve as mãos quebradas provavelmente pelas coronhadas, pelos chutes, pelas pisadas. Era chutado e humilhado o tempo todo. Havia tremendo ódio em relação à figura dele. Era um personagem importante da esquerda e ele serviu de exemplo para mostrar aos outros até onde o regime estava disposto a ir. Se alguém como Victor Jara não estava imune, o que dizer do prisioneiro comum? E ali onde ele estava com os demais prisioneiros, ele pede um pedaço de papel e escreve seu último poema (*), que ficou inacabado — obviamente com as mãos ainda não totalmente quebradas. E aí a versão talvez seja um pouco romanceada, mas são os relatos que eu consegui: ele estava escrevendo o poema, compondo as últimas linhas e os militares descobrem que ele está ali e o levam novamente para os vestiários e ele não sai de lá com vida. Há relatos de que foi feito um jogo sórdido de roleta russa e que depois todos descarregaram suas armas sobre o cadáver. A última vez que ele foi visto com vida foi no dia 15 de setembro. No dia 16, seu corpo é jogado na rua de um bairro popular de Santiago para dar exemplo. Porém, na própria tarde do dia 16, os militares voltam e recolhem o corpo, que segue para o necrotério. Ele teria se tornado um desaparecido político, mas um funcionário do registro civil que estava como voluntário no necrotério identifica o corpo de Victor Jara, descobre onde ele vivia e consegue a informar a viúva, Joan Turner. E eles obtêm um enterro improvisado assistido por 3 pessoas: Joan, o funcionário e mais um amigo dela.

Sul21: A viúva contribuiu com informações para o livro? Ela vive em Santiago?

Maurício Brum: Ela vive em Santiago. Ela é responsável pela Fundação Victor Jara.

Sul21: Ela sofreu algum tipo de repressão?

Maurício Brum: Não, teve que se exilar, mas não foi presa. Ela retornou secretamente ao Chile nos anos 80 a fim de realizar as entrevistas para seu livro, que é a biografia mais famosa de Victor Jara. No Brasil, o livro é chamado Canção Inacabada. Depois ela voltou pra Inglaterra e só se fixou no Chile ao final dos anos 80.

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Sul21: Voltamos a Jara. Sua formação era como ator, certo? Ele nasceu onde?

Maurício Brum: Isso. Ele nasceu no sul, no interior. Seus pais eram trabalhadores rurais. Eram arrendatários, ou inquilinos, como eram chamados os que trabalhavam na terra de outra pessoa. Logo na primeira infância, eles mudam então para um lugar mais próximo de Santiago. O casal briga bastante, se separa e a mãe dele se muda pra Santiago. Na metade dos anos 1950, ele ingressa na escola de teatro da Universidade do Chile. Ali ele inicia de fato a carreira artística. Primeiro ele estuda atuação e depois direção teatral. Vai trabalhar quase só como diretor. Era o final da década de 50, é quando o Partido Comunista sai da ilegalidade no Chile. O Partido passara 10 anos ilegal. O Canto Geral do Neruda fala muito a respeito deste período muito efervescente para a juventude de esquerda chilena. Então, muitos colegas de Victor Jara começam a se filiar ao Partido, o que acaba por ocorrer também com Victor. Ele passa a integrar as Juventudes Comunistas.

Sul21: Foi o período em que ele entrou em contato com o folclore chileno?

Maurício Brum: Exato, é nesta época que ele começa a viajar pelo interior do Chile com a finalidade de conhecer o folclore do país, de coletar suas histórias e canções. A mãe dele era cantora, ela se apresentava no interior do país; ou seja, ele tinha música em casa. Quando um bebê morria, por exemplo, era realizada uma cerimônia fúnebre durante a madrugada que incluía um “canto ao divino” e um “canto ao humano”. Ela cantava nestes rituais que permitiam que o bebê ascendesse aos céus. Havia esta influência. Quando Victor ingressa no teatro, passa a viajar com amigos pelo interior e, de certa forma, acaba por complementar o que Violeta Parra já vinha fazendo: ele recolhia canções. Então, entra num grupo da universidade que cantava e dançava estas músicas e, pouco a pouco, vai se encaminhando para a música, escrevendo também canções próprias.

Victor e o Cuncumen

Victor e o Cuncumen

Sul21: E começa a participar de grupos que ficaram famosos.

Maurício Brum: Sim, ele passa a fazer parte dos Cuncumem, que em mapucho significa “Murmúrio das águas”. Neste grupo, no início dos 60, durante uma excursão à União Soviética, em Moscou, ele faz sua estreia como cantor solista. Tudo porque a cantora titular sucumbira a uma gripe… E, aos poucos, ele vai assumindo o papel de cantor até chegar a uma carreira solo. E ele chega a um dilema, pois gosta mais de ser diretor teatral, só que atinge muito mais pessoas mostrando suas composições e cantando. Desta modo, para ser mais útil à causa de Salvador Allende e do Partido, ele acaba por abandonar o teatro.

Sul21: E se torna figura nacional.

Maurício Brum: No começo, ele fez pesquisas, chegando a um tipo de música folclórica muito diferente daquilo que a cidade de Santiago pensava ser o folclore do país. Aliás, Violeta Parra também chegara a um gênero muito diferente do daquelas canções para turista que eram “o folclore chileno”. Porém, Jara e Parra não apresentavam o folclore como peças de museu. Eles se apropriaram do folclore, passando a produzir novas canções, normalmente de temática social, política. Na metade dos anos 60, Victor Jara e Violeta Parra são os grandes e mais polêmicos artistas populares do Chile, por serrem excelentes e por estarem identificados como “cantores de protesto”, rótulo que Jara rejeitava, preferindo ser chamado de “cantor revolucionário”.

Sul21: Aparece o viés político da Nueva Canción Chilena.

Maurício Brum: Sim, dele, de Violeta Parra, Rolando Alarcón, Patrício Manns, de Angel e Isabel Parra (filhos de Violeta), do Quilapayún, Inti-Illimani, etc. A liderança do grupo era de Violeta, mas o suicídio dela em 1967 colocou Victor como protagonista.

Edmundo_Pérez_ZújovicSul21: E o movimento cresceu.

Maurício Brum: Sim, houve um incidente muito significativo em junho de 1969. Acontecera um movimento de pobladores (pessoas que saem dos campos e realizam ocupações nas cidades) em Puerto Montt que foi brutalmente reprimido pela polícia. Nove pessoas morreram e Victor Jara imediatamente escreveu uma canção chamada Preguntas por Puerto Montt onde acusava o governo pela repressão. Mais exatamente, ele acusava o Ministro do Interior Edmundo Pérez Zujovic. E ele pergunta ao Ministro: “Você deve responder / Senhor Perez Zujovic / porque ao povo indefeso / responderam com fuzil”. Então, ele foi ao Saint George`s College, em Santiago, um colégio de elite, um colégio inglês, exatamente aquele que é retratado no filme Machuca. Além de educar a elite, este colégio católico fornecia bolsas de estudo para alguns pobladores e jovens de baixa renda. Ali se formara um grupo de esquerda que organiza um seminário para discutir a reforma da educação no Chile. E convidam o Victor Jara para lá cantar. E ele canta as Preguntas. Só que, dentre os alunos, estava o filho de Pérez Zujovic, que tinha se armado de pedras junto com outros colegas. Quando Victor entoa a canção, começam a voar pedras. Ele teve que se proteger com o violão. O show acaba na maior briga.

nueva_cancion1Sul21: Houve repercussão?

Maurício Brum: A princípio, nada. Passaram-se vários dias e nenhuma notícia. Os jornais conservadores esperaram uma semana e deram a notícia justo no dia da estreia do Festival Nueva Canción Chilena. A manchete do El Mercurio era Incidentes por Infiltração Marxista em Colégio Católico. Talvez seja este o momento em que fica claro para todos que Victor Jara é um artista marxista. Ele será uma figura cada vez odiada para direita até o Golpe.

Sul21: Um Festival seguido de eleições. 

Maurício Brum: Sim. A Nueva Canción Chilena ganha este nome em 1969 a partir do Festival. Antes o grupo não tinha um nome que os caracterizasse. O Festival é vencido por Victor Jara com Plegaria a un labrador. E no ano seguinte vem as eleições e ele se torna o cantor mais identificado com a Unidade Popular. No dia da vitória do Allende, este discursa e logo depois vem um show do Quilapayun, grupo do qual Jara não faz mais parte, mas de que fora diretor artístico. Então, o envolvimento da Nueva Canción Chilena com Salvador Allende é total.

"El dia que ganó Allende": show do Quilapayun

“El dia que ganó Allende”: show do Quilapayun

Sul21: E começa um governo de minoria.

Maurício Brum: Sim, Allende jamais teve maioria. Venceu com 36 % dos votos. E a Nova Canção, que só obtinha espaço no jornal do Partido Comunista, El Siglo, e só gravava na Discoteca del Cantar Popular, também do Partido, ganha novos espaços – havia algumas rádios progressistas – e realmente passa a ser popular e a apoiar o governo. Claro que permanecia sem espaços na grande imprensa. A NCC torna-se não somente a voz artística do governo, como os cantores passam a ser embaixadores culturais do país. Os grupos viajaram o mundo divulgando o folclore chileno e sua pauta de temáticas sociais. O Quilapayún e o Inti-Illimani tiveram a sorte de estarem na Europa como embaixadores culturais quando do Golpe de 73.

Sul21: Victor Jara denunciava o golpismo?

Maurício Brum: Certamente ele fez canções que só podem ser identificadas como panfletárias, mas que eram cantadas e ouvidas como toda a arte da esquerda chilena naquele momento. O próprio Pablo Neruda escreve naqueles anos Incitación al Nixonicidio y alabanza a la Revolución Chilena, denunciando a atuação da CIA e as iniciativas golpistas. A polarização entre direita e esquerda era fortíssima. A greve dos caminhoneiros de outubro de 72 foi financiada pela CIA. A CIA já tentara impedir a posse do Allende. Pensava-se que a tradição democrática do Chile impediria o Golpe, mas o risco era real, como se viu depois.

victor jara

Sul21: Como o Victor Jara se tornou um símbolo?

Maurício Brum: Depois do golpe, todas as músicas foram censuradas e seus discos queimados. A ditadura chilena queimou discos e livros. Ele torna proscrito no Chile e divulgadíssimo no exterior. Um disco que ele tinha deixado gravado saiu em 74 no exterior. É o disco de Manifiesto. Ele se torna um símbolo porque era, obviamente, uma das pessoas mais conhecidas que pereceram na prisão política do Chile.

Sul21: A ditadura o usava como exemplo de até onde a ditadura pode ir e o mesmo vale para a resistência.

Maurício Brum: Sim, aí se criam algumas lendas, como a morte romanceada dele cantando o hino da Unidade Popular, o corte das mãos e o fato de Allende ter morrido lutando, quando todos hoje sabem que ele se suicidou. Toda a resistência precisa de heróis e Victor Jara serviu como um deles. Até hoje, quando se fala no Golpe, sua figura é relembrada. Até porque não se fez justiça. No Museu da Memória dos Direitos Humanos do Chile, dedicado à repressão e à Ditadura, bem na entrada, está, em letras gigantescas, o poema que ele escreveu na prisão política.

Sul21: E quem o matou?

Maurício Brum: Ninguém sabe. Nenhum prisioneiro viu ele ser morto. E, com todos os subterfúgios legais, jamais se saberá. Além disso, a Lei da Anistia do Chile é semelhante à nossa. Mas foi encontrada uma brecha na Lei: para o caso dos desaparecidos, o crime não prescreveu e então alguns foram condenados. Para o caso dos mortos, há a Anistia.
victor jara

.oOo.

(*) Introdução de Joan Jara: “… Quando mais tarde me trouxeram o texto do último poema de Víctor, soube que ele queria deixar seu testemunho, seu único meio de resistir ainda ao fascismo, de lutar pelos direitos dos seres humanos e pela paz”.

Somos cinco mil 

nesta pequena parte da cidade. 
Somos cinco mil.
Quantos seremos no total, 
nas cidades e em todo o país? 
Somente aqui, dez mil mãos que semeiam 
e fazem andar as fábricas.

Quanta humanidade 
com fome, frio, pânico, dor, 
pressão moral, terror e loucura!

Seis de nós se perderam 
no espaço das estrelas.

Um morto, um espancado como jamais imaginei 
que se pudesse espancar um ser humano.

Os outros quatro quiseram livrar-se de todos os temores 
um saltando no vazio, 
outro batendo a cabeça contra o muro, 
mas todos com o olhar fixo da morte.

Que espanto causa o rosto do fascismo!

Colocam em prática seus planos com precisão arteira, 
sem que nada lhes importe.

O sangue, para eles, são medalhas.

A matança é ato de heroísmo.

É este o mundo que criaste, meu Deus? 
Para isto os teus sete dias de assombro e trabalho?

Nestas quatro muralhas só existe um número 
que não cresce, 
que lentamente quererá mais morte.

Mas prontamente me golpeia a consciência 
e vejo esta maré sem pulsar, 
mas com o pulsar das máquinas 
e os militares mostrando seu rosto de parteira,
cheio de doçura.

E o México, Cuba e o mundo?

Que gritem esta ignomínia! 
Somos dez mil mãos a menos 
que não produzem.

Quantos somos em toda a pátria?

O sangue do companheiro Presidente 
golpeia mais forte que bombas e metralhas.

Assim golpeará nosso punho novamente.

Como me sai mal o canto 
quando tenho que cantar o espanto!

Espanto como o que vivo 
como o que morro, espanto.

De ver-me entre tantos e tantos 
momentos do infinito 
em que o silêncio e o grito 
são as metas deste canto.

O que vejo nunca vi,
o que tenho sentido e o que sinto 
fará brotar o momento…”

(Victor Jara, Estádio de Chile, Setembro 1973).

Cumpleano-Victor-Jara

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E o talentoso e polêmico Caetano Veloso é mais novo septuagenário da música brasileira

Pesquisa da Folha confirma importância de Caetano | Divulgação

Publicado em 7 de agosto de 2012 no Sul21

A Folha de São Paulo realizou uma enquete com 70 jovens músicos, escritores, diretores de cinema e de teatro, atores de TV e artistas plásticos, todos com até 40 anos de idade. A amostragem não é a melhor possível, mas o resultado foi o esperado: Caetano Veloso — que completa 70 anos hoje — e Chico Buarque foram eleitos como os artistas vivos mais importantes da MPB. É curioso: esta dupla, que já dividiu discos, palcos e até programa de TV, não é nada homogênea. Se Chico é uma unanimidade, Caetano está longe disso; se Chico é musicalmente mais conservador, Caetano se reinventa a cada trabalho; se Chico é a continuidade da tradição do samba e da bossa nova, Caetano é o artista que adora novidades, que visita o rock e a música latino-americana; se Chico traça uma trajetória coerente e em linha reta em suas intervenções políticas, Caetano é tortuoso, sendo o costumeiro autor de infelizes intervenções na vida brasileira. Sim, o que deveria importar é o artista e sua produção, mas é impossível não lembrar das entrevistas de Caetano, nas quais Lula já foi um “analfabeto que não sabe falar e é cafona, grosseiro”. Também não podemos esquecer que Caetano e Gil fizeram uma Tropicália II que simplesmente excluiu todos os outros membros do movimento inicial. Gil tratou de ficar quieto, talvez envergonhado, porém o boquirroto Caê tentou justificar o fato, criando uma explosiva inimizade com Tom Zé, o qual costuma ofendê-lo com termos bastante chulos, além de desprezar publicamente os repetidos elogios de Caetano.

Divertindo-se com a turma da Tropicália | Divulgação

Caetano Veloso nasceu em 7 de agosto de 1942 em Santo Amaro, na Bahia. Foi o quinto dos oito filhos de José Teles Velloso, funcionário público dos Correios, e Claudionor Viana Teles Velloso, Dona Canô. Aos 17 anos, Caetano recebeu uma compreensível iluminação que o deixou fascinado pela arte musical: ouviu, num programa da Rádio Mayrink Veiga, a canção Chega de Saudade e tomou conhecimento do disco homônimo de 1959 de João Gilberto.

Desta forma, iniciou a carreira interpretando canções de bossa nova, sob a imensa sombra de João Gilberto. Depois, inseriu-se no estilo musical que ficou conhecido como MPB (Música Popular Brasileira). Porém, Caetano — uma figura magérrima que logo deixou crescer os caracóis de seus cabelos — foi o membro da MPB que mais esteve associado ao movimento hippie do final dos anos 60. Seu primeiro LP foi Domingo (1967), em parceria com Gal Costa. A sonoridade era totalmente bossa nova. O disco não vendeu muito, mas foi aclamado por artistas importantes, como Elis Regina, Wanda Sá e Dori Caymmi.

No segundo LP já tínhamos o Caetano que conhecemos. Caetano Veloso foi lançado em janeiro de 1968 e trouxe canções como Alegria alegriaNo dia em que vim-me embora, TropicáliaSoy loco por ti América e Superbacana. Alegria alegria fez escândalo no terceiro Festival de Música Popular Brasileira (TV Record, outubro de 1967), juntamente com Gilberto Gil, que interpretou Domingo no Parque, classificadas respectivamente em quarto e segundo lugar. Era o início do Tropicalismo, movimento considerado “alienado” pela esquerda da época por incluir guitarras elétricas.

Sua irreverência não era muito apreciada pelos militares | Divulgação

Em julho do mesmo ano, veio o fundamental álbum Tropicália ou Panis et Circensis. Trata-se de uma obra coletiva que apresentava  Os Mutantes, Torquato Neto, Rogério Duprat, Capinam, Nara Leão, Tom Zé, Gil e Gal. Ouvindo o disco hoje, fica claro que, apesar das canções serem basicamente de autoria de Gil e Caetano, a revolução localiza-se na presença de Rogério Duprat nos arranjos, assim como na habitual e abençoada loucura de Tom Zé.

A postura de Caetano e seu modo hippie tropical de vestir deixava nervosa a ditadura militar. Havia desconfiança sobre aqueles baianos meio estranhos, ainda mais que seu amigo Gilberto Gil tinha canções bastante contestadoras. Por esse motivo, várias canções da dupla foram censuradas. Em dezembro de 1968, Veloso e Gil foram presos, sob a acusação de terem desrespeitado o hino nacional e a bandeira brasileira. Foram levados para o quartel do Exército de Marechal Deodoro, no Rio, onde tiveram suas cabeças raspadas, suprema humilhação, mas dentro da ideologia militar de “cabelos longos, ideias curtas”…

Foram soltos em fevereiro de 1969, numa quarta-feira de cinzas, e seguiram para Salvador, onde tiveram de se manter em regime de confinamento, sem aparecer nem dar declarações em público. Em julho de 1969, após dois shows de despedida no Teatro Castro Alves, Caetano e Gil partiram para o exílio na Inglaterra. Antes de partir, Caetano gravou as bases de voz e violão do próximo disco, Caetano Veloso, que foram mandadas para São Paulo, onde o maestro Rogério Duprat faria e gravaria os arranjos. No repertório, destaque para as canções Atrás do trio elétrico, Irene, Não identificado, Charles anjo 45 e Marinheiro só. Caetano apenas retornou definitivamente ao Brasil em janeiro de 1972.

Durante a ditadura militar, as intervenções de Caetano Veloso foram mais no sentido da defesa da contracultura, mais próximas dos acontecimentos do Maio de 1968, do que propriamente contra o regime militar. Mas bastava para incomodar muito. Os tropicalistas se preocupavam em ser de esquerda, não eram marxistas-leninistas, stalinistas, trotskistas ou maoístas. Porém, os militares achavam aquilo muito perigoso e não aprovavam sua irreverência. Na época da prisão dos dois cantores, em dezembro de 1968, os militares nada tinham de concreto contra eles, apenas a acusação de que tinham desrespeitado o Hino Nacional, cantando-o aos moldes do tropicalismo na boate Sucata. Juntou-se a isto a provocação de Caetano Veloso na antevéspera do natal de 1968, ao cantar “Noite Feliz” num programa de televisão apontando uma arma para a própria cabeça.

Chico Anísio como “Baiano” | Divulgação

A Globo, com Chico Anísio, tratava de ridicularizar e tornar palatável a turma baiana com o quadro humorístico Baiano e os Novos Caetanos, onde todos eram muito “desbundados”, adotando uma postura ultralight e levemente drogada em relação à vida.

Mas os militares tratavam de se envolver. Em 1973, Caetano Veloso teve a sua  canção Deus e o Diabo vetada pela censura. Era ofensiva às tradições religiosas. Em 1975, o álbum Joia trazia na sua capa Caetano Veloso, sua Dedé e o filho Moreno completamente nus, com algumas pombas cobrindo-lhes a genitália. Censurado, o álbum foi relançado com uma nova capa, onde ficaram apenas as pombas. Tudo isso tornou Caetano um adversário da ditadura militar, papel que ele cumpriu rigorosamente, fazendo oposição a seu modo, atacando a “moralidade” que os militares queriam preservar.

Antes de Joia, tivemos o extraordinário Transa (1972), que continha Mora na filosofia (de autoria da dupla Monsueto e Arnaldo Passos) e Triste Bahia, o qual iniciou uma trilogia marcada pelo experimentalismo. O segundo trabalho nesse caminho foi o polêmico Araçá Azul (1973), um disco até hoje difícil de ouvir, verdadeiro recorde de devoluções. Ele foi retirado de catálogo e relançado apenas em 1987.  O último disco da trilogia experimental foi o citado Joia (1975), lançado juntamente com Qualquer coisa, cuja capa era semelhante a do álbum Let it be, dos Beatles. O experimentalismo, a disposição para abraçar o novo, são qualidades que não podem ser retiradas de Caetano.

Caetano Veloso não tem realizado trabalhos com a qualidade que tinha no passado. Analisando seus discos, não selecionamos nenhum deste século. O último trabalho de nível superior de Caetano certamente foi Livro (1997) e, indo em direção ao passado, Circuladô (1991), Estrangeiro (1989), Uns (1983), Cinema Transcendental (1979), Muito (1978) e Bicho (1977), além dos citados anteriormente. Também digno de nota é Totalmente Demais (1986), trabalho ao vivo onde Caetano aparece com seu violão cantando canções de outros autores. É neste disco que ele aparece pela primeira vez como grande intérprete, fato que o tempo apenas acentuou.

Romário cunhou a célebre frase “Pelé calado é um poeta. Talvez seja um exagero aplicá-la de forma geral a Caetano Veloso, mas o compositor, cantor e escritor baiano tem efetivamente o costume de criar frases polêmicas que não apenas pisam o limite do mau gosto como muitas vezes o ultrapassam. O talentoso Caetano, um autêntico poeta quando escreve suas músicas e letras, costuma dar vazão a humor ou publicidade bastante duvidosas em suas entrevistas.

Em 2012, polêmica com Roberto Schwarz sobre Verdade Tropical| Divulgação

Um capítulo à parte é o livro Verdade Tropical (1997), onde relata de uma forma muito pessoal a história e lembranças do Tropicalismo, de sua infância, da prisão e do exílio. O livro é excelente, cheio de informações, mas gerou uma grande polêmica com o ensaísta Roberto Schwarz, que o criticou asperamente em Martinha Versus Lucrécia — Ensaios e Entrevistas (2012). Segundo Schwarz, “Verdade Tropical deve muito de seu interesse literário a certa desfaçatez camaleônica em que Caetano, o seu narrador, é mestre”.  O autor aponta em Caetano uma “autoindulgência desmedida, um confusionismo calculado e momentos de complacência com a ditadura, o qual está plasmado quando Caetano atenua os aspectos negativos ou críticos, dando realce ao encanto dos absurdos sociais brasileiros, tão nossos”.

Caetano e seus admiradores mostraram-se muito contrariados com as críticas de Schwarz ao livro.  Claro que Caetano respondeu a seu modo, atacando o esquerdismo de Schwarz em inacreditável livre-associação: ““Sempre me pergunto por que Roberto Schwarz ou Marilena Chauí nunca têm nada a dizer sobre o que se passa na Coreia do Norte. Por que Lula e Tarso Genro mandaram de volta, num avião venezuelano, os atletas cubanos que tinham pedido asilo político ao Brasil? Isso é admissível? Ninguém na esquerda reclama de nada disso”. Não se sabe o que tais afirmações têm a ver com o livro.

Porém, não obstante toda a polêmica que envolve o nome de Caetano, seu nome está presente no cerne do que foi a música brasileira dos anos 60 para cá. Tem o mérito indiscutível de ser um autor inquieto e corajoso, que dialoga com a vanguarda e com o brega. O autor de canções como Língua (do disco Velô), Sampa, Alegria alegria, Haiti, Terra, Muito Romântico, O Ciúme, Você é linda, etc. está acima até de sua admiração por Antônio Carlos Magalhães. Ah, se Caetano falasse menos…

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Ensaio sobre a cegueira, de Fernando Meirelles, ou Como tornar Saramago cinema?

Uma das coisas que mais me irrita é este lugar comum de dizer que “o livro é sempre melhor que o filme”. Dã. É uma burrice completa. Se quem diz isso ao menos soubesse que quase todos os Hitchcocks vieram de romances de segunda linha…

Há histórias filmáveis e outras não. Há livros que são quase roteiros, outros não. Apesar da vasta intersecção, há cordas que podem apenas ser tocadas pelo cinema e outras apenas pelos livros. Há especificidades.

Vou começar pelo livro. Saramago escreve, em média, um bom livro a cada década. Hoje, principalmente no Brasil, estabeleceu-se a regra de falar mal dos livros do único Prêmio Nobel de língua portuguesa. Trata-se do conhecido Complexo de Vira-Latas que acomete Brasil e Portugal — desde sempre para o primeiro e desde que o segundo deixou de ser um grande império colonial… Ganha-se algum destaque e este é sempre falso. Preconceito puro. Saramago não mudou. Segue publicando bastante — não o critico por este motivo — e acerta uma vez a cada dez anos. Sem problemas. É uma média altíssima. Nos últimos dezoito anos, melhorou sua média ao produzir três grandes livros: O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991), Ensaio sobre a cegueira (1995) e As intermitências da morte (2005). O resto que fez neste período parecem ensaios para os acertos. Nada de anormal nisso.

Surpreendentemente, pego-me pensando em outro fato: a separação dos Beatles. Este foi um acontecimento mundial. Em 1970, estavam juntos e eram brilhantes. Em 1971, eram todos famosíssimos e médios… Rafael Galvão, num post antológico que não consegui localizar (upgrade: que o Rafael acaba de me passar), comprovou que nada mudara. Em todo disco do grupo havia 5 boas canções de McCartney, 5 de Lennon e 2 de Harrison. Com esta informação, o Rafa montou o disco de 1971, o de 72, 73, etc., com músicas pinçadas no trabalho individual de cada um. O resultado foram trabalhos portentosos… Mas algumas amam a decadência de tal forma que procuram-na em todo lugar.

Ensaio sobre a cegueira é um livro de alta intensidade e criatividade. Sua leitura não é nada enfadonha e a força da parábola de Saramago atinge-nos em cheio. Esta é reforçada pelo fato de que os personagens não possuem nome: são “a mulher do médico”, “o médico”, “a rapariga de óculos escuros”, etc. No filme, tal impessoalidade se perde. Vemos, é claro, os rostos de Julianne Moore, de Mark Ruffalo, de Alice Braga e de Danny Glover, isto já basta para individualizar personagens que funcionavam como símbolos ou funções no original. OK, Literatura 1 x 0 Cinema. Neste 1 x 0, quem danou-se foi a profunda e geral desesperança de Saramago. Porém, “a responsabilidade de ter olhos quando todos os outros os perderam”, frase repetida à exaustão no livro de Saramago, está preservada no filme. Julianne Moore faz uma atuação maravilhosa e demonstra claramente que, apesar de sua vontade — de indiscutível feminilidade — de tudo resolver pelo melhor, a tarefa é inviável.

Um ponto fraco do filme é que a chegada dos doentes ao hospital-manicômio não nos dá a mesma idéia do livro: a de que aquilo está em todos os lugares. O ponto forte são as imagens do caos absoluto no momento que “a mulher do médico” leva-os para a rua. Talvez Meirelles tenha procurado justamente explorar o contraste entre uma situação que parecia inicialmente pontual e que se torna paulatinamente geral para o espectador. Mas não sei, algo não deu certo nesta transferência do particular para o geral. Outro ponto forte foi a fotografia esbranquiçada — a cegueira branca — e a música: no ponto certo de irritar, mas não demais.

Se não possui a grandiosidade do livro, é um bom filme; se não incomoda como o livro, atrapalha o suficiente; se parte da parábola perdeu-se, Meirelles não a deturpou — o que seria pecado mortal. Escapou de Meirelles o profundo e justificado pessimismo de Saramago. Seu filme não possui este tom e, com isso, perde impacto, ganhando certa gratuidade para os espectadores mais superficiais. Mas é um bom filme, sem dúvida.

Fico feliz que Ensaio sobre a cegueira (“Blindness”) tenha levado 118.145 espectadores aos cinemas em apenas três dias. Fui um deles, pois vi o filme logo no primeiro dia. Tal fato o torna a segunda melhor bilheteria nacional de estréia de 2008. Um fenômeno. Fico feliz com isso, repito; afinal, Meirelles merece mais filmes.

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