Na verdade, eu não gosto da Feira do Livro

Na verdade, eu não gosto da Feira do Livro
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro

Em verdade vos digo, não gosto da enjoativa oferta de livros iguais da Feira do Livro. É muito esforço para encontrar alguma coisa especial entre as carradas de livros novos, estalando, que se repetem em toda e qualquer barraca. Como disse Luís Augusto Fischer em educada crítica, a Feira da qual é patrono é do livro e não da literatura. Pior, ela é não é nem dos livreiros, trata-se de uma Feira de editoras e de distribuidoras. Presumo (ou tenho certeza) que eles mostram o que querem, o que lhes dá lucro.

Nos balaios há coisas legais, mas haja tempo para procurar! E nem vou falar da modéstia da Área Internacional, tá? Prefiro a tranquilidade e o acervo da Bamboletras ou da Palavraria.

As programações paralelas de palestras — que antes ameaçam salvar a Feira — já não são tudo aquilo. O que era fácil ficou difícil. Há poucos anos atrás, ficava muito triste por perder tanta coisa boa; indagorinha, procurando por coisas que me interessassem, fiquei bem decepcionado, apesar de que pretendo dar um pulo no CCCEV (Centro Cultural CEEE Erico Verissimo) a fim de ouvir um grupo de escritores africanos. Eles começam às 17h30 e lá vou conhecer meu amigo moçambicano Nelson Saúte. Afinal, chega de viver de e-mails, né?

P.S. — E vejam bem a decepção: apesar de anunciado, Nelson Saúte não estava presente.

O silêncio da intelectualidade gaúcha

Só a indiferença é livre. O que tem caráter distintivo nunca é livre; traz a marca do próprio selo; é condicionado e comprometido.

THOMAS MANN

Ironicamente, no dia de Finados, o RS Urgente publicou um post sobre o silêncio da intelectualidade gaúcha. O post era mais do que simples, apenas reproduzia um comentário do leitor Franklin Cunha:

O que mais nos impressiona nessa cortina de silêncio em torno das denúncias de crimes do atual governo, é a absoluta ausência de manifestações da intelectualidade gaúcha. Descrevem o pôr-do-sol, os ipês floridos, a feira do livro, as festas gauchescas, preocupam-se com os monumentos públicos, como se todas essas “monstruosidades” geradas no Piratini, não existissem. Não podemos acreditar que todos eles foram cooptados pelas benesses do poder.

Sim, simples, mas provocativo na medida certa e mais do que suficiente para gerar um bom debate. Quero começar definindo o que entendo por intelectualidade. São os moços dos cadernos de cultura, são as pequenas celebridades que gostam de tentar reflexões inteligentes sobre costumes, política internacional, escritores, arte em geral, sociologia, antropologia e o diabo. São aqueles que acorrem aos jornais para dar sua interpretação dos fatos, os que preveem, os oráculos que escrevem hoje para poderem dizer “eu avisei” amanhã. E são os bons escritores, ensaístas e articulistas que produzem essa coisa intangível que chamamos cultura ou conhecimento. Ou seja, minha concepção da palavra é pré-Gramsci e pré-antiga.

Há tais pessoas por aqui e em todo lugar.

Em primeiro lugar, esta intelectualidade parece traumatizada com um fato que começou em meados do século XX e que hoje mostra cada vez mais seus resultados: a pouca importância que os intelectuais passaram a ter. Em tempos nem tão remotos, escritores e artistas eram convidados pelo poder para participarem não apenas de regabofes mas para grudarem suas grifes neles. Apenas para seguir a senda de palavras iniciadas por “gr”, diria que Graham Greene, por exemplo, era habitué de vários primeiros-ministros ingleses e presidentes americanos quando o encontro era internacional. Greene foi uma das últimas celebridades do gênero “escritor famoso que trata de política internacional em seus livros”. Lembro que, certa vez, pediu para ser apresentado a Augusto Pinochet apenas para ter o prazer de negar-lhe um cumprimento. Foi o que fez. Só que hoje há um problema: a literatura fracassou e não cria mais celebridades, sejam planetárias, sejam no microcosmo brasileiro. A importância do escritor e do artista diminuiu.

Em segundo lugar, Swift era um gênio e sempre teve razão ao chamar de Laputa a terra dos intelectuais em Gulliver. Em geral, sempre estivemos — e já que as ofensas serão duras, passo a dar a cara ao tapa –- à venda. Greene não, porém muitos outros sim. Olhem para o Brasil. E olhem para o habitual. Adoro Drummond, mas o que ele fazia com Capanema durante o Estado Novo? Ah, compreendo, eram amigos de infância… Deixo a palavra ao poeta Fernando Monteiro, que não habita Laputa.

Nossos parnasianos, condoreiros, simbolistas,
modernistas, praxistas e taxidermistas
da poesia do pantanal depois da lama seca
descobrem de novo o Brasil de Cabral,
trabalham para Capanema e não faz mal,
tomam remédio para dor de cabeça
e vão dormir em Pasárgada,
onde são mais que amigos do rei
de espadas dos jogos de cartas
marcadas da carreira literária
do acadêmico Getúlio Vargas

Os poetas brasileiros não morrem em revoluções.
Quando elas acontecem, os bardos nacionais
preferem segurar os empregos.
Na Revolução de 30 não morreu um só Dante
de Cascadura para contar como é descer ao inferno.
Todos eles aspiram ao céu de palmas abertas
soltando as batatas quentes na corrida
dos mil metros para ocupar ministérios,
secretarias da cultura e bibliotecas nacionais
reservadas para os insistentes em Poesia Sempre
(palmas para eles com uma só mão no ar rarefeito
da imortalidade a cacete, chá e simpatia
de casca dos bóias-quentes).

(Trecho do poema Vi uma foto de Anna Akhmátova)

Não é um exagero. É a razão. Estamos sempre prontos a aderir, mesmo que seja a um Getúlio Vargas. Exemplos há aos montes. Lembram quem foi o autor de Zélia, uma paixão? Pois é, foi o incensado autor de Encontro Marcado, Fernando Sabino.

Mas voltemos ao Rio Grande. O que quero dizer é que a LIC (Lei de Incentivo à Cultura) tornaram os autores ainda mais dependentes e putos. Quem falará mal de Yeda Crusius se sabe que ela toma chás com bolachas acompanhada da Secretária da Cultura Mônica Leal? Tal fato serve de pretexto para quem já não tem lá muita disposição para tratar de temas espinhosos. Não posso protestar porque meu projeto está nas mãos deles… Aqui temos um raro e débil protesto onde a governadora é tratada com um respeito, digamos, patético.

Secretária Mônica Leal (acima, à direita)

Em terceiro lugar, há a pequena grande imprensa gaúcha. Não há nenhuma disposição nela para abraçar vozes dissonantes. Obviamente, tal fato não libera nossos gloriosos produtores de cultura de seus compromissos éticos, mas afirmo que a maioria deles conta com a divulgação de seus trabalhos por nosso órgão maior, nem que este muitas vezes acabe apontando para seus rabos. A justificativa aqui é a de que, Pô, fiz uma catilinária contra a situação, mas eles jogaram no lixo… O onipresente e sorridente Luís Augusto Fischer, que trabalhou Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre durante a gestão de Tarso Genro, parece estar desobrigado de qualquer comentário sobre o Estado e lembro apenas de ter lido uns muxoxos quando vimos o acervo de Erico Verissimo seguir para o Rio de Janeiro.

Nada justifica o silêncio. A única exceção que vejo é vergonhosa para a esquerda gaúcha. Trata-se do professor e escritor Juremir Machado da Silva. Juremir é uma das pessoas mais afastadas da esquerda que conheço, porém é o único ter coragem de ironizar o estado das coisas. O resto fica tipo assim, entende?

Do Leitor Normal

Os últimos resultados obtidos pelo Sport Club Internacional têm feito seus torcedores reagirem das mais diversas maneiras: há os que se deprimem e têm dificuldades até para sair de casa, há os que caminham sem rumo pela rua falando sozinhos e há os que — identificando-se completamente com o clube — passam a fazer a apologia do secundário, procurando solapar tudo aquilo que é grandioso e perfeito. Este é o caso do professor de literatura Luís Augusto Fischer e ele escolheu o veículo jornalístico mais notório de nosso estado para divulgar seu problema.

No artigo chamado O Leitor Normal, publicado há algum tempo na Zero Hora, o Prof. Fischer escolheu — com imenso despudor — duas vítimas de primeiríssima linha: Thomas Mann e Franz Kafka. Argumenta ele que a obra A Montanha Mágica de Thomas Mann seria um livro chato, arrastado, lento, pré-cinema (?) e ilegível para o leitor normal e sugere que Kafka seria um autor desprovido de bom humor e auto-ironia. Talvez o autor pense que as repetidas reedições de A Montanha Mágica e das obras de Kafka sejam devidas apenas a masoquistas e a entediados especialistas em literatura.

Prezado Prof. Fischer, o Sr. não é um leitor normal, o Sr. publicou e organizou diversos livros, é uma pessoa conhecida e respeitada; o leitor normal sou eu, que não vivo de literatura, que não tenho produção cultural, que trabalho o dia inteiro e que, em meus horários livres, leio uns livrinhos por aí. Do alto de minha autoridade de Leitor Normal, digo-lhe que, dentre os livros que amo, incluo A Montanha Mágica e quase toda a obra de Kafka. Sei que é um abuso, mas vou procurar lhe expor algumas características deste romance de Mann e da produção de Kafka.

Um dos principais assuntos de A Montanha Mágica é o tempo. A “ação” se passa dentro de um sanatório, onde há apenas médicos, pacientes e funcionários. É a representação de uma Europa enferma e vacilante logo após a Primeira Guerra Mundial. O livro é de 1924 e todos nós sabemos o que aconteceu depois na Alemanha e Europa. As discussões, muitíssimas vezes agressivas, ocorrem num ambiente onde impera a modorra e o tédio. Este enfraquecimento do senso de tempo, — expressão de Mann — deve ter sido tão bem trabalhado pelo autor, que o Sr. começou a dormitar e a pular páginas e páginas, tal como, em seu artigo, confessa ter feito. Deve ter pulado os luminosos capítulos Neve e Passeio pela Praia, devia estar tonto de sono durante as sensualíssimas cenas entre Hans Castorp e Clawdia Chauchat e não imagino o que fazia enquanto Naphta e Settembrini se matavam a discutir.

Já chamar Kafka de opressivo, sisudo, vetusto e funéreo é apenas fazer eco a um dos lugares comuns mais equivocados. Esta declaração soa como chamar Kafka de kafkiano, ou como chamar todas as personagens femininas de Balzac de balzaquianas. É respeitar um adjetivo, deixando de lado o sujeito. Posso citar de memória uns dez trechos de Kafka onde há bom humor e auto-ironia. Será que no livro mais famoso deste autor não há auto-ironia? Será que não há um pingo de auto-ironia numa história em que o narrador acorda e vê-se transformado em inseto? Será que não haveria uma pitada de auto-ironia se o Prof. Fischer escrevesse uma história como a que segue? “Num belo dia de outono, Luís Augusto, ao acordar, viu-se vestido de chuteiras, calção e camiseta do Grêmio…”. Está bem, concordo que é antes um pesadelo dos mais tenebrosos, mas não haveria auto-ironia nele?