O desespero de Fernandão pode ser muito útil

Fernandão tenta ver alguma luz no fim do túnel

Ontem, estava almoçando no Sabor Natural, na Siqueira Campos, e me encontrei com meus velhos amigos Sócrates Slongo e o Paulo Almeida. O Sócrates me lembrou de uma coisa que eu tinha dito a respeito do Inter e que tinha simplesmente esquecido. Logo após a contratação de Forlán, eu disse que o Inter estava se realmadrilizando. Referia-me ao Real Madrid que, antes de Mourinho, acumulava estrelas e não ganhava título nenhum. Não que seja ruim ter estrelas no time. É que estas, no Inter, sistematicamente são cooptadas a um grupo de semi-aposentados “grandes jogadores” que estão lá há anos e adotam seu estilo. Rapidamente, o jogador caro agrega-se ao grupo de Bolívar e Kléber, o dos jogadores “ricos com biografia”. Este grupo pensa que sua titularidade se dá por decreto e, quando ficam de fora, escolhem se querem ou não sofrer a humilhação do banco. Bolívar, por exemplo, não gosta de assistir o jogo do banco — ou joga ou fica em casa. Nei, Damião e Dagoberto, apesar de mais jovens, também participam do grupo dos velhos, talvez em função de seus altos salários. Índio idem, porém mata-se pelo time em campo e é adequado retirar dele a acusação da tal…

Fernandão chama a isso de “zona de conforto”. Tem razão. Mas não creio ser atribuição sua denunciar o problema. Aliás, ele parece ser o único angustiado. Luigi e seus companheiros de diretoria não estariam também numa zona de conforto? Pois é, o Inter é um clube estranho: tem uma folha de pagamentos que chega aos 9 milhões mensais e uma administração de futebol amadora. Também tem também um incrível respeito pelos jogadores campeões do passado. Eu já sou da opinião de Rubens Minelli, o qual repetia e repetia que futebol era momento e não tinha medo de deixar Batista, Caçapava ou Marinho Perez muitas vezes no banco. Não lembro de Manga, Figueroa, Falcão, Carpeggiani, Valdomiro ou Lula afrouxando o ritmo. Alfred Hitchcock também dizia que seus atores podiam ser substituídos por outros — disse uma vez a um deles que “atores são gado”. Ou seja, eles que obedecessem se quisessem seguir trabalhando com ele.

Mas o Inter tem medo do grupo de Bolívar, que já teve no passado co-líderes como Tinga, Clemer e… o próprio Fernandão. O tratamento com as vedetes é complicado, mas elas têm que ser dobradas. No Inter, há três grupos: o dos jovens, o dos estrangeiros e o dos velhos. A administração do futebol não consegue uni-los para dissolver a liderança dos velhos que moram no tal conforto. Fazendo corpo mole, eles já obtiveram demitir vários técnicos, mas nenhum veio se lamuriar em público, dizendo que nunca sabia se haveria esforço da parte do time e que rezava na beira do gramado para que houvesse interesse. “Eu nunca sei o que vai entrar em campo”. Piada, né? O fato é que nosso excelente grupo de jogadores, ao custo, repito, de 9 milhões por mês, é inútil, e faz uma campanha que, no segundo turno, o coloca na zona de rebaixamento. Nos últimos 9 jogos, ganhamos 6 pontos. (Eu abandonei o Beira-Rio e lhes digo, só volto em 2013). Se seguirmos assim, vamos nos livrar por pouco do rebaixamento. Não, não estou sendo louco, estou apenas olhando os números.

Então, apesar de achar que Fernandão não é técnico de futebol, seu mimimi pode fazer com que alguma coisa se mova internamente. Não, não se pode ser amiguinho de Bolívar e Cia. Ou eles jogam ou vão para onde o treinador os mandar. O próprio Fernandão, em seu patético pronunciamento, elogiou os jovens jogadores e disse que AGORA vai escalar quem se esforça em campo. Agora? Isto é uma confissão da vassalagem de um técnico que até dias atrás justificava tudo, desde as estranhas atitudes de Bolívar ao número incrível de cartões de D`Alessandro e Guiñazú. Não sei, creio que Fernandão devia comprar o confronto. Se hoje, na reapresentação dos jogadores, ele puser panos quentes, recuando de suas críticas, estamos fodidos. Está na hora de dobrar a geração vencedora ou virar a página.

Para os colorados, é o que resta torcer em 2012. Que a briga dê frutos e que venha um 2013 com novas diretoria, comissão técnica e, finalmente, nova dinâmica de grupo.

Sem revisão, tá? Deve ter erros.

Manga está de volta

Eu sei, são coisas de um louco por futebol: foi sincera minha alegria ao saber que o Inter, hoje, contratou Manga como relações públicas, com a finalidade de buscar novos sócios. Talvez não tenha havido um ícone colorado que tenha criado uma aura de invencibilidade como Manga. Na década de 70, ele foi o mais perfeito, falho, fantástico e problemático dos homens, ganhava tudo o que podia em campo, depois perdia todo o seu salário em torno de uma mesa de jogo. E gostava de uma cerveja como poucos, apesar da forma atlética de guri, mesmo aos 40 anos. A diretoria reclamava dos cobradores. Sei que havia dívidas de jogo que eram pagas pelo presidente Eraldo Hermann em sua loja Hermann — Materiais de Construção, espécie de Tumelero da época. O que fazer? Pagar, ué.

(Vejam os dedos tortos de Manga na foto acima, resultado de fraturas ignoradas pelo grande goleiro). Quando penso nas defesas daquele Inter x Cruzeiro de 1975, feitas bem na minha frente, custo a me dar conta de que aquela partida decidia o primeiro Campeonato Brasileiro de um clube gaúcho. Eu estava na social, próximo à estripolia. Como não tinha levado rádio, ignorava que Manga tinha quebrado um dedo e encarei como uma brincadeira o que mostro abaixo:

Na hora, não achei nada engraçado. Na verdade, fiquei puto com a total irresponsabilidade de nosso goleiro. Lembrei que, em 1966, ele tinha acertado um tiro de meta na cabeça de um russo em pleno Maracanã e que a bola entrara em seu gol. Todos os fantasmas de quem nunca fora campeão passaram pela minha cabeça de 18 anos até que Manga voltou a ser a estrela do jogo. Nelinho ia bater uma falta. Certamente, tentaria dar aquele efeito miraculoso de sempre, só que…

… , caralho, era o dia de Manga. E todas as decisões que o vi jogar no Inter eram dias de Manga. E agora este goleiro monstruoso estará de volta a Porto Alegre. Estará de volta para jogar, vai entrar em campo? Claro que não! Mas a contatação de Manga eleva o clube a outro patamar. É coisa de clube muito grande. Explico.

Se o Inter trará um perdulário problemático para Porto Alegre tanto se nos dá. O que importa é que é uma honra para o atleta e uma atitude de clube grande e grato as contratações de Clemer e agora a de Manga. Um clube que não reconhece sua história começa cada temporada do zero, é um clube pequeno. Manga não fará Abbondanzieri jogar mais e talvez nem consiga tantos sócios, mas quando os jogadores e torcedores o virem, saberão que há gratidão e respeito no clube que amam. Aquele senhor de 72 anos — que parece nunca ter falado direito nossa língua após sua passagem pelo Nacional de Artime — estará lá para comprovar. Dá-lhe Manguita Fenômeno!

Obs.: O Ramiro Conceição me faz lembrar de um fato que não expliquei no post. Manga estava morando no Equador, onde o Inter joga hoje. Estava desempregado, passando por dificuldades financeiras. O Inter soube e criou um emprego útil para o clube e para um de seus maiores jogadores em todos os tempos, o qual estará agora numa melhor situação de vida.