Porque hoje é sábado e Natal

Eu até gosto do Natal, dos reencontros, etc.,

só odeio a promoção de bons sentimentos,

e me irrito com a estória do menino Jesus.

Só dou presentes para crianças pequenas,

mas gosto das comidas,

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das sobras no almoço do dia 25,

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e dessa coisa de saber que o guri dos católicos,

o de 25 de dezembro, apareceu nesta data

só para atrapalhar a festa pagã do Solstício de Inverno.

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Os diferentes, mas nem tanto, natais dos sem fé

Lynn Friedman/Flickr

Para os de ateus e agnósticos, ver o Natal como um simples feriado seria apenas mais uma alteração num evento que já foi pagão, que depois tornou-se religioso por obra da Igreja Católica, que recebeu um Papai Noel chamado Nicolau – um bispo nascido na Turquia em 284 d.C que deixava saquinhos com moedas próximos às chaminés das casas – e que ganhou o vermelho e branco da Coca Cola em 1931, durante uma bem-sucedida campanha publicitária. Segundo o IBGE, o número brasileiros que declararam não ter religião no último censo, incluindo os ateus, cresceu de 1% nos anos 70 para 7,3% em 2010. O fenômeno é mundial. A American Physical Society fez uma pesquisa na Austrália, Áustria, Canadá, Finlândia, Irlanda, Holanda, Nova Zelândia, Suíça e República Tcheca. Destes, os tchecos revelaram-se os mais religiosos, com 60%. O menor número foi encontrado na Holanda. A entidade projetou as tendências no país para 2050, chegando à conclusão de que 70% dos holandeses não terão religião na metade do século XXI. Nos Estados Unidos, o número daqueles que se identificam como cristãos teve uma queda de 10% nos últimos 20 anos, passando de 86 para 76%.

O Sul21 procurou saber como é a comemoração da data para estas pessoas. Afinal, é praticamente impossível passar ao largo da face comercial do Natal. A engenheira Rachel Zanini afirma que, para ela, o Natal foi por muitos anos apenas “decoração e gastronomia” e que nunca contestou o significado da data por viver numa família extremamente católica. A partir do momento em que pode desenvolver uma crítica interna, começou a se incomodar com os excessos religiosos da família e com os comerciais da sociedade, além da obrigatoriedade da comemoração. “Até o salão de beleza onde fui hoje estava decorado com as cores da Coca-Cola. Serviam espumante… Tudo isso pelo nascimento de Jesus?”. Vou à festa da família, mas não compro presentes e só desejo boas festas e bom feriado aos amigos.

A dona de casa italiana Bruna Schiavone diz que, quando saiu do norte da Itália, nos anos 90, as festas eram bem diferentes. “Lá na Itália, a festividade está mais americanizada, mas no meu tempo as crianças comemoravam o Dia de Santa Lucia. Essa festa não é a mesma do Natal, nem na mesma data. As crianças recebiam doces de presente – antigamente ganhavam laranjas como desejo de saúde e necessidade de vitamina C para o inverno –, estes eram os presentes. No dia 25, havia um almoço e fim. Nada de vigília ou troca de presentes. Hoje, vejo a data como uma oportunidade de reunir a família. Não monto pinheirinhos em casa nem deixo a casa com cara de Natal”.

Marshall: “Hoje, reunimos a família e eu estou proibido de fazer piadas sobre religião por causa dos mais velhos”. | Foto: Ramiro Furquim / Sul21

O mesmo faz Francisco Marshall. “No passado, como família germânica tradicional, cantávamos o “noite feliz”, comíamos peru e mais aquele monte de guloseimas. Hoje, reunimos a família e eu estou proibido de fazer piadas sobre religião por causa dos mais velhos. Porém, como ateu programático, às vezes aproveito a deixa… No ano passado, como meu aniversário fica próximo, fiz a festa em 25 de dezembro”. E os presentes? “Neste ano, só presentes dos adultos paras crianças. Não se toca no nome de Jesus Cristo, nem para o bem nem para o mal. Ou seja, é quase um ágape pagão, mas não se cogita passar em branco ou ficar em casa vendo filme. Há o peso da tradição na família”. Marshall explica que normalmente há discussões sobre ateísmo nas reuniões familiares, mas que estas cessam no final do ano. “A convivência é mais importante, mesmo que o ateísmo predomine, o que é o nosso caso”.

O presidente da ATEA (Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos), Daniel Sottomaior, comemora tranquilamente e não se incomoda com a data. “A origem da festa não guarda o menor traço de cristianismo: é o Solis Invictus, o Solstício de inverno. Tenho uma filha de 7 anos que adora o 25 de dezembro. Nossa árvore é uma árvore de Newtal, referência a Isaac Newton, que nasceu nesta data e que descobriu a Lei da Gravidade. Ela tem maçãs, luzes e debaixo dela, um volume dos Principia (Princípios Matemáticos da Filosofia Natural) do autor. Os outros simbolismos – perus, renas, presentes, árvores, Roberto Carlos – , nada disso nasceu com o Natal. Estamos apenas retomando uma data pagã que foi roubada pela igreja”.

Sottomaior: “Nossa árvore é uma árvore de Newtal, referência a Isaac Newton”.Reprodução/Flickr

A fala de Sottomaior encontra eco nos livros de história. A história do Natal começa, na verdade, pelo menos 7 mil anos antes do nascimento de Jesus. No hemisfério norte, o solstício de inverno era comemorado por marcar a noite mais longa do ano. No dia seguinte, ela seria paulatinamente mais curta, encaminhando o final do período ruim para as lavouras. Então, no solstício de inverno era festejada a melhoria das perspectivas. Era um tempo em que o homem deixava de ser caçador errante e começava a dominar a agricultura; então a volta dos dias mais longos significava a certeza de novas colheitas no ano seguinte. Na Mesopotâmia a celebração era enorme, com mais de dez dias de festa. Já os gregos cultuavam Dionísio no solstício, o deus do vinho e do prazer. Na China, as homenagens representavam a harmonia da natureza. Os povos antigos que habitavam a atual Grã-Bretanha criaram Stonehenge, monumento que começou a ser erguido em 3100 a.C. para marcar a trajetória do Sol ao longo do ano. Então, em 221 d.C., o historiador cristão Sextus Julius Africanus propôs à Igreja a fixação do nascimento de Jesus no dia 25 de dezembro. Aceita a proposta, a partir do século IV o Solis Invictus começou sua mutação. Ficou convencionado que Jesus nascera em 25 de dezembro e que as celebrações eram em sua honra.

Rickli: “Em alguns anos, em vez de usar pinheiros, enfeitávamos bananeiras de Natal”.

Mas voltemos a nossos personagens. Ralf Rickli, pedagogo e escritor, trabalhou por anos em comunidades carentes em São Paulo. “Nunca fiz proselitismo ateísta, mas explicava a meus alunos sobre a subjugação da cultura local em relação à do norte. Então, rejeitava os símbolos europeus, temperados, em favor de uma simbologia tropical. Em alguns anos, em vez de usar pinheiros, enfeitávamos bananeiras de Natal. Nossa celebração subversiva sempre foi um sucesso absoluto!. No passado, todos os anos eu pagava pontualmente o imposto familiar, que é o de ir à festa sem nenhuma vontade. Ficava quietinho. Minha mãe foi professora de escola dominical presbiteriana, sabe como é”. Hoje trabalhando em Vitória (ES), Ralf costuma passar o Natal sozinho. Diz que não se deprime, mas que se fosse convidado por alguém legal, iria se divertir com os amigos.

Cláudio Costa: “Muitas vezes a irritação vem da necessidade do cumprimento de um ritual ou até da necessidade de abraçar um familiar que lhe é desafeto”.

Por falar em depressão, Claudio Costa, psiquiatra e psicanalista mineiro, afirma que há efetivamente pessoas que se sentem excluídas de um fenômeno do qual gostariam de participar com alegria. “Isso ocorre independente de convicções religiosas. Em situações de festa, de alegria obrigatória e com hora marcada, muitos sentem desconforto por não se identificarem com a alegria. Sentem a situação com um beco sem saída. Quem não consegue ter uma crítica lúcida sobre a festa e liberar a sociedade das culpas, sente-se atingido. Muitas vezes a irritação vem da necessidade do cumprimento de um ritual ou até da necessidade de abraçar um familiar que lhe é desafeto. Porém, ao mesmo tempo que se irritam, essas pessoas “não conseguem não ir” e a consciência de que está cumprindo uma obrigação desagradável é causa de aborrecimento.

Estes são apenas alguns depoimentos que colhemos. A impressão geral que ficamos é de que os entrevistados – todos ateus declarados – veem a festa como uma ocasião para reunir a família, dar presentes para as crianças e refletir um pouco, o que está longe de ser negativo. Uma entrevistada que não deseja se identificar faz questão de expor uma restrição: “Olha, tudo bem, mas acho que perdemos alguma qualidade e liberdade que as celebrações pagãs deviam ter, sei lá”.

Publicado em 25 de dezembro de 2011 no Sul21.

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O PHES lembra: é Natal e a presidente da Croácia chama-se Kolinda Grabar-Kitarović, não Coco Austin

Natal

Disseram que a mulher abaixo é a presidente da Croácia Kolinda Grabar-Kitarović. Só que não.

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Kolinda Grabar-Kitarović é uma jovem e linda presidente, mas a moça acima e abaixo (do lado direito) é a atriz norte-americana Coco Austin.

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Kolinda é mais normal e não usa silicone.

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Antes da improvável penitência, o Carnaval, Carnis Valles, ou os prazeres da carne

Publicado no Sul21 em 14 de fevereiro de 2015

Ramiro Furquim / Sul21

Ramiro Furquim / Sul21

Tal como o Natal, o Carnaval é uma festa anterior ao Cristianismo. É comemorado há pelo menos 10 mil anos. Existia no Egito, na Grécia e na Roma antigos, sempre associado à ideia de fertilidade da terra. Era quando o povo comemorava a futura boa colheita, a proximidade da primavera e a generosidade dos deuses. A festividade começou pagã e trouxe até nossos dias parte de suas características originais: os rostos pintados, as máscaras, o excesso, a extravagância e a troca de papéis.

Em Roma, o mais belo soldado era designado para representar o deus Momo do Carnaval. Era coroado rei e permanecia três dias nesta condição. Posteriormente, passou-se a escolher o homem mais obeso da cidade para servir como símbolo da fartura e reinar por três dias. Esta troca de papéis durante o carnaval foi extensivamente analisada por Mikhail Bakhtín no clássico A Cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. Segundo Bakhtín, o carnaval permitia a inversão da ordem estabelecida, a fuga temporária da realidade. Seria um espaço de suspensão da rotina que ofereceria aos homens um grau de liberdade não experimentado normalmente. Se Bakhtín visava descrever a Idade Média e o Renascimento com a frase anterior, também descreve o que ocorre hoje, aqui, agora.

Os espectadores não assistem ao carnaval, eles o vivem, uma vez que o carnaval, pela sua própria natureza, existe para todo o povo. Enquanto dura o carnaval, não se conhece outra vida senão a do carnaval. Impossível escapar a ela, pois o carnaval não tem nenhuma fronteira espacial. Durante a realização da festa, só se pode viver de acordo com suas leis, isto é, as leis da liberdade.

Mikhail BAKHTÍN

Jonathan Heckler / PMPA

Jonathan Heckler / PMPA

O antropólogo Roberto Da Matta, em sua obra Universo do Carnaval: imagens e reflexões, traz a obra de Bakhtín ao encontro da realidade brasileira. Se não há uma inversão completa da ordem, é o momento em que os mais pobres, organizados, invadem o centro da realidade, estabelecendo um “mecanismo de liberação provisória das formalidades controladas pelo estado e pelo governo”. Durante o carnaval, há toda uma encenação em que se desmancham as subordinações – os pobres vestem ricas e escandalosas fantasias tomando o lugar da elite –, em que há outras inversões de papéis – homens travestindo-se de mulheres e vice-versa — e a celebração da abundância – de riqueza, de brilho, de música, de dança, de energia – em contraposição à rotina e à austeridade. Voltando à Bakhtín: “É a violação do que é comum e geralmente aceito; é a vida deslocada do seu curso habitual”.

Evandro Oliveira / PMPA

Evandro Oliveira / PMPA

A Igreja Católica defendeu por muitos anos que a festa surgiu a partir da implantação da Semana Santa, no século XI. A Semana Santa ou, mais exatamente, a Sexta-feira Santa, é antecedida pela Quaresma, período de 40 dias que começa exatamente na Quarta-feira de Cinzas. A Quaresma seria um longo período voltado à reflexão e onde os cristãos se recolheriam em orações e penitências a fim de preparar o espírito para a chegada do Cristo ressurreto. Mas, antes, festa total! O longo período de privações teria incentivado as festividades nos dias anteriores à Quarta-feira de Cinzas. A palavra “carnaval” estaria também relacionada à ideia dos prazeres da carne e a etimologia vem a nosso auxílio: carnaval deriva da expressão carnis valles, carnis significa “carne” em latim e valles significa “prazeres”. Então, se há a devoção a Cristo, antes há a devoção aos prazeres da carne. E não é nada de espantar a nudez das pessoas durante o período…

A passagem de uma data para outra, do Carnaval para Quaresma na Quarta-feira de Cinzas, foi tema para o grande Pieter Bruegel, o Velho (1525-1569) no quadro A Luta entre o Carnaval e a Quaresma (1559), onde são mostrados dois grupos frente a frente, o dos penitentes e o carnavalesco. É curioso notar que a genial gravura confronta dois grupos diversos e não uma mudança de postura das mesmas pessoas. Se há realismo no quadro do flamengo, havia dois grupos, o dos festeiros e o dos religiosos. À direita, vem o grupo de religiosos; à esquerda, o de carnavalescos.

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Acima, ‘A luta entre o carnaval e a Quaresma’, obra de Pieter Brueghel, O Velho. Clique na imagem para ampliar.

O dia anterior ao fim do Carnaval é a Terça-feira Gorda, em francês Mardi Gras, nome do Carnaval de New Orleans.

No Brasil e em todo o mundo onde há Carnaval, são verificadas características das manifestações antigas. O que são os trios elétricos senão cortejos que carregam milhares de pessoas que cantam, dançam e bebem numa verdadeira celebração dionisíaca? O que é o desnudamento aliado à luxúria, garantindo um cenário altamente propício à liberdade sexual, senão o clima tão bem descrito em Concerto Barroco, romance histórico do cubano Alejo Carpentier que se passa na Veneza de Vivaldi (no início do século XVIII)? Tais excessos, que normalmente acabavam em grandes orgias eram condenados pela Igreja, mas arrebatavam a nobreza. Bakhtín chama de “realismo grotesco” tal conjugação de materialidade e corpo, onde as satisfações carnais (comida, bebida e sexo) têm lugar de destaque.

Ramiro Furquim / Sul21

Ramiro Furquim / Sul21

Apesar da Quaresma ser quase desconhecida e pouco sentida em nossos dias, a catarse coletiva, o exagero e os efêmeros dias de festa contínua seguem e certamente seguirão por séculos. Na “sociedade do espetáculo”, como diria Guy Debord, o Carnaval se transforma em desfiles monumentais transmitidos pela TV, onde o que se vê é ainda o exagero, a troca de papéis e as alegorias e paródias que vêm desde há 10.000 anos, quando os homens afastavam os maus espíritos de suas plantações através de máscaras. A catarse atual não ocorre depois do longo inverno do hemisfério norte, nem é causada pela perspectiva de um longo período de penitência, mas é a data estabelecida no imaginário popular como a do verdadeiro início do ano, depois da qual tudo volta ao normal, entronizando finalmente o cotidiano que reina pelo resto do ano. Muito pensadores marxistas veem o carnaval como uma válvula de escape para as tensões do cotidiano, permitida, controlada e estimulada pelos grupos dominantes a fim de, depois, manipular e reforçar a ordem vigente, mas não sejamos tão revanchistas no dia de hoje. Dioniso não ficaria feliz.

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Moleza

A semana inicia na quarta-feira e mole. Depois das cervejas e dos spritz do prolongado fim de semana, o estômago improvisa alguns muxoxos e uma monumental preguiça começa a tomar conta de mim, ainda mais vendo que há poucas notícias e que meu ônibus veio quase vazio até o centro. O Sísifo Hugo Chávez recupera-se novamente, Dona Canô e Fúlvio Petracco se despediram, ontem fez 40 graus em Porto Alegre  e até agora, 9h30, não vi nenhuma chuva que possa nos salvar.

Ontem, uma leve brisa levou a energia elétrica de nossa casa por mais ou menos uma hora. Pobres daqueles que desejavam ver o programa do Roberto Carlos na TV. Como disse um amigo, depois de 300 anos de ocupação colonial, a CEEE ainda não se deu conta de que aqui chove forte e venta. Tanto não se deu conta que basta uma brisa.

Melhor tentar trabalhar, né?

Essa foi a descoberta do verão: o tal do spritz

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Meu sonho de Natal

Quando eu era pequeno, gostava do Natal. Na verdade, adorava, claro, porque meus pais nos enchiam de presentes. A festa era diferente, era matinal. A gente ia dormir pensando naquilo que o Papai Noel nos deixaria durante a noite e, quando acordávamos, nossa, ele tinha adivinhado nossos mais profundos desejos! Lembro especialmente de quando ganhei um autorama, mas isso é outro papo.

Depois, meu esfriamento em relação à data chegou a grau zero. Ainda na pré-adolescência, sem ler nada e sem maior influência, tornei-me ateu, um ateu natural e a data, que originariamente é uma festa pagã, passou a me irritar em razão de seu substrato religioso. Acho que todos os meus sete leitores sabem que a origem da festa não guarda o menor ranço de cristianismo: é o Solis Invictus (Sol Invencível), o Solstício de inverno. Era uma enorme festança que acontecia na noite mais longa do hemisfério norte para comemorar o recomeço, pois dali por diante os dias seriam mais longos, pouco a pouco mais quentes, e haveria a possibilidade de novas e fartas colheitas. Uma belíssima data do hemisfério norte, uma data bem realista que nos foi tomada pela igreja. De certa forma, era mais ou menos (eu escrevi mais ou menos) o que é nossa virada de ano, com suas renovadas esperanças, resoluções e renovação.

Depois, quando vieram as crianças, cheguei a me vestir de Papai Noel. No segundo ano, o Bernardo ficou me olhando como quem diz “Mas esse aí é o meu pai” e, perguntado se não era no dia seguinte, neguei e desisti de novas tentativas. A Bárbara deve ter aproveitado menos dessas festinhas. Também pudera! Ela, com três anos de idade e já sob a influência do irmão três anos mais velho, costumava observar aos coleguinhas de maternal que nem Deus nem Papai Noel existiam, fato que a deixava extremamente popular entre seus amiguinhos e objeto de desconfiança dos outros pais. Quem seria aquela crespinha louca, de três anos, que fazia proselitismo ateu num maternal?

Terrível: Bárbara por volta da época em que fazia proselitismo ateu. Ainda faz, acho.

Hoje, nem dou bola para o Natal, mas acho que está na hora dos movimentos ateus serem menos mal humorados. A data é nossa. Simples assim. Por exemplo, o presidente da Atea (Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, da qual sou sócio), Daniel Sottomaior, comemora tranquilamente e não se incomoda com a data. Ele tem uma filha de 8 anos que adora o 25 de dezembro. Diz ele: “Nossa árvore é uma árvore de referência a Isaac Newton, que nasceu nesta data e que descobriu a Lei da Gravidade. Ela tem maçãs e luzes. Os outros simbolismos – perus, renas, presentes, árvores, Roberto Carlos – , nada disso nasceu com o Natal”. E completa: “Estamos apenas retomando uma data pagã que nos foi roubada pela igreja e que foi comemorada por sete mil anos antes do século III”.

Aqui em casa, durante o Natal, meu filho costumava  — esse ano ele não fez (por quê?) — escrever no quadro de avisos da cozinha em letras garrafais: Natalis Solis Invictus, isto é, Nascimento do Sol Invencível. O nascimento do Sol Invencível é o momento em que o Sol inicia a Sua ascensão triunfante, representando, neste momento, a Luz que nunca morre e vence sempre, reflexo da imortalidade. (E que acabará com a Terra, daqui a 5 bilhões de anos…). Á época, a data era uma coisa tão forte que a igreja trouxe o nascimento de Jesus justo para o 25 de dezembro… Vergonha.

Então, meu sonho de Natal é que o paganismo retome a data. E que, no hemisfério sul, a gente invente um modo bem livre e religiosamente incorreto de comemorá-lo. Eu acharia muito justo se os namorados perseguissem uns aos outros nus pelas ruas, algo assim. É sonho, e em sonhos vale tudo.

P.S. — Rodrigo Cardia que, assim como eu, odeia o verão, escreveu: O texto do Milton Ribeiro me fez lembrar do significado original da celebração: o solstício de inverno no hemisfério norte, noite mais longa do ano, depois elas começam a ficar mais curtas. E então percebo que tenho algo a celebrar: aqui no hemisfério sul as noites começam a ficar mais longas… 

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Alex Castro dixit:

Eu comemoro bastante datas, elas só tem que ter algum significado. O nascimento de um cara que provavelmente nem existiu e, se existiu, não nasceu nesse dia e, existindo ou não, deu origem a uma religião assassina… bem, não acho motivo de celebração.

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Um homem deve saber a hora de trocar seu e-mail ou Recebendo mensagens da estrela spammer Onyx

Meu amigo Fernando Guimarães, coloradíssimo, recebeu este e-mail deste célebre deputado do DEM/RS:

Sua resposta, 3 minutos depois, foi uma perfeição:

—– Mensagem encaminhada —-
De: Guimaraes Fernando
Para: Onyx Lorenzoni
Enviadas: Segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009 10:47:52
Assunto: Res: Feliz Natal Colorado

Não esqueça do meu Panetone !

Fernando Guimarães

Algo vindo do Onyx… Olha, nem embalado à vácuo, sem contato manual.

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História de Natal

Aos três anos de idade, Maria foi entregue ao Templo a fim de dedicar sua vida a Deus. Era uma das muitas meninas que lá executavam todo gênero de trabalhos, desde os manuais até os de limpeza; nas horas vagas, oravam e liam as Escrituras. Um dia, aos 13 anos, notou em suas roupas as manchas vermelhas que a impediriam de continuar. Tornara-se alguém passível de contaminar a pureza das outras virgens do Templo; então, foi posta à disposição dos homens. Acostumada a não decidir sobre seu destino, não ficara muito surpresa com a resolução que sorrateiramente seu corpo tomara.

Havia uma espécie de loteria da qual participavam os solteiros e viúvos que desejassem esposas e José ganhou Maria. José era um velho — caminhava com o auxílio de um cajado — e tinha outros filhos: Tiago, José, Simão e Judas. Ele não necessitava de mulher a fim de satisfazer sua rara concupiscência, mas precisava de alguém que fizesse o trabalho diário de casa e para isso Maria servia. Tendo vivido no Templo, era certamente prendada. Porém, muito magra e amedrontada, não o motivava a nada, talvez nem a seus filhos. Seria fácil manterem distância de sua mulher. Após o casamento, José deixou Maria intocada e acabou por abandoná-la por quatro longos anos, pois fora chamado a um trabalho fora da Judéia, mais exatamente em sua Galiléia natal.

Enquanto isso, ela seguia realizando o trabalho doméstico para o qual fora treinada no Templo: alimentava os filhos do marido, lavava e costurava roupas, mantinha a casa em ordem e procurava não ficar íntima dos rapazes. Sabia que sua posição de “esposa” pressupunha uma postura estranha junto aos filhos de seu marido. Era mais jovem do que eles, então retraía-se, o que para ela, crassa tímida, era fácil. Suas horas mais felizes eram aquelas poucas que passava nas feiras, trazendo a matéria-prima para as refeições do dia seguinte e admirando as roupas e tecidos. Pensava ser pecado a vaidade, mas como resistir ao colorido deles? Perguntava repetidas vezes seus preços de alguns deles, esperando até que baixassem. Comprava bastante, pois a costura fazia parte de suas funções e os homens da casa frequentemente estragavam suas vestes na lida. Como não tinham muito dinheiro, ela pechinchava, perdia a timidez e tornava-se conhecida dos vendedores. Algumas vezes, fora advertida de que as roupas que fazia ganhavam detalhes insperados, femininos. Os rapazes riam daquelas manias de menina de Maria. Gostavam dela, era como uma irmã mais nova para eles.

Certo dia, um desses comerciantes a atraiu para sua casa a fim de que ela visse alguns tecidos, verdadeiras maravilhas à preços módicos. Maria, correspondendo a seus convites, passou a visitá-lo em sua casa. Repugnava-lhe a forma como ele um dia a tratou e tinha absoluta certeza de estar fazendo algo errado, mas tinha receio do que o comerciante poderia dizer na feira. O fato repetiu-se. Os filhos de José não se davam conta de que Maria passara a possuir provisões extras de tecidos, de comida e de quinquilharias para a casa e para si. O que lhes importava é que seus serviços permanecessem de acordo com suas necessidades e neste quesito Maria era impecável. Porém, ela tinha repetidos pesadelos em que era punida severamente por seu comportamento. Neles, sempre estava presente José e seus filhos, acusando-a de ser má esposa. Muitas vezes era assassinada; outras vezes, enfrentava tribunais nos quais o comerciante a culpava por seduzi-lo e acabava condenada aos piores suplícios. Na verdade, o que Maria desejava era ter José de volta. Fantasiava com um tratamento mais viril de sua parte. Afinal, com quase 16 anos, já era uma mulher.

O anúncio do retorno de José coincidiu com a interrupção de sua menstruação e com o arredondamento de suas formas. O bico de seus seios machucavam-se contra os tecidos novos de suas roupas, os vômitos tornaram-se frequentes e sua barriga começou a adquirir um inequívoco formado convexo. José retornou e impressionou-se com Maria. Ela tinha a sua altura e, contrariamente a quatro anos, falava, dava ordens em casa e era bonita. Naquela noite, José abraçou-a carinhosamente, de um modo que fez com ela se abandonasse a ele. Ele sentiu em si o bojo crescente no ventre de Maria e perguntou-lhe o que aquilo significava. Maria abraçou-se a ele e, chorando, contou-lhe que tivera um sonho em que um anjo lhe penetrara e que, pela manhã, estava suja de sangue. Disse-lhe que o filho era daquele anjo. Só podia.

José não era um cético, longe disto, mas resolveu perguntar a seu filho Tiago — logo a ele, depois autor de um evangelho apócrifo — sobre a conduta de Maria durante sua ausência. Este assegurou-lhe que Maria era uma boa e fiel esposa, que nunca faltara-lhes nada e que ela os tratava com amor e respeito. José estava confuso, sentia-se sozinho com sua dúvida. Preocupava-se com o que os outros iam dizer de uma gravidez tão imediata a seu retorno e proibiu Maria de sair de casa. Aquela seria a solução: ninguém a veria grávida, veriam apenas a criança depois de nascida e diriam que o parto fora abreviado, que a criança nascera antes, algo assim. No fundo, depois de tantos anos longe, José queria sua esposa e seu filho, precisava da convivência e da companhia deles. Além disto, havia outros motivos para preocupações.

Herodes havia mandado matar todas as crianças da Judéia e José estava preparando-se para esconder seu filho. Jesus nasceu e José decidiu partir novamente, desta vez levando sua família. Na estrada, pararam para descansar numa estrebaria fora de uso, colocando o bebê sobre uma manjedoura. Estavam famintos quando viram três homens cambaleantes se aproximando. Seus hálitos de vinho foram sentidos por Maria e pelos irmãos de Jesus à distância. Eram bons homens que, ao verem a dificuldade daquela família, ofereceram-lhes algum dinheiro, insenso e mirra. José ficou com o dinheiro — que resolveria seus problemas imediatos — e com o insenso. Gostou do trio. Devolveu-lhes a mirra por não saber do que se tratava. Quando perguntou quem eram, eles brincaram, afirmando serem reis magos. José riu, bebeu com eles de seu vinho e dormiu, sonhando com um grande futuro para seu filho. Viu-o embrulhado num manto, vestido como se fosse uma espécie de santo. Na manhã seguinte, seguiram para a Galiléia.

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Conto de Natal

Em meio à ceia de Natal, ele bateu com o garfo no copo de cristal, ergueu-se e começou:

— A data de hoje pressupõe alegria, felicidade e creio que alcançamos isso novamente pelo simples fato de estarmos reunidos, sem ausências a não ser a de minha mãe doente, que dorme com minha pequena Clara, e a de meu recém falecido pai. A mística familiar está mantida, velhos afetos se reconhecem, histórias da infância de cada geração afloram e a nostalgia nos invade. Lembro-me de um Natal ocorrido há uns 30 anos em que eu sofri uma das maiores decepções da infância. Eu tinha absoluta certeza de que receberia um barco a motor para pescar com meu pai… Ganhei uma bicicleta. Para a criança que eu era, aquilo foi a maior das frustrações; eu fantasiava com aquele barco, imaginava quantas noites poderia dormir tarde na companhia do pai e inventava histórias nas quais brilhava na pescaria, nas bravatas e nas piadas. Estava naquela idade em que os guris estão loucos para entrar no “maravilhoso e livre” mundo dos homens adultos. Quando soube que meu barco tinha sido substituído por uma bicicleta – mesmo ela sendo uma linda Peugeot -, quis sumir. Saí correndo e fui me esconder no local mais improvável. Fui na direção do galinheiro e lá fiquei, junto de minhas novas amigas, sentado atrás dos poleiros. Naquele desespero infantil, desejei ser uma delas, pois pensava ser impossível a uma galinha sofrer decepção semelhante. Odiei os seres humanos. Passada mais de uma hora, já estava achando as galinhas chatas e refletia sobre a forma menos humilhante de voltar para a festa. Foi quando vi a silhueta de minha mãe. Provavelmente atraída por meus soluços, ela adentrou cuidadosamente naquilo a que a gente chamava de casa das galinhas, sentou-se a meu lado e ficamos de mãos dadas. Explicou-me que a culpa fora dela, que ela havia suplicado a meu pai que não me desse o barco, que ela tinha medo de que eu me perdesse, me afogasse, essas coisas de mãe. Voltei para casa e até achei a Peugeot bonitinha. Só fui ganhar o barco uns cinco anos depois, mas já não via tanta graça naquilo.

Fez uma pausa para observar familiares e amigos sentados dos dois lados da imensa mesa posta na rua e continuou:

— Agora vou lhes contar um fato ocorrido no Natal do ano passado. Após o brinde, o pai chegou perto de mim e disse que aquele seria seu último Natal. Reclamei daquele absurdo, mas o pai reafirmou o fato. Caminhamos pelo terraço e ele, com voz embargada, revelou que tinha levado os nossos negócios a seu limite. Admitiu (e é verdade) que administrara mal as empresas herdadas, que era um fracassado, que havia mais de quinze familiares que dependiam do bom andamento das coisas, que ele não soubera levar adiante tudo o que seu pai, meu avô, construíra. Contou-me que tudo estava hipotecado e que eu teria de administrar a massa falida. Perguntei-lhe sobre algumas situações e soube que havia dívidas fiscais, trabalhistas, com fornecedores e que as terras tinham de ser imediatamente vendidas.

Agora o silêncio era sepulcral, apenas quebrado pelas risadas descontroladas de um tio embriagado que estava achando toda aquela seriedade muito cômica.

— Nos dias seguintes, o pai me orientou sobre como fazer as vendas e as demissões, de forma a que pudéssemos encerrar os negócios com alguma dignidade. Morreu no primeiro semestre, poucos de vocês sabem que ele se suicidou.

Ouviram-se algumas interjeições na imensa mesa. O gerente da fábrica ficou em pé, a nora — tão linda — quedou-se boquiaberta ao vislumbrar o futuro. Outros pediram debilmente para que ele parasse o discurso, mas a estupefação e a curiosidade eram maiores. O tio seguia pensando tratar-se de uma piada, outros apenas observavam o patético da cena, mas havia quem quisesse saber de seus empregos, enquanto os familiares mais próximos fixavam seus olhares nele a fim de saber tudo o que houvera.

— Bem, amigos, aproveitei a data de hoje para compartilhar com vocês o problema. Nossa vida vai mudar, nossos carros, nosso padrão mudará. Já vendi duas empresas que serão entregues na virada do ano e fecharei outras. Pagaremos os funcionários, venderemos nossas terras e é bom vocês se acostumarem a pedir penico para gerentes de bancos… Foi só que fiz este ano.

Baixou a cabeça como se fosse chorar.

— Pare imediatamente com isso! – gritou sua esposa.
— Não paro. Preciso dividir este problema com alguém. Estamos todos reunidos. Carrego isto sozinho há um ano. Tenho que aproveitar a oportunidade.
— Oportunidade de fazer mais besteiras? Destas tu sempre te aproveitaste! E como é que eu não sabia de nada disso?
— Nós não conversamos há anos, Laura.

Foi quando viram a velha senhora chegar-se à mesa.

— Por que vocês estão, ou estavam, querida, tão silenciosos? Deixei de escutar aquele burburinho gostoso de festa e fiquei curiosa — declarou, dirigindo-se à nora que detestava. Costumava chamá-la de Lauríssima Criatura.
— Mãe, por favor, volte para o quarto, o médico avisou… – disse o orador.
— Seu rico filhinho estava proferindo uns disparates de Natal para nós! – interrompeu a furibunda nora.
— Sobre a falência e o suicídio? Ah, eu já sabia. Até vendi algumas jóias e botei numa poupança. Por que não fazes o mesmo?

A nora estava vermelha, pronta a atirar-se sobre o primeiro que se atravessasse a sua frente.

— A senhora concorda com isso? Contar toda esta bandalheira publicamente, na frente de toda a família e amigos, numa noite de Natal? Basta vendermos nossas jóias? E nós, Dona Maria?

A velha olhou para o céu; depois, estendeu a mão para o filho, que a segurou e abraçou carinhosamente a mãe. Esta olhou para a nora e respondeu com seu melhor sorriso:

— Nós sempre teremos Paris, Laura.

A mesa viu o filho levá-la de volta para o quarto onde dormia a criança. Adormeceram de mãos dadas. Lá fora, o tio de repetidos ataques de riso ficara subitamente sério após cruzar com o olhar fulminante da Criatura.

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