A noite da espera, de Milton Hatoum

A noite da espera, de Milton HatoumFoi um choque iniciar e leitura de A noite da espera logo após ler Oblómov. Foi como cair num pântano após quilômetros de caminhada tranquila. O livro simplesmente não me envolveu e eu esperava muito dele. Imaginem que cheguei a dá-lo de presente a um amigo, na certeza de que era um excelente romance. Não é. E tinha tudo para eu gostar: era um romance escrito por um grande autor sobre a geração que esteve na universidade durante a ditadura militar nos anos 70, a minha geração. Tive vontade de abandoná-lo, mas fui até o fim. Logo de cara vê-se uma estrutura frouxa, como um tênis desamarrado. Fiquei esperando por alguma virada, mas nada aconteceu. Não tem boa trama, o conflito é contra algo que não se vê e que não parece perigoso ou incompreensível, o cenário é pintado com superficialidade, enfim, dá vontade de largar. O protagonista e narrador da história é desinteressante. Burro, até diria. Perdido na cidade, mudando de moradia a toda hora e, incrivelmente, refletindo pouco sobre os fatos de sua vida — a separação dos pais, o sumiço da mãe, o pai entusiasmado com a “revolução” dos milicos, os amores — Martim vê tudo passar sem intervir e, pior, sem refletir muito. O livro vai ficando cada vez mais difícil de entender em razão de sua superficialidade e péssima construção. Eu, como leitor, tive que anotar o nome dos personagens e como eles se relacionam, pois todos falam e agem igualmente, sem a menor distinção. São chatos nos dois sentidos. Todos dizem insignificâncias. A política também não é muito tocada. Só se sabe que há censura, perigo e corrupção. Bem, não é uma novidade. E onde ficou a trama, o romance, a tensão, a reflexão, a humanidade? Oblómov tinha setecentas páginas e este romance tem duzentas e poucas, só que muito mais longas. Um saco.

Não recomendo. E, digo-lhes, meus sete leitores, este é o primeiro volume de uma trilogia… Tô fora.

Mídia promocional do programa Impressões do Brasil (TV Brasil)

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Lendo Oblómov

OblómovEstou lendo cada vez mais lentamente Oblómov e não é por não estar gostando. É que não dá para interromper os capítulos no meio, há que ler cada um deles por inteiro, pois são peças muito perfeitas do mosaico que está sendo formado para serem lidas com interrupções. Dá mais prazer ler cada capítulo completo. O próximo capítulo tem 20 páginas, então preciso de 20 páginas de tempo sem correr riscos de ser atrapalhado.

Oblómov é a história de um latifundiário russo que se caracteriza pela indolência e apatia, para não dizer coisa pior. Deitado em seu sofá, olhando para o teto, ele deixa passar os dias. Embora vários problemas o atormentem — principalmente sua fazenda, que cada vez gera menos dividendos –, ele apenas planeja a melhor maneira de resolvê-los, sem agir. A mera ideia de deixar sua poltrona causa-lhe desconforto, então ele deixa a inércia guiar sua vida, que vai de mal a pior. A vida passa ao largo. Mas não pensem que é um livro monótono, muito pelo contrário, é bastante movimentado e os diálogos e os pensamentos de Oblómov são vivíssimos. Ele realmente tem o ócio como bandeira.

Ele tem um amigo de infância, Stolz, que é o que poderíamos chamar de homem de ação. No pequeno tempo livre de que dispõe, ele tenta retirar seu amigo da inação em que vive imerso. Instiga-o a resolver imediatamente seus problemas, a viajar e viver. Graças a Stolz, Oblomov conhece uma jovem por quem se apaixona. Então, vive um curto despertar. Aluga outra residência, visita e visita a amada. Porém, antes de casar, tem que resolver os assuntos de sua propriedade. Além disso, Olga quer que ele esteja atualizado com o que está acontecendo no mundo. Mas tudo isso parece ser uma demasia para ele.

Ele mora na cidade, mas planeja construir uma casa em sua propriedade para lá morar com Olga, mas seus rendimentos são decrescentes e o descontrole é absoluto. O que faço, o que faço, o que faço? Ele tem boas ideias a respeito, está consciente de tudo o que lhe ocorre, só que é o Rei da Procrastinação, o Príncipe da Indolência… Dispõe de criados que o servem e roubam. Zakhar, o principal deles, é um tremendo personagem, assim como todos os que circulam pelo romance.

O livro gerou uma expressão na Rússia: oblomovismo. Iliá Ilitch Oblómov representaria a velha Rússia czarista, com suas relações de trabalho e corrupção feudais. Os patrões são aristocratas inúteis, os servos são escravos. Já Andrei Stolz representaria o futuro e o progresso. Era uma estrutura social onde uns e outros estavam em decadência e se os grandes temas da humanidade são o amor, a morte e a existência ou não de Deus, creio que a decadência mereça o quarto lugar.

P.S. — Estou na página 490 de 736.

Cena do filme Oblómov, de Nikita Mikhalkov

Cena do filme Oblómov, de Nikita Mikhalkov

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Requiem: uma alucinação”, de Antonio Tabucchi

Requiem TabucchiNão hesito em chamar este Requiem: Uma Alucinação de obra-prima. Vamos manter a grafia original da palavra “requiem” sem acento porque o livro foi escrito diretamente em português de Portugal pelo italiano Tabucchi. Antonio Tabucchi (Vecchiano, 24/09/1943 – Lisboa, 25/03/2012) foi o italiano mais português de que tenho notícia. Chegou a se naturalizar. Ele era professor, escritor e tradutor de Fernando Pessoa. Amava o país. Ele escreveu vários excelentes pequenos livros e sua grande obra, como escreveu Simenon sobre si mesmo, foi o mosaico formado por estes pequenos romances. Todos são excelentes, mas por favor, este Requiem é um exagero.

Requiem: Uma Alucinação foi o único livro que Tabucchi escreveu diretamente em português. A obra é uma homenagem a Lisboa, a Portugal, a Fernando Pessoa e até a Saramago — vide os diálogos sem pontuação. Também se come muito bem neste livro. Lisboa, como se sabe… Bem, escrevo próximo do horário do almoço e é melhor deixar de lado aquela maravilhosa gastronomia. O livro é literalmente um sonho. No calor do verão português, o personagem principal deita, dorme e sonha. São 12h que começam em um encontro que não acontece. Este seria, supõe-se, com Fernando Pessoa, chamado de “O Convidado”. Calma, gente, o  encontro acontecerá ao final do romance.

Enquanto isso, veremos o personagem que sonha deambulando por Lisboa. Ele encontrará amigos quase todos mortos, andará de táxi, terá uma linda cena numa pensão onde descansará, entrará no Museu de Arte Antiga onde encontrará um Pintor Copiador de Bosch, conversará e suará muito no escaldante calor. É tudo muito verossímil, contado em tom de conversa ao pé do ouvido, mas é a realidade de uma alucinação. Em Requiem, é natural acertar as contas afetivas com os mortos. Pouco a pouco, o vaudeville vai diminuindo seu ritmo e tornando-se melancólico. Uma obra-prima.

Recomendo fortemente. A edição é da extinta Cosac; isto é, acho que só pode ser encontrada em sebos.

 (Livro comprado na Ladeira Livros).

Antonio Tabucchi (1943-2012)

Antonio Tabucchi (1943-2012)

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O Torcicologologista, Excelência, de Gonçalo M. Tavares

TORCICOLOGOLOGISTA-280Duas pessoas, ou excelências, como prefere Gonçalo M. Tavares, conversam sem parar sobre os mais variados e, às vezes, disparatados assuntos. Não há descrições, introduções, “palavras do autor”, nada disso. O que há são diálogos cerrados, como uma peça de teatro onde dois indivíduos (ou travessões) falam sem parar. São muitos capítulos, todos eles com títulos que parecem ter sido buscados nos romances ingleses do século XVIII. Dito assim, parece confuso, mas não é. O Torcicologologista, Excelência é um livro fluido em que a lógica é subvertida ou seguida de forma tão rigorosa que acaba em absurdo. Os assuntos são os mais variados. O livro inicia tratando de revoluções, e vai para qualquer lado, como a dança, a preguiça, o corpo, as ideias — há uma guilhotina que corta ideias tolas — , a moda, a tradição, a covardia, a coragem e a linguagem, a linguagem, a linguagem. É um livro cheio de filosofia e ironia, onde as pequenas e grandes questões individuais e coletivas têm o mesmo tamanho.

O Torcicologologista, Excelência mostra um escritor único, desses que nos provam que nem tudo ainda foi feito. Se as frases são claras, o todo é desconcertante e estranho. E com desvios. “Tudo o que é sério tem dois lados divertidos”, escreve Tavares. Desta forma, nada deixa de passar por sua máquina de experimentações que atenta moderada ou crassamente contra o sentido convencional das coisas.

Eu adorei o livro. Ele não apenas escancara uma superfetação de fantasias e possibilidades como aponta para um mundo impossível no Brasil literal e burro de hoje. Um mundo onde a linguagem nem sempre fala daquilo que deixa no papel.

Eu penso muito que a criação crítica sobre o contemporâneo é uma criação crítica sobre a linguagem, porque nas democracias grande parte das batalhas essenciais são linguísticas. E nós percebemos que a linguagem é uma máquina que pode funcionar de diferentes maneiras: uma máquina por vezes irônica, por vezes de manipulação, por vezes uma máquina de cercar, muitas vezes uma máquina de tentar explicar a realidade. Portanto a linguagem está sempre no centro da democracia. Felizmente, de alguma maneira, a arma foi substituída pelo verbo. E o que me parece interessante é que as pessoas deveriam ter uma espécie de manual de defesa da linguagem e não têm, um pouco como aprender uma arte marcial, aprender a estrutura da linguagem, a forma como ela funciona. E no Torcicologologista, os diálogos partem muito dessa ideia de que as frases não dizem apenas uma coisa, elas têm vários sentidos, podem ir por um caminho, ou pelo caminho oposto; que a linguagem pode ser sabotada, que a linguagem pode aparentar que está a falar de uma realidade mas está a falar de outra. Percebemos que a linguagem depende de quem a diz, pois mais importante que perceber a frase de alguém é perceber o que essa pessoa quer. De alguma maneira os diálogos andam muito à volta dessas ideias, pois o diálogo é uma maneira da pessoa dizer coisas que não sabia que sabia. É o outro, através de suas questões, de suas frases, que faz que eu diga algo novo para mim, portanto o diálogo não é um somatório de monólogos, é mesmo uma possibilidade de descobrir coisas diferentes. E nesse aspecto esses diálogos são claros herdeiros dos diálogos clássicos, de Platão, e daquela ideia socrática das perguntas até como uma espécie de tortura. São questões que de alguma maneira não têm resposta prévia e, portanto, provocam uma investigação individual. Nesse sentido O torcicologologista é um herdeiro desse mundo.

Gonçalo M. Tavares, talvez à espera de um torcicologologista

Gonçalo M. Tavares, talvez à espera de um torcicologologista

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Nosso Capitão, de Sadi Schwerdt

20170907-1-sadi-capa-706x1024Eu nasci em 1957 e acompanho futebol diariamente desde 1966, quando a Copa da Inglaterra me fisgou. Por outro lado, um núcleo familiar 100% colorado me trouxe para o Inter. Então, por ter vivido os fatos como expectador e torcedor, conheço boa parte daquilo que é descrito pelo lateral Sadi Schwerdt, o Sadi, neste livro franco e belamente escrito. Li feliz e muito rapidamente suas 222 páginas de texto simples e direto.

De certa forma, aos 75 anos, Sadi segue sendo o capitão do Inter. Sua visão ainda é a de identificar problemas e denunciá-los, mas também guarda a postura de proteger colegas e a instituição. Os anos 60 foram terríveis para os colorados. O Campeonato Gaúcho era o máximo que Grêmio e Inter podiam aspirar e, entre 1956 e 1968, o Grêmio ganhou todos, à exceção de 1961. A derrota de 1962 foi especialmente ridícula. Sadi chegou depois disso à titularidade, para ser a estrela de um Inter que destinava recursos para a construção do Beira-Rio e deixava os investimentos em futebol para um plano secundário. Lembro que o time nem era tão ruim, mas os dirigentes do futebol faziam coisas, que vistas de hoje… Como é que deixaram Alcindo escapar para o Grêmio? Como é que Sérgio Lopes também foi parar no tricolor? E por que contrataram Foguinho para técnico em 68? (É o mesmo que o Grêmio contratar Falcão hoje para dirigir a equipe ou o Inter contratar Renato). José Alexandre Záchia era tão perdido quanto seus filhos Pedro Paulo e Luiz Fernando, que afundaram novamente o Inter nos anos 90. Ou seja, os dirigentes da época deram enorme contribuição para o adversário.

Tais confusões ficam claras no livro de Sadi, mas jamais pensem que ele grita cada um dos fatos. Não, eles são citados elegante e calmamente pelo Capitão do time. É como se perdoasse. Menos tranquilas são as referências feitas ao ambiente de sacanagem e politicagem barata da Seleção Brasileira, onde ele se destacou sem ser capitão. Analisando suas atuações por lá — que, sei, foram sempre muito boas –, Sadi é mais explícito e explica o funcionamento dos grupos de cariocas e paulistas e as pressões.

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Quando cheguei ao futebol mesmo, em 1969, já entendendo escalações, um pouco de tática e a importância de cada um, Sadi já tinha iniciado a série de lesões que o impediram de ir à Copa de 70. Já se tornara um lateral mais comedido no ataque, mas mantinha a segurança defensiva. Lembro do meu desespero cada vez que Jorge Andrade era escalado em seu lugar. Lembro também dos gritos da torcida do Grêmio com a finalidade de perturbá-lo. Gritavam até o nome de sua esposa… E sei que só os grandes jogadores recebem tal tratamento. (Lembro também de vaiar Ronaldinho e outros grandes jogadores do Grêmio… Puro medo, né? Ninguém perde tempo e voz com as ruindades).

Como disse João Saldanha, nos anos 60, o Inter era um time modesto com um grande jogador. Ficou assim até 1968, quando começaram a aparecer Claudiomiro, Bráulio, Sérgio, Valdomiro, etc, e um novo período de glórias chegou.

Nosso Capitão dá um belo painel do clube e do Rio Grande daquela época sob a ditadura militar. Também traz fotos e a recordação especialíssima abaixo. Esta é a foto do álbum Gigante da Beira-Rio que dez entre dez crianças coloradas completaram, incluindo este que vos escreve. É óbvio que reconheci na hora.

Recomendo o livro, mas antes de terminar, digo que Sadi, quando entrou para a política, rejeitou a Arena. Escolheu a oposição. Isso diz muito de meu ídolo.

O lançamento de Nosso Capitão será dia 14 de Setembro, quinta-feira, no Restaurante Terra & Cor Gastronomia (Avenida Praia de Belas, 1400) com a presença de velhos ídolos colorados.

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Passado Perfeito, de Leonardo Padura

Padura Passado PerfeitoBêbado, logo após uma virada de ano bastante alcoolizada, o detetive Mario Conde é acordado por seu chefe, o Velho, com uma urgência: Rafael Morín, um executivo do Ministério da Indústria, homem que viaja pelo mundo negociando produtos da ilha, está desaparecido. Morín é um ex-colega de aula que ostenta a fama de ser rigorosamente honesto e competente. Um grande quadro, dos maiores. Conde chega a reclamar dos elogios unânimes que são feitos a ele. Tinha um passado perfeito. Para completar é casado com Tamara, espécie de símbolo sexual da escola, a mulher por quem todos eram apaixonados 17 anos antes. Já Mario, triste e desiludido, é a antítese de Rafael.

Não leio muitos livros policiais. Alguns amigos mais especializados na área aprovam com reservas a série de livros policiais de Padura que tem Conde com personagem principal. Faltariam o humor e as frases de efeito típicas do gênero, sobrariam sexo e cenas de Havana. Chego à conclusão de que, com efeito, não sou um grande admirador do gênero, pois achei que Passado Perfeito está muito acima da média que gênero. Gostei demais da cor do romance, da criação do ambiente e das pessoas que circulam tratando uns ao outro como latinos — queridos, afáveis e corruptos. Importante: Padura jamais deixa de fazer críticas à cidade e ao país. Parece ter menos medo de criticar a situação do que os escritores brasileiros, que desejam convites para feiras e eventos e evitam críticas aos políticos…

Li, em algumas outras críticas, certa má vontade com o fato de haver tanta gente esperta e viva em Havana. Também com o fato de Padura descrever a prostituição, a pobreza, a vida de pessoas que vão se ajudando, se amando e sobrevivendo bem — inclusive a do amigo Magro, que ficou paraplégico em razão de um tiro que levou na Guerra de Angola –, sem grandes ranzinzices. Mas estes são os nossos tempos, né?. Já eu, que estou aqui pela literatura mesmo

Recomendo.

Livro comprado na Bamboletras.

padura

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Correr com rinocerontes, de Cristiano Baldi

correr com rinocerontesDespretensão, sinceridade, texto curto e fluido. Era isso o que queria quando comecei a escrever resenhas de livros neste blog. A merda é que esta é a 243ª resenha que escrevo e hoje o Google me encontra fácil quando alguém quer saber de um livro que eu tenha lido nos últimos anos. Hoje, o desafio é fazer de conta que ninguém lê estas resenhas. Não é fácil fingir esquizofrenia. Pois se considerar que alguém pode balizar sua compra por mim, vou revisar e revisar o texto, inclusive retirando o que mais gosto, o estilo gonzo das resenhas.

Então começo dizendo que tive a impressão de que o livro de Cristiano Baldi, Correr com Rinocerontes, cresce muito à medida que avança, mas que isso talvez tenha mais a ver com a lentidão com que iniciei a leitura — estava bem atrapalhado pessoalmente — e com o tempo que finalmente pude dispor para ler a segunda metade.

O livro pode ser dividido em duas partes, antes e depois de um trágico acidente familiar que não vou contar. Na primeira parte, o narrador subitamente viaja de volta para Porto Alegre a fim de encontrar sua família. Algo tinha acontecido. De forma divertida, ele nos mostra que não é aquele bom-moço coisa querida tão presente nos discursos feicebuqueanos e tão ausente na atividade prática dos donos dos perfis. Ou seja, ele é franco ao expressar algumas vagas opiniões políticas e franco no prazer, desprazer e dor, assim como em narrar alguns descompromissos afetivos. Suas observações sobre Porto Alegre são lastimáveis e absolutamente cheias de razão.

Quando os motivos da viagem passam ao papel, o livro cresce muito ao mostrar a reação de cada familiar à tragédia. Cada um corre para um lado. Com personagens bem construídos, o tom é o do humor ácido, apesar dos acontecimentos narrados serem efetivamente estarrecedores. Na escolha da linguagem, creio que uma das maiores influências seja a do Salinger do Apanhador. Tal escolha impõe um narrador inteligente, suficientemente interessante, divertido e iconoclasta. É o caso. (Mas jamais pensem que a vinda para sul tenha algo da literatura de Noll, tá?).

Recomendo.

Cristiano Baldi: no livro ele é bem mais animado. (Foto roubada do Guia de Caxias do Sul)

Cristiano Baldi: no livro ele é bem mais animado. (Foto roubada do Guia de Caxias do Sul)

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De Amor e Trevas, de Amós Oz

De amor e trevas Amós OzLi este livro após enorme insistência do meu amigo de Fortaleza Heitor de Lima, o Rei do Inbox Literário, que só conheço das teclas. É claro que, após a grande propaganda, minha expectativa era muito elevada. Oz não negou fogo, pelo contrário. No início, achei que estava lendo um Dickens moderno, um escritor dedicado a contar uma autobiografia detalhada, uma história familiar que acabaria — isto não é spoiler, está na contracapa e o autor reafirma a cada momento o que acontecerá no final — com o suicídio da mãe de Oz. Os avós, os tios, suas vidas na Europa, a nova diáspora ocorrida antes e durante a 2ª Guerra Mundial, tudo é contado com riqueza de detalhes.

A prosa de Oz é tão viva e humana que o desespero explícito dos filmes de judeus de Hollywood é um item menor em relação à vida interior dos personagens. A tristeza, mesmo o suicídio da mãe, vem digna, sem exageros. O sofrimento é autenticamente judeu, contado sempre com um humor levemente auto-depreciativo. O livro é um sinfonia. Tem momentos de enorme pesar e outros hilariantes. Oz é um mestre. Humor, drama e fatos familiares de então e de agora estão misturados de tal forma que tudo me pareceu potencializado, muito sensível e vivo, mas sem jamais cair na pieguice de um Dickens.

O livro foca a relação de Oz com os pais e as famílias paterna e materna. Vista pelos olhos da criança, as decepções da mãe — uma mulher linda e brilhante do ponto de vista intelectual — e a figura do pai — um erudito árido e chato, espécie de fracassado dentro de uma família com meia dúzia de escritores de peso em Israel — são descritas em pinceladas incompletas, de uma forma onde o leitor compreende o todo por sua própria vivência. Como pano de fundo, está a formação do estado de Israel, fato que encanta o pai de Amós e é visto com indiferença pela mãe.

A autobiografia de Oz é interessante também porque sua vida é muito distinta do comum. Dois anos após a morte da mãe, com apenas 16 anos, Oz saiu de Jerusalém, abandonou a futura carreira de escritor que todos os Klausner — família do pai — previam e foi viver em um kibutz, largando de vez o pai para tornar-se um “um homem do campo”. Mesmo que Oz não fale muito mal do pai, fica claro o motivo pelo qual ele muda o seu sobrenome de Klausner para Oz.

As desajeitadas aventuras sexuais do adolescente também são contadas com especial cuidado e talento. As coisas dos meninos estão lá.

(Já comecei a ler um outro livro hoje, de um escritor gaúcho. Ele logo dá duas opiniões políticas gratuitas e faz uma mal disfarçada autopromoção. Acho melhor voltar a um escritor de virtuosismo arrebatador como Oz. Após mais de 600 páginas de prosa inteligente, bela e modesta, é triste voltar a nossa realidade. E que elegância Oz demonstra em suas considerações políticas sobre Israel!).

Mas Oz é filho de pai e mãe. Afinal, tornou-se o grande escritor que os Klausner prognosticavam e sua relação com a mãe é fundamental. Sua morte marcou as escolhas de Amós de uma forma decisiva. Se numa primeira fase a revolta fez com ele fugisse da literatura, o tempo encaixou os ensinamentos de uma família que se entregava à cultura com intensidade. Também é sugerido que a mãe virou suas opiniões políticas para a esquerda.

A elegância e o perfeito senso de estilo de Oz estão por todo lado. Aqui vou dizer, ali omitir.

O final, que não contarei, é de extrema simplicidade, é comovente, curto e exato. Oz escolhe um lamento, um apelo, um rogo inútil e impotente que torna complicada a leitura das últimas linhas com aquelas letras dançando enquanto a gente tenta se controlar.

De Amor e Trevas é grande literatura. Recomendo fortemente.

Livro comprado na Bamboletras.

Amós Oz

Amós Oz

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A Noite das Mulheres Cantoras, de Lídia Jorge

O volume da LeyaA Noite das Mulheres Cantoras

O volume da LeYa de A Noite das Mulheres Cantoras, de Lídia Jorge

Há poucas semanas, li com agradável surpresa o livrinho de contos de Lídia Jorge Praça de Londres. A excelente impressão que tive da escritora portuguesa ampliou-se nesta narrativa longa, o belo romance A Noite das Mulheres Cantoras (LeYa, 320 páginas). O livro inicia com o reencontro das mulheres que formavam um grupo musical dos anos 80, o Apocalipse. Durante o evento, surge João Lucena, que voa em direção a Solange Matos, narradora do romance. “Lembras de mim?”.

Toda a narrativa, contada em primeira pessoa pela letrista do grupo — a citada Solange — dedica-se a explicar e detalhar o significado deste reencontro, coisa que não faremos aqui. Além disso, mostra a trajetória do quinteto vocal lisboeta em busca de espaço no mundo pop português. O grupo tinha como projeto o estilo dançante de Donna Summers e aquilo que chamavam de “música para ver”, ou seja, mulheres que cantavam, dançavam e encantavam com suas coreografias e músicas. Para tanto, era necessária muita disciplina e a líder do grupo, Gisela Batista, chegava ao ponto de tentar impedir os namoros de suas pupilas e de trazer balanças para que elas se pesassem diariamente. Nada de engordar, meninas! Às vezes, havia clara revolta: “Música para ver, pintura para ouvir, comida para ler, roupa para cheiras, dança para roer…” — ironizou uma das cantoras –, mas o maior perigo vinha sempre silenciosamente e de lugares afastados das fofocas das moças e do controle de Gisela.

A narrativa de Lídia Jorge é estupenda do ponto de vista da criação de cada um dos clímax. Com pleno domínio de vários meios narrativos, a autora alterna trechos decididamente cronísticos com outros de grande densidade de significados. Os traumas gerados pela busca incessante da fama e dos holofotes, independentemente do preço, são graves e irreversíveis para as meninas do Apocalipse. Tal como nos livros de Jane Austen, uma série de detalhes de aparência fútil servem para mostrar um pesado pano de fundo social, em parte vindo continente africano.

A Noite das Mulheres Cantoras traz uma excelente construção de personagens, como as das cinco mulheres, a do coreógrafo João de Lucena e do estudante Murilo Cardoso — espécie de consciência da obra. Além da alternância de estilos, Lídia Jorge trabalha com esmero e bons resultados o fato de o presente estar sempre lá, lançando seu olhar perplexo sobre os anos 80. O movimento de fazer emergir fatos do passado para o presente raras vezes foi tão bem articulado.

Indico!

Lidia Jorge

Lídia Jorge

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Poemas, de Wisława Szymborska

A edição da Cia. das Letras

A edição da Cia. das Letras

Na semana passada, minutos após comprar este livro na Ladeira Livros, fui almoçar com meu amigo Norberto Flach no Tuim. Cheguei à mesa onde ele estava sentado e lembrei que tinha esquecido o celular. Estamos passando pela tortura de reformas em casa e é sempre bom estar com o aparelho por perto. Antes de voltar rapidamente ao Sul21 ali pertinho para pegá-lo, disse para o Norberto meio de brincadeira: “Fica lendo isso aqui que eu já volto”. Quando voltei, ele falou que parecia que a poetisa falava em seu ouvido. Boa observação. A sensação de profunda, inteligente e simpática empatia, além da beleza, talvez sejam mesmo as características mais fortes da grande Wisława Szymborska, Nobel de 1996, escritora vinda do mais poético dos países onde as consoantes mandam recados assustadores aos ignorantes como eu.

O personagem japonês de Paterson — no final do filme, lembram? —  diz que ler poesia traduzida é como tomar banho de capa de chuva, mas a única forma de tomar conhecimento com a maravilhosa obra da polonesa Szymborska é a tradução e eu achei lindos, verdadeiramente inesquecíveis, os poemas traduzidos por Regina Przybycien. Não sei o quanto perdi usando capa de chuva, mas o que sobrou foi muito.

Alguns chamam Szymborska de o Mozart da Poesia e creio que a comparação não é nada absurda. A irresistível de combinação de ousadia e leveza é Mozart, mas a de sinceridade e intimidade são Tchékhov. Quando a comparo alguém a Tchékhov, estou fazendo comparações com o escritor que mais valorizo, com aquele que, como disse Konchalovsky, a gente fala quando escreve alguma coisa duvidosa. “O que você acharia disso, Anton?” e só prossegue após o consentimento do russo.

Em 60 anos de vida literária, Szymborska publicou apenas uns vinte livros curtos. Ela explica: “Escrevo os poemas à noite, mas releio-os à luz do dia, e nem todos sobrevivem”. Aprendam, meninos.

Szymborska tem humor de Drummond, boa filosofia, amor pelo humano, fluência, fabulação, ou seja, tudo o que gosto. É uma poesia coloquial, anti-sentimental e despojada de efeitos fáceis, de sofisticada simplicidade. Faz perguntas “inocentes”, terrivelmente inocentes. A clareza é absoluta. Fico imaginando o que são seus famosos artigos em revistas, onde dava mais vazão à veia humorística.

É difícil falar sobre um livro tão delicado e do qual se gostou tanto sem a indelicadeza da adjetivação. Talvez seja melhor dizer logo que — agora que o li e vou pegar outro — tenho vontade de morder o livro para seguir sentindo seu gosto.

Ah, os poemas dela, mesmo em português, estão por toda a internet. Então só vou deixar um com vocês. Um dos mais famosos. E super recomendo o livro.

Alguns gostam de poesia

Alguns —
ou seja nem todos.
Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.
Sem contar a escola onde é obrigatório
e os próprios poetas
seriam talvez uns dois em mil.

Gostam —
mas também se gosta de canja de galinha,
gosta-se de galanteios e da cor azul,
gosta-se de um xale velho,
gosta-se de fazer o que se tem vontade
gosta-se de afagar um cão.

De poesia —
mas o que é isso, poesia.
Muita resposta vaga
já foi dada a essa pergunta.
Pois eu não sei e não sei e me agarro a isso
como a uma tábua de salvação.

(Livro comprado na Ladeira Livros).

Wisława Szymborska (1923-2012)

Wisława Szymborska (1923-2012)

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O Ruído do Tempo, de Julian Barnes

O Ruído do Tempo Julian BarnesO Ruído do Tempo usa o enorme drama que foi a vida de Dmitri Shostakovich como material ficcional. É um livro dividido em três seções maiores que contêm, cada uma delas, capítulos curtos e fora de ordem cronológica, muitas vezes de apenas um parágrafo. Tais capítulos vão adicionando informações curiosas ou estarrecedoras sobre o compositor, tudo com bastante invenção, mas sobre um esqueleto rigorosamente biográfico, verdadeiro.  As três seções mostram os três traumáticos encontros de Shosta com o poder, em 1936, em 1948 e em 1960. Todos em anos bissextos, todos separados por 12 anos. A ideia é boa, mas…

O livro é pouco sofisticado, extraordinariamente conservador e chega a ser “matado” em vários trechos, não fazendo jus às nem à arte de Shostakovich, nem a seus dramas. As críticas ao regime soviético são naturais e inteiramente razoáveis, não fosse a profusão de clichês bobos ao estilo da CIA. O pior é que a ficção de Barnes não faz a biografia ou os dramas vividos pelo compositor avançarem em qualquer direção.

FaulknerPara quem, como eu, acredita que só a ficção arranha a realidade, o livro foi uma decepção. Espécie de jornalista gonzo imaginário, Barnes vai ficando cada vez mais afastado da obra de seu biografado, perdido em detalhes triviais. Não há complexidade ou verdadeira tensão, apenas contradições — verdadeiras — e medo mal descrito. O livro de Barnes toma um baile das poucas páginas dedicadas a Shosta no clássico de Alex Ross O resto é ruído, de quem parece ter roubado o título.

O livro é, em parte, um exercício de nostalgia da Guerra Fria. Coisa muito inglesa para descrever um soviético. Seus melhores trechos são aqueles que examinam a natureza da integridade pessoal. A ótima arte pode nos resgatar do “ruído do tempo”, superar tudo e, portanto, desculpar o comportamento ruim? E era possível comporta-se melhor? Acho que faltou a Barnes alguma vivência sob regimes ditatoriais. Sua descrições são de um tranquilo inglês que examina à distância um Shostakovich que é muito mais herói — e concordamos nisso, Mr. Barnes — do que Mephisto.

(Livro comprado na Ladeira Livros).

Julian Barnes

Julian Barnes

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A Noiva Jovem, de Alessandro Baricco

A Noiva Jovem Baricco(Sem spoilers). De escrita primorosa e de grande originalidade, A Noiva Jovem deixou-me verdadeiramente embasbacado. Em entrevista que li agora, concedida ao Estado de S. Paulo, Alessandro Baricco afirma que se propôs a escrever um livro com 20% de realismo mágico, 20% de Lampedusa e 60% dele mesmo. Deu razão a este leitor que, sem entender de onde vinha aquele argumento, pensou em uma mistura de García Márquez e Lampedusa. Uma mistura altamente poética e potente. Só que ainda predominam, é claro, os 60 % de Baricco, com as constantes e curiosas intervenções do escritor no texto, que fala até num notebook perdido e numa namorada que critica a obra que está sendo escrita, além das perfeitas mudanças de foco narrativo. Também há Baricco na criação de um clima estranho, que faz com que o livro grude em nossas mãos, como já me acontecera na leitura de Mr. Gwyn.

Tudo acontece em um ambiente familiar muito curioso. Não há nomes, mas um Pai, uma Mãe, um Filho, uma Filha, um Tio. E a Jovem Noiva. O único que ganha nome é Modesto, o gentil mordomo que tudo vigia para que a felicidade seja um estado permanente. As relações são delicadamente insanas, as manias e medos são muitos.

O Filho conhece a Jovem Noiva ainda adolescente e ela é prometida a ele. Conheceram-se na Europa, mas a família dela, falida, foi tentar a sorte na Argentina. Quando completa 18 anos, a Jovem Noiva atravessa o oceano de volta para chegar a uma paisagem que parece a Sicília de Lampedusa. Vem para juntar-se ao Filho. Ela entra numa casa que parece cheia de personagens de García Márquez, todos eles docemente malucos, dando respostas e tomando atitudes entre o desconcertante e o poético, mas de um realismo mágico altamente racional.

Mas o Filho não está lá e demora. Entre os mil fatos, novidades e experiências que a casa oferece, o far niente começa trabalhar. Passam-se meses e a tensão cresce. E o Filho não chega. Isto atormenta e faz amadurecer a Jovem Noiva. Ela mantém a certeza de que ele virá.

Parabéns para a excelente tradutora Joana Angélica d`Avila Melo. Não deve ser fácil traduzir um livro que muda tantas vezes seu foco narrativo.

Baricco é um escritor altamente sofisticado que também faz crítica musical de música erudita, é pianista e apresenta um programa na televisão italiana. Seria bom iniciar correntes de orações para que tivéssemos alguém tão talentoso por aqui.

Recomendo fortemente!

Livro comprado na Bamboletras.

Baricco também faz critica musical. De eruditos, claro.

Baricco também faz critica musical. De eruditos, claro.

 

 

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Não há amanhã, de Gustavo Melo Czekster

Gustavo Melo Czekster não há amanhãQuando recebi este livro de Gustavo Melo Czekster, sorri imediatamente. Conheço o Gustavo. Ele é um cara simpático de 1,90m e tem o sorriso mais fácil do mundo. Invejo-o. Trata-se de um craque das fotos, algo que nem sempre é fácil para este que vos escreve. Porém, se eu tirasse uma foto com o autor de Não há amanhã, sei que sorriria de forma muito convincente. Inevitável. Parece um sujeito muito alegre. Mas… Ao ler os 30 contos de Não há amanhã, ficam claras as sombras de envolvem esta criatura que, de forma concomitante ao lançamento do livro, mudou sua foto de perfil no Facebook, antes sorridente, por uma muito séria (abaixo). Não vou especular.

Sempre que recebo um livro de um amigo, fico na dúvida se devo ler ou não. Porque é chato criticar pessoas que cruzam com a gente. Tenho graves problemas nesta área. Já dei palestras a respeito do tema de ser crítico em nossa província. Na palestra, contei sobre a Ospa, sobre alguns escritores que passaram a me negar cumprimento, sobre ameaçadores e-mails, sobre músicos que dizem que eu não entendo nada de nada, sobre pequenos linchamentos patrocinados por autores e músicos no Facebook que costumam dar o link de meu texto e perguntar para seus amigos: “Vocês concordam com este crápula?”. Quem está de fora, ri, enquanto eu procuro ignorar, o que é difícil às vezes.

Abri Não há amanhã, segundo livro de Gustavo — não li o primeiro — e, após o susto de ler seu prefácio histericamente laudatório — autoria de um sujeito que fala em “estonteante linha final” –, fiquei surpreso por sua alta qualidade. Estou com sorte porque, nos últimos seis meses, li três excelentes livros escritos por vizinhos: o de Nelson Rego, o de Julia Dantas, o de Iuri Müller e este. Ufa, vou passar mais um tempo sem problemas, já que desisti de escrever sobre a música de Porto Alegre.

Não há amanhã é um livro de 160 páginas e 30 contos que variam entre o curtíssimo — praticamente crônicas ficcionais — e o longo. Mas a característica principal é que, mesmo que autor transite bastante na área do fantástico, suas criações não são nada leves, ligeiras ou meramente mágicas. São histórias de impacto que não prescindem de um pós-prandial reflexivo. Eu não conseguia partir para a próximo conto sem parar para pensar sobre o que tinha lido. Algumas histórias são dignamente grandiosas, outras são irônicas, mas todas elas perturbam através de elementos representativos de fatos exteriores que amplificam o texto.

Gostei muito do insolucionável Problemas de Comunicação, do ofegante A Passionalidade dos Crimes, do curioso e igualmente ofegante Neve em Votkinsk, dos conselhos de Os que se arremessam, das multiplicações de Os problemas de ser Cláudia (que merecia perder seus 3 últimos parágrafos *), do mímico Mas não falam, das elegantes equações de A revolução como um problema matemático, da bela cena de O silêncio e do parque de Um outro sentido. Mas nada do restante é esquecível.

Os contos guardam fartas doses de unidade entre si e, repito, não são de modo algum literatura descartável, de entretenimento. Czekster consegue fabular e ser autenticamente filosófico, por todo o tempo. É literatura séria, até um pouco dura e sombria, onde o fantástico e a morte estão muito presentes.

Recomendo fortemente.

* Explico: como um devoto da ficção, não gosto quando entra certo “tom de tese”. Não estraga o conto, mas ele poderia ser perfeito, não?

Gustavo Melo Czekster

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O Tribunal da Quinta-feira, de Michel Laub

O Tribunal da Quinta-Feira

É preciso ser muito estúpido para transformar um registro teatral e hiperbólico entre duas pessoas conversando em privado numa declaração literal e pública que revela intenções e caráter.

Michel Laub, O Tribunal de Quinta-feira

Sem spoilers, tá? O publicitário José Victor, de 43 anos, está se separando após um casamento de 4 anos com Teca. Ele sai de casa deixando o computador e, poucos dias depois, ela descobre uma série de e-mails trocados entre seu ex e Walter, um velho amigo gay de Victor. Eles têm um tratamento bastante franco, jocoso e “incorreto” nos e-mails, mas suficientemente irritante e informativo para Teca, que bota os melhores lances no maior dos ventiladores, as redes sociais. (Não pensem que os amigos tinham um caso, nada disso, Laub não se utiliza de lugares-comuns). E começa o linchamento típico da Internet, cujas consequências são tratadas por Laub. Este é um resumo que ignora boa parte da complexidade do romance, que também envolve AIDS, relações profissionais, culpa e hipocrisia.

O livro é ótimo, mas há algo que me incomodou. Laub é um narrador poderoso e, em capítulos curtos, vai montando uma complexa teia que nos traz um contexto bem real da situação. Seu ritmo é lento e inexorável. A cada capítulo, vamos sabendo mais e mais, mas não gostei das pequenas intervenções ensaísticas inseridas na narrativa e nem da aceleração final da mesma. Me pareceu que Laub, controlando magnificamente a história, decidiu deixá-la sensacional nos últimos capítulos. Ou seja, já tinha ganho a partida quando decidiu massacrar. Acabou tomando um contra-ataque que resultou num inútil gol do adversário e manchou o que estava perfeito. Tipo 7 x 1.

O tribunal do título refere-se principalmente à explicação que ele terá de dar que à pessoa que realmente feriu durante o episódio, mas tal fórum pode ser expandido para o descontrole, suscetibilidades, desinformação e distorção das redes sociais.

Excelente livro. Recomendo.

michel_laub

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Serena, de Ian McEwan

Serena McEwanResenha sem spoilers, tá? Serena conta uma história que se passa nos anos 70, em Londres e Brighton, misturando amor, literatura, costumes e política (Guerra Fria). Serena Frome é uma jovem que vai trabalhar no MI5 (Military Intelligence, Section 5), serviço de inteligência do governo inglês. Ela estudou matemática em Cambridge, mas gosta mesmo é de literatura ligeira. No início do livro, diz preferir Jacqueline Susann a Jane Austen… e, sim, ela se torna mais razoável depois. Em razão de seu amor pela literatura e por ser de direita (além de linda), ela é convidada a participar de um projeto bem comum na época: com a finalidade de combater as ideias comunistas, o MI5 passa a financiar autores talentosos que escrevam a favor do capitalismo. Normal. Até Orwell participou de um programa desses. Após alguns casos amorosos, inclusive com o homem que de certa forma a colocou no MI5, Serena envolve-se com um escritor que recrutou, um certo Tom Haley. A partir deste ponto, paro de contar a trama.

Dito assim rapidamente, parece ridículo. Não é. McEwan é um baita escritor, realiza sempre minuciosas pesquisas e consegue manter esta trama vintage — meio espionagem, meio farsa, meio romanção — bem escondida sob uma prosa sempre interessante. Só que o livro não chega a ser bom. O final que o leitor elabora em sua cabeça, imaginando as cenas que virão antes do desenlace sugerido, é menos elegante do que aquilo que é descrito por McEwan. E a gente fica pensando que ele não explicita a história porque ela não é tão boa. Fica uma sensação estranha e insatisfatória.

McEwan nasceu em 1948, eu em 57. Muitas das referências feitas por ele àquele período de minha juventude foram-me absolutamente deliciosas. Talvez eu e ele tenhamos sucumbido nostálgica e apaixonadamente à música popular e aos problemas em voga na época. As descrições detalhadas de como Serena se veste ou pensa são ótimas e a certa ingenuidade sempre presente dão um perfume especial à esta narrativa longa (382 páginas).

Mas, vocês sabem, um mau McEwan é superior do que o melhor livro de muito autor consagrado e Serena é exatamente isso, um equívoco de um excelente autor. Afinal, sempre se espera deste cara que diz vencer seu bloqueio criativo lavando louça.

Ian-McEwan-escritor

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A Descoberta da Currywurst, de Uwe Timm

A descoberta da currywurstLi este livro durante uma longa viagem pela Europa. Queria algo leve e achei que o best seller A Descoberta da Currywurst combinaria bem a já gasta mas agradável fórmula de “gastronomia e história”. E, com efeito, apesar de quase tudo se passar logo após o final da Segunda Guerra Mundial, trata-se de um livro leve. Uwe Timm simula uma longa entrevista com Lena Brücker, a possível inventora da iguaria. Porém, antes de dizer qual é a origem da currywurst, Lena, enquanto tricota num asilo de velhos, faz questão de contar sua aventura de final de guerra. E o que ela conta por quase todo o livro é seu caso amoroso com o jovem soldado alemão Hermann Bremer. Ele fora designado para uma unidade de caça de blindados, mas, nos dias finais da guerra, Lena o convence a tornar-se um desertor, arrastando-o primeiro para um abrigo antiaéreo e depois para seu apartamento. Bremer fica escondido ali, tentando adequar-se a mil cuidados para não ser ouvido pelos moradores do prédio. Já Lena sai bastante de casa. Trabalha numa cantina e é lá que, não obstante a escassez, rouba alimentos para si mesma e Bremer. Também consegue enganar Bremer, dizendo que a guerra não acabou. Ela mente que não há jornais e confirma que a Alemanha juntou-se aos aliados para atacar a União Soviética. Ou seja, a guerra segue e ele ainda seria um desertor. É interessante a relação entre ambos. O fato é que ela o quer e ponto final. Transam todos os dias e vão engodando. Então, o livro cai em outro clichê, saindo de “história e gastronomia” para o “romance de cativeiro”. Só nas páginas finais sabemos da origem da currywurst. Até curti o livro, queria saber seu final, não obstante o amontoado de clichês. Timm escreve muito bem, a tradução é boa, só que a história é um amontoado de coisas há muito tempo vistas ou lidas.

Uwe Timm: desta vez passa, tá?

Uwe Timm: desta vez passa, tá?

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Ruína y leveza, de Julia Dantas

ruina-350Gosto de resenhas curtas, mas acho que esta será pouca coisa maior do que o habitual.

Muitos de meus amigos elogiavam Ruína y leveza e faziam cara de espanto quando eu dizia que ainda não tinha lido. De certa forma, eles me enganaram. Não quanto à qualidade do livro, que é efetivamente excelente, mas quanto ao tema. Esperava uma espécie de “romance de viagem” pela América Latina, com descrições das minas de Potosí, de Nazca, do Salar de Uyuni, de Machu Picchu, misturadas com a vida sentimental da narradora, algo assim. Eles me falavam do livro e eu imaginava algo de inspiração goethiana ou hessiana, solitária e paisagística, sempre com a viagem como centro, abrindo espaço para uma viagem interior de auto-conhecimento. E pensava que talvez não fosse o livro mais adequado a este leitor… Só que Dantas me ganhou facilmente.

Porque é o inverso. A crise pessoal da personagem — fim de um caso amoroso, súbita demissão de seu trabalho como publicitária — é que a leva a viajar e as tais transformações e recomeço ocorrem como resultado dos contatos de Sara com figuras como a do argentino Lucho e a da peruana Carmem e não através de lições ou grandes frases forçadas. Ou seja, tudo parte da simples interação. Ponto para Dantas. Ou seja, não é um livro de um narrador solitário, apesar de Sara buscar ficar sozinha. Sim, escrevo uma resenha mais dizendo o que Ruína y leveza não é, mas a culpa é de quem me fez ler o livro…

E o que é o livro? É um livro sobre um processo de retomada da vida, de um recomeço. Da crise à retomada. Ele gravita em torno das experiências passadas e da viagem de Sara, uma narradora de voz muito sedutora e envolvente. Em segundo lugar, é um texto bem escrito, fluente, inteligente e realista. Os capítulos alternam entre as experiências da viagem e os motivos a levaram até ali. Então, boa parte do livro é urbana e porto-alegrense. Sara está deprimida, mas sempre permanece interessante e até divertida — o livro contém boas piadas e histórias. Não se trata de uma pessoa perdida e desesperada “que se encontrou”, pelamor.

A frase que parece dar título ao livro é do duro Lucho, que afirma: “Turistas voltam para casa com malas mais pesadas. Viajantes voltam com mais leveza”. Gosto especialmente da palavra leveza e a uso com cuidado. Na acepção que prefiro, ela não é confundida com simplicidade ou falta de profundidade, mas com delicadeza e viço. Mozart, para mim, seria uma mistura de leveza e ousadia. Julia Dantas a utiliza bem.

Recomendo a leitura.

Julia Dantas em foto sem crédito encontrada na rede

Julia Dantas em bonita foto sem crédito encontrada na rede

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Luz em Nevoeiro, de Iuri Müller

luz-em-nevoeiro-iuri-mullerVolume de estreia de Iuri Müller na área da ficção, Luz em Nevoeiro traz doze contos, alguns já conhecidos meus da internet. Mas nada como lê-los em grupo. Neste caso, a desvantagem da leitura esparsa foi a de dificultar a distinção da boa voz de Iuri e de prejudicar a observação da unidade e da coerência do trabalho do autor. Em livro, tudo ficou mais claro. Os contos são escritos em ritmo decididamente adágio, tendo por base, quase via de regra, as ações dos personagens. Há também há uma peculiar integração entre eles e os diversos ambientes. Por ambiente, entenda-se as ruas e as cidades. A coisa acontece de tal maneira que é impossível imaginar o belíssimo e original Andava a te buscar fora de Montevidéu ou o ótimo Avenida Salgado Filho fora da conhecida e infernal rua de Porto Alegre. As histórias vêm grudadas às características específicas de cada habitat.

(Intervenção gonzo: li o livro durante uma viagem à Europa na qual mudei 4 vezes de cenário. Era curioso receber a enorme carga de informações da cada nova cidade onde me hospedava, enquanto lia um livro tão ligado a outras cidades também conhecidas de mim. Caminhava por Berlim, Praga, Amsterdam e Londres, vagando literariamente por Montevidéu, Buenos Aires, Porto Alegre, Santa Maria, Lisboa…)

A atmosfera ficcional de Luz em Nevoeiro é cuidadosamente rarefeita. Os contos não dizem tudo, deixando bom espaço para a imaginação do leitor e para a poesia. Iuri Müller nos joga detalhes sem ser exageradamente explícito (ou explicadinho), criando lentamente boas histórias de conflitos contra a situação política, a pobreza, a falta de perspectivas. Papéis Molhados, Edifício Paris e Acevedo, poeta são bons exemplos de sua arte. Os personagens são lenta e maravilhosamente bem construídos. E costumam tomar atitudes desconcertantes.

Além dos contos citados, gostei muito de O Estado das Coisas. Importante salientar: citei seis, mas a outra meia dúzia não é nada esquecível. Recomendo a leitura.

P.S. — Iuri Müller já tinha publicado anteriormente a reportagem Estilhaços de Rodolfo Walsh, comentado aqui no blog.

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O Céu de Lima, de Juan Gómez Bárcena

o-ceu-de-lima-juan-gomez-barcenaJosé Galvéz e Carlos Rodríguez são dois jovens ricos que, com o futuro garantido, escolhem viver de maneira leve e superficial. São daquele tipo de estudantes universitários que raramente frequentam as aulas. Amam a literatura, sobretudo poesia, apreciando especialmente o poeta espanhol Juan Ramón Jiménez. Querem ler seu novo livro, mas não o encontram na provinciana Lima da primeira década do século XX. E resolvem pedir o livro diretamente ao autor. Para que dê certo, fazem com que uma mulher o faça, criando assim a personagem Georgina Hübner – uma moça apaixonada pela obra de Juan Ramón. É ela quem lhe escreve uma doce e inteligente carta solicitando o livro, preparada pela bela e feminina caligrafia de Carlos. Ambos ficam loucos de felicidade quando a edição chega, acompanhada de uma resposta. E começa uma longa correspondência que forma um romance, tanto literário quanto amoroso.

É curioso. A narrativa é inspirada em uma história real. Sim, o grande Juan Ramón Jimenez foi iludido por dois dândis limeños. A partir desta uma introdução de comédia, Bárcena constrói minuciosamente a relação entre José e Carlos, além da deles com seus aconselhadores. Mostra-nos como se envolvem cada vez mais na farsa. Também a elite de Lima e suas relações sociais com os empregados e serviçais é retratada com particular exatidão. O contexto histórico é rico e esclarecedor, auxiliando e tomando boa parte da narrativa.

O livro é dividido em quatro capítulos: I- Uma Comédia; II- Uma História de Amor; III- Uma Tragédia e IV- Um Poema. Neles, lemos algumas cartas de Georgina, que acaba se tornando cada vez mais real, além de alguns trechos das cartas que o escritor Juan Ramón Jiménez lhe envia. Há sutil e inteligente metalinguagem. Os dois farsantes acabam discordando muitas vezes. Buscam conselhos de um homem que trabalha no centro da cidade redigindo cartas de amor. Carlos não deseja aderir às sugestões. Depois, outros amigos acabem se envolvendo, o que leva a dupla a um quase rompimento. A coisa fica séria e eles apenas voltam a se encontrar quando…

O Céu de Lima é excelente e foi uma grande surpresa. Comprei-o por indicação do amigo Iuri Müller e só porque tinha algum dinheiro sobrando no bolso, coisa rara. Valeu muito a pena. Recomendo!

Juan Gómez Bárcena

Juan Gómez Bárcena

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A Natureza Intensa, de Nelson Rego

a-natureza-intensa-nelson-regoNão sei quais são as principais referências literárias de Nelson Rego, mas não devo errar muito se falar em Bataille, Sade, Genet, Gombrowicz e Gide, além de algo mais político. Porém, este livro não segue nenhum modelo utilizado pelos autores citados, apenas fazendo com que lembremos deles. Em A Natureza Intensa, Rego faz uma curiosa literatura hedonista, onde há belas e glamurosas mulheres em posições de poder. Elas administram suas empresas a partir de fundamentos éticos muito pouco praticados, que incluem não somente a solidariedade como o sexo e a beleza.

O volume abre com o conto Garota Espiralada, onde uma modelo posa nua para um grupo de artistas. Só que estes parecem um grupo de voyeurs mais interessados no corpo da menina do que em seus trabalhos. O trabalho parece pretexto para a contemplação.

Farsantes Sinceras conta uma viagem onde duas mulheres circulam por uma Itália cheia de tentações e mistérios. Aqui, somos apresentados a algumas personagens da narrativa que fecha o livro.

Sim, o melhor é o conto final (ou novela, pois tem 75 páginas). A natureza intensa brota por todo lado trata de um homem maravilhosamente perdido na casa da dona de uma grife que retira da pobreza meninas para trabalharem como modelos. Vitória dá-lhes tudo: educação, roupas, segurança, beleza… Dá-lhes o mundo. E elas tornam-se “queridas, ousadas, nada submissas, valentes, justiceiras, taradinhas, narcisistas, perspicazes e profundas, um pouco fúteis, criativas, inteligentes e estudiosas e aplicadas em suas responsabilidades, cheias de compaixão e amor apaixonado, exibicionistas, ecológicas, solidárias, com espírito de equipe, independentes, vaidosas, uns amores, tudo de bom”.

Rego não faz pornô soft, faz boa literatura com um belo trabalho de linguagem, que lembra os autores citados na abertura desta resenha. O que é também singular no mundo de Nelson Rego é que tudo isso é temperado por posições contra o establishment. Isto é, não estamos nunca no terreno do conformismo. Os planos das poderosas mulheres incluem investimentos nos promissores editores gays de Londres que sonham em abrir uma sucursal antirreligiosa em Jerusalém e outra antirracista no Texas. Elas também pretendem abrir linhas de crédito para quintais quilombolas dedicados à agricultura orgânica nas regiões mais latifundiárias e racistas do RS… Lembram que o deputado Luis Carlos Heinze disse que quilombolas, índios, gays e lésbicas era “tudo que não presta”? Pois bem, ele ficaria louco com os planos delas.

Sem dúvida, é um mundo é bem interessante e, infelizmente, distinto de nossa realidade. Talvez, como diz a poderosíssima Jewel, verdadeira suma-sacerdotisa, a intenção seja a de dar esperança para o mundo através do tesão.

Recomendo!

Nelson Rego | Foto: Palavraria

Nelson Rego | Foto: Palavraria

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