De Amor e Trevas, de Amós Oz

De amor e trevas Amós OzLi este livro após enorme insistência do meu amigo de Fortaleza Heitor de Lima, o Rei do Inbox Literário, que só conheço das teclas. É claro que, após a grande propaganda, minha expectativa era muito elevada. Oz não negou fogo, pelo contrário. No início, achei que estava lendo um Dickens moderno, um escritor dedicado a contar uma autobiografia detalhada, uma história familiar que acabaria — isto não é spoiler, está na contracapa e o autor reafirma a cada momento o que acontecerá no final — com o suicídio da mãe de Oz. Os avós, os tios, suas vidas na Europa, a nova diáspora ocorrida antes e durante a 2ª Guerra Mundial, tudo é contado com riqueza de detalhes.

A prosa de Oz é tão viva e humana que o desespero explícito dos filmes de judeus de Hollywood é um item menor em relação à vida interior dos personagens. A tristeza, mesmo o suicídio da mãe, vem digna, sem exageros. O sofrimento é autenticamente judeu, contado sempre com um humor levemente auto-depreciativo. O livro é um sinfonia. Tem momentos de enorme pesar e outros hilariantes. Oz é um mestre. Humor, drama e fatos familiares de então e de agora estão misturados de tal forma que tudo me pareceu potencializado, muito sensível e vivo, mas sem jamais cair na pieguice de um Dickens.

O livro foca a relação de Oz com os pais e as famílias paterna e materna. Vista pelos olhos da criança, as decepções da mãe — uma mulher linda e brilhante do ponto de vista intelectual — e a figura do pai — um erudito árido e chato, espécie de fracassado dentro de uma família com meia dúzia de escritores de peso em Israel — são descritas em pinceladas incompletas, de uma forma onde o leitor compreende o todo por sua própria vivência. Como pano de fundo, está a formação do estado de Israel, fato que encanta o pai de Amós e é visto com indiferença pela mãe.

A autobiografia de Oz é interessante também porque sua vida é muito distinta do comum. Dois anos após a morte da mãe, com apenas 16 anos, Oz saiu de Jerusalém, abandonou a futura carreira de escritor que todos os Klausner — família do pai — previam e foi viver em um kibutz, largando de vez o pai para tornar-se um “um homem do campo”. Mesmo que Oz não fale muito mal do pai, fica claro o motivo pelo qual ele muda o seu sobrenome de Klausner para Oz.

As desajeitadas aventuras sexuais do adolescente também são contadas com especial cuidado e talento. As coisas dos meninos estão lá.

(Já comecei a ler um outro livro hoje, de um escritor gaúcho. Ele logo dá duas opiniões políticas gratuitas e faz uma mal disfarçada autopromoção. Acho melhor voltar a um escritor de virtuosismo arrebatador como Oz. Após mais de 600 páginas de prosa inteligente, bela e modesta, é triste voltar a nossa realidade. E que elegância Oz demonstra em suas considerações políticas sobre Israel!).

Mas Oz é filho de pai e mãe. Afinal, tornou-se o grande escritor que os Klausner prognosticavam e sua relação com a mãe é fundamental. Sua morte marcou as escolhas de Amós de uma forma decisiva. Se numa primeira fase a revolta fez com ele fugisse da literatura, o tempo encaixou os ensinamentos de uma família que se entregava à cultura com intensidade. Também é sugerido que a mãe virou suas opiniões políticas para a esquerda.

A elegância e o perfeito senso de estilo de Oz estão por todo lado. Aqui vou dizer, ali omitir.

O final, que não contarei, é de extrema simplicidade, é comovente, curto e exato. Oz escolhe um lamento, um apelo, um rogo inútil e impotente que torna complicada a leitura das últimas linhas com aquelas letras dançando enquanto a gente tenta se controlar.

De Amor e Trevas é grande literatura. Recomendo fortemente.

Amós Oz

Amós Oz

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A Noite das Mulheres Cantoras, de Lídia Jorge

O volume da LeyaA Noite das Mulheres Cantoras

O volume da LeYa de A Noite das Mulheres Cantoras, de Lídia Jorge

Há poucas semanas, li com agradável surpresa o livrinho de contos de Lídia Jorge Praça de Londres. A excelente impressão que tive da escritora portuguesa ampliou-se nesta narrativa longa, o belo romance A Noite das Mulheres Cantoras (LeYa, 320 páginas). O livro inicia com o reencontro das mulheres que formavam um grupo musical dos anos 80, o Apocalipse. Durante o evento, surge João Lucena, que voa em direção a Solange Matos, narradora do romance. “Lembras de mim?”.

Toda a narrativa, contada em primeira pessoa pela letrista do grupo — a citada Solange — dedica-se a explicar e detalhar o significado deste reencontro, coisa que não faremos aqui. Além disso, mostra a trajetória do quinteto vocal lisboeta em busca de espaço no mundo pop português. O grupo tinha como projeto o estilo dançante de Donna Summers e aquilo que chamavam de “música para ver”, ou seja, mulheres que cantavam, dançavam e encantavam com suas coreografias e músicas. Para tanto, era necessária muita disciplina e a líder do grupo, Gisela Batista, chegava ao ponto de tentar impedir os namoros de suas pupilas e de trazer balanças para que elas se pesassem diariamente. Nada de engordar, meninas! Às vezes, havia clara revolta: “Música para ver, pintura para ouvir, comida para ler, roupa para cheiras, dança para roer…” — ironizou uma das cantoras –, mas o maior perigo vinha sempre silenciosamente e de lugares afastados das fofocas das moças e do controle de Gisela.

A narrativa de Lídia Jorge é estupenda do ponto de vista da criação de cada um dos clímax. Com pleno domínio de vários meios narrativos, a autora alterna trechos decididamente cronísticos com outros de grande densidade de significados. Os traumas gerados pela busca incessante da fama e dos holofotes, independentemente do preço, são graves e irreversíveis para as meninas do Apocalipse. Tal como nos livros de Jane Austen, uma série de detalhes de aparência fútil servem para mostrar um pesado pano de fundo social, em parte vindo continente africano.

A Noite das Mulheres Cantoras traz uma excelente construção de personagens, como as das cinco mulheres, a do coreógrafo João de Lucena e do estudante Murilo Cardoso — espécie de consciência da obra. Além da alternância de estilos, Lídia Jorge trabalha com esmero e bons resultados o fato de o presente estar sempre lá, lançando seu olhar perplexo sobre os anos 80. O movimento de fazer emergir fatos do passado para o presente raras vezes foi tão bem articulado.

Indico!

Lidia Jorge

Lídia Jorge

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Poemas, de Wisława Szymborska

A edição da Cia. das Letras

A edição da Cia. das Letras

Na semana passada, minutos após comprar este livro na Ladeira Livros, fui almoçar com meu amigo Norberto Flach no Tuim. Cheguei à mesa onde ele estava sentado e lembrei que tinha esquecido o celular. Estamos passando pela tortura de reformas em casa e é sempre bom estar com o aparelho por perto. Antes de voltar rapidamente ao Sul21 ali pertinho para pegá-lo, disse para o Norberto meio de brincadeira: “Fica lendo isso aqui que eu já volto”. Quando voltei, ele falou que parecia que a poetisa falava em seu ouvido. Boa observação. A sensação de profunda, inteligente e simpática empatia, além da beleza, talvez sejam mesmo as características mais fortes da grande Wisława Szymborska, Nobel de 1996, escritora vinda do mais poético dos países onde as consoantes mandam recados assustadores aos ignorantes como eu.

O personagem japonês de Paterson — no final do filme, lembram? —  diz que ler poesia traduzida é como tomar banho de capa de chuva, mas a única forma de tomar conhecimento com a maravilhosa obra da polonesa Szymborska é a tradução e eu achei lindos, verdadeiramente inesquecíveis, os poemas traduzidos por Regina Przybycien. Não sei o quanto perdi usando capa de chuva, mas o que sobrou foi muito.

Alguns chamam Szymborska de o Mozart da Poesia e creio que a comparação não é nada absurda. A irresistível de combinação de ousadia e leveza é Mozart, mas a de sinceridade e intimidade são Tchékhov. Quando a comparo alguém a Tchékhov, estou fazendo comparações com o escritor que mais valorizo, com aquele que, como disse Konchalovsky, a gente fala quando escreve alguma coisa duvidosa. “O que você acharia disso, Anton?” e só prossegue após o consentimento do russo.

Em 60 anos de vida literária, Szymborska publicou apenas uns vinte livros curtos. Ela explica: “Escrevo os poemas à noite, mas releio-os à luz do dia, e nem todos sobrevivem”. Aprendam, meninos.

Szymborska tem humor de Drummond, boa filosofia, amor pelo humano, fluência, fabulação, ou seja, tudo o que gosto. É uma poesia coloquial, anti-sentimental e despojada de efeitos fáceis, de sofisticada simplicidade. Faz perguntas “inocentes”, terrivelmente inocentes. A clareza é absoluta. Fico imaginando o que são seus famosos artigos em revistas, onde dava mais vazão à veia humorística.

É difícil falar sobre um livro tão delicado e do qual se gostou tanto sem a indelicadeza da adjetivação. Talvez seja melhor dizer logo que — agora que o li e vou pegar outro — tenho vontade de morder o livro para seguir sentindo seu gosto.

Ah, os poemas dela, mesmo em português, estão por toda a internet. Então só vou deixar um com vocês. Um dos mais famosos. E super recomendo o livro.

Alguns gostam de poesia

Alguns —
ou seja nem todos.
Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.
Sem contar a escola onde é obrigatório
e os próprios poetas
seriam talvez uns dois em mil.

Gostam —
mas também se gosta de canja de galinha,
gosta-se de galanteios e da cor azul,
gosta-se de um xale velho,
gosta-se de fazer o que se tem vontade
gosta-se de afagar um cão.

De poesia —
mas o que é isso, poesia.
Muita resposta vaga
já foi dada a essa pergunta.
Pois eu não sei e não sei e me agarro a isso
como a uma tábua de salvação.

Wisława Szymborska (1923-2012)

Wisława Szymborska (1923-2012)

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O Ruído do Tempo, de Julian Barnes

O Ruído do Tempo Julian BarnesO Ruído do Tempo usa o enorme drama que foi a vida de Dmitri Shostakovich como material ficcional. É um livro dividido em três seções maiores que contêm, cada uma delas, capítulos curtos e fora de ordem cronológica, muitas vezes de apenas um parágrafo. Tais capítulos vão adicionando informações curiosas ou estarrecedoras sobre o compositor, tudo com bastante invenção, mas sobre um esqueleto rigorosamente biográfico, verdadeiro.  As três seções mostram os três traumáticos encontros de Shosta com o poder, em 1936, em 1948 e em 1960. Todos em anos bissextos, todos separados por 12 anos. A ideia é boa, mas…

O livro é pouco sofisticado, extraordinariamente conservador e chega a ser “matado” em vários trechos, não fazendo jus às nem à arte de Shostakovich, nem a seus dramas. As críticas ao regime soviético são naturais e inteiramente razoáveis, não fosse a profusão de clichês bobos ao estilo da CIA. O pior é que a ficção de Barnes não faz a biografia ou os dramas vividos pelo compositor avançarem em qualquer direção.

FaulknerPara quem, como eu, acredita que só a ficção arranha a realidade, o livro foi uma decepção. Espécie de jornalista gonzo imaginário, Barnes vai ficando cada vez mais afastado da obra de seu biografado, perdido em detalhes triviais. Não há complexidade ou verdadeira tensão, apenas contradições — verdadeiras — e medo mal descrito. O livro de Barnes toma um baile das poucas páginas dedicadas a Shosta no clássico de Alex Ross O resto é ruído, de quem parece ter roubado o título.

O livro é, em parte, um exercício de nostalgia da Guerra Fria. Coisa muito inglesa para descrever um soviético. Seus melhores trechos são aqueles que examinam a natureza da integridade pessoal. A ótima arte pode nos resgatar do “ruído do tempo”, superar tudo e, portanto, desculpar o comportamento ruim? E era possível comporta-se melhor? Acho que faltou a Barnes alguma vivência sob regimes ditatoriais. Sua descrições são de um tranquilo inglês que examina à distância um Shostakovich que é muito mais herói — e concordamos nisso, Mr. Barnes — do que Mephisto.

(Livro comprado na Ladeira Livros).

Julian Barnes

Julian Barnes

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A Noiva Jovem, de Alessandro Baricco

A Noiva Jovem Baricco(Sem spoilers). De escrita primorosa e de grande originalidade, A Noiva Jovem deixou-me verdadeiramente embasbacado. Em entrevista que li agora, concedida ao Estado de S. Paulo, Alessandro Baricco afirma que se propôs a escrever um livro com 20% de realismo mágico, 20% de Lampedusa e 60% dele mesmo. Deu razão a este leitor que, sem entender de onde vinha aquele argumento, pensou em uma mistura de García Márquez e Lampedusa. Uma mistura altamente poética e potente. Só que ainda predominam, é claro, os 60 % de Baricco, com as constantes e curiosas intervenções do escritor no texto, que fala até num notebook perdido e numa namorada que critica a obra que está sendo escrita, além das perfeitas mudanças de foco narrativo. Também há Baricco na criação de um clima estranho, que faz com que o livro grude em nossas mãos, como já me acontecera na leitura de Mr. Gwyn.

Tudo acontece em um ambiente familiar muito curioso. Não há nomes, mas um Pai, uma Mãe, um Filho, uma Filha, um Tio. E a Jovem Noiva. O único que ganha nome é Modesto, o gentil mordomo que tudo vigia para que a felicidade seja um estado permanente. As relações são delicadamente insanas, as manias e medos são muitos.

O Filho conhece a Jovem Noiva ainda adolescente e ela é prometida a ele. Conheceram-se na Europa, mas a família dela, falida, foi tentar a sorte na Argentina. Quando completa 18 anos, a Jovem Noiva atravessa o oceano de volta para chegar a uma paisagem que parece a Sicília de Lampedusa. Vem para juntar-se ao Filho. Ela entra numa casa que parece cheia de personagens de García Márquez, todos eles docemente malucos, dando respostas e tomando atitudes entre o desconcertante e o poético, mas de um realismo mágico altamente racional.

Mas o Filho não está lá e demora. Entre os mil fatos, novidades e experiências que a casa oferece, o far niente começa trabalhar. Passam-se meses e a tensão cresce. E o Filho não chega. Isto atormenta e faz amadurecer a Jovem Noiva. Ela mantém a certeza de que ele virá.

Parabéns para a excelente tradutora Joana Angélica d`Avila Melo. Não deve ser fácil traduzir um livro que muda tantas vezes seu foco narrativo.

Baricco é um escritor altamente sofisticado que também faz crítica musical de música erudita, é pianista e apresenta um programa na televisão italiana. Seria bom iniciar correntes de orações para que tivéssemos alguém tão talentoso por aqui.

Recomendo fortemente!

Livro comprado na Bamboletras.

Baricco também faz critica musical. De eruditos, claro.

Baricco também faz critica musical. De eruditos, claro.

 

 

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Não há amanhã, de Gustavo Melo Czekster

Gustavo Melo Czekster não há amanhãQuando recebi este livro de Gustavo Melo Czekster, sorri imediatamente. Conheço o Gustavo. Ele é um cara simpático de 1,90m e tem o sorriso mais fácil do mundo. Invejo-o. Trata-se de um craque das fotos, algo que nem sempre é fácil para este que vos escreve. Porém, se eu tirasse uma foto com o autor de Não há amanhã, sei que sorriria de forma muito convincente. Inevitável. Parece um sujeito muito alegre. Mas… Ao ler os 30 contos de Não há amanhã, ficam claras as sombras de envolvem esta criatura que, de forma concomitante ao lançamento do livro, mudou sua foto de perfil no Facebook, antes sorridente, por uma muito séria (abaixo). Não vou especular.

Sempre que recebo um livro de um amigo, fico na dúvida se devo ler ou não. Porque é chato criticar pessoas que cruzam com a gente. Tenho graves problemas nesta área. Já dei palestras a respeito do tema de ser crítico em nossa província. Na palestra, contei sobre a Ospa, sobre alguns escritores que passaram a me negar cumprimento, sobre ameaçadores e-mails, sobre músicos que dizem que eu não entendo nada de nada, sobre pequenos linchamentos patrocinados por autores e músicos no Facebook que costumam dar o link de meu texto e perguntar para seus amigos: “Vocês concordam com este crápula?”. Quem está de fora, ri, enquanto eu procuro ignorar, o que é difícil às vezes.

Abri Não há amanhã, segundo livro de Gustavo — não li o primeiro — e, após o susto de ler seu prefácio histericamente laudatório — autoria de um sujeito que fala em “estonteante linha final” –, fiquei surpreso por sua alta qualidade. Estou com sorte porque, nos últimos seis meses, li três excelentes livros escritos por vizinhos: o de Nelson Rego, o de Julia Dantas, o de Iuri Müller e este. Ufa, vou passar mais um tempo sem problemas, já que desisti de escrever sobre a música de Porto Alegre.

Não há amanhã é um livro de 160 páginas e 30 contos que variam entre o curtíssimo — praticamente crônicas ficcionais — e o longo. Mas a característica principal é que, mesmo que autor transite bastante na área do fantástico, suas criações não são nada leves, ligeiras ou meramente mágicas. São histórias de impacto que não prescindem de um pós-prandial reflexivo. Eu não conseguia partir para a próximo conto sem parar para pensar sobre o que tinha lido. Algumas histórias são dignamente grandiosas, outras são irônicas, mas todas elas perturbam através de elementos representativos de fatos exteriores que amplificam o texto.

Gostei muito do insolucionável Problemas de Comunicação, do ofegante A Passionalidade dos Crimes, do curioso e igualmente ofegante Neve em Votkinsk, dos conselhos de Os que se arremessam, das multiplicações de Os problemas de ser Cláudia (que merecia perder seus 3 últimos parágrafos *), do mímico Mas não falam, das elegantes equações de A revolução como um problema matemático, da bela cena de O silêncio e do parque de Um outro sentido. Mas nada do restante é esquecível.

Os contos guardam fartas doses de unidade entre si e, repito, não são de modo algum literatura descartável, de entretenimento. Czekster consegue fabular e ser autenticamente filosófico, por todo o tempo. É literatura séria, até um pouco dura e sombria, onde o fantástico e a morte estão muito presentes.

Recomendo fortemente.

* Explico: como um devoto da ficção, não gosto quando entra certo “tom de tese”. Não estraga o conto, mas ele poderia ser perfeito, não?

Gustavo Melo Czekster

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O Tribunal da Quinta-feira, de Michel Laub

O Tribunal da Quinta-Feira

É preciso ser muito estúpido para transformar um registro teatral e hiperbólico entre duas pessoas conversando em privado numa declaração literal e pública que revela intenções e caráter.

Michel Laub, O Tribunal de Quinta-feira

Sem spoilers, tá? O publicitário José Victor, de 43 anos, está se separando após um casamento de 4 anos com Teca. Ele sai de casa deixando o computador e, poucos dias depois, ela descobre uma série de e-mails trocados entre seu ex e Walter, um velho amigo gay de Victor. Eles têm um tratamento bastante franco, jocoso e “incorreto” nos e-mails, mas suficientemente irritante e informativo para Teca, que bota os melhores lances no maior dos ventiladores, as redes sociais. (Não pensem que os amigos tinham um caso, nada disso, Laub não se utiliza de lugares-comuns). E começa o linchamento típico da Internet, cujas consequências são tratadas por Laub. Este é um resumo que ignora boa parte da complexidade do romance, que também envolve AIDS, relações profissionais, culpa e hipocrisia.

O livro é ótimo, mas há algo que me incomodou. Laub é um narrador poderoso e, em capítulos curtos, vai montando uma complexa teia que nos traz um contexto bem real da situação. Seu ritmo é lento e inexorável. A cada capítulo, vamos sabendo mais e mais, mas não gostei das pequenas intervenções ensaísticas inseridas na narrativa e nem da aceleração final da mesma. Me pareceu que Laub, controlando magnificamente a história, decidiu deixá-la sensacional nos últimos capítulos. Ou seja, já tinha ganho a partida quando decidiu massacrar. Acabou tomando um contra-ataque que resultou num inútil gol do adversário e manchou o que estava perfeito. Tipo 7 x 1.

O tribunal do título refere-se principalmente à explicação que ele terá de dar que à pessoa que realmente feriu durante o episódio, mas tal fórum pode ser expandido para o descontrole, suscetibilidades, desinformação e distorção das redes sociais.

Excelente livro. Recomendo.

michel_laub

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Serena, de Ian McEwan

Serena McEwanResenha sem spoilers, tá? Serena conta uma história que se passa nos anos 70, em Londres e Brighton, misturando amor, literatura, costumes e política (Guerra Fria). Serena Frome é uma jovem que vai trabalhar no MI5 (Military Intelligence, Section 5), serviço de inteligência do governo inglês. Ela estudou matemática em Cambridge, mas gosta mesmo é de literatura ligeira. No início do livro, diz preferir Jacqueline Susann a Jane Austen… e, sim, ela se torna mais razoável depois. Em razão de seu amor pela literatura e por ser de direita (além de linda), ela é convidada a participar de um projeto bem comum na época: com a finalidade de combater as ideias comunistas, o MI5 passa a financiar autores talentosos que escrevam a favor do capitalismo. Normal. Até Orwell participou de um programa desses. Após alguns casos amorosos, inclusive com o homem que de certa forma a colocou no MI5, Serena envolve-se com um escritor que recrutou, um certo Tom Haley. A partir deste ponto, paro de contar a trama.

Dito assim rapidamente, parece ridículo. Não é. McEwan é um baita escritor, realiza sempre minuciosas pesquisas e consegue manter esta trama vintage — meio espionagem, meio farsa, meio romanção — bem escondida sob uma prosa sempre interessante. Só que o livro não chega a ser bom. O final que o leitor elabora em sua cabeça, imaginando as cenas que virão antes do desenlace sugerido, é menos elegante do que aquilo que é descrito por McEwan. E a gente fica pensando que ele não explicita a história porque ela não é tão boa. Fica uma sensação estranha e insatisfatória.

McEwan nasceu em 1948, eu em 57. Muitas das referências feitas por ele àquele período de minha juventude foram-me absolutamente deliciosas. Talvez eu e ele tenhamos sucumbido nostálgica e apaixonadamente à música popular e aos problemas em voga na época. As descrições detalhadas de como Serena se veste ou pensa são ótimas e a certa ingenuidade sempre presente dão um perfume especial à esta narrativa longa (382 páginas).

Mas, vocês sabem, um mau McEwan é superior do que o melhor livro de muito autor consagrado e Serena é exatamente isso, um equívoco de um excelente autor. Afinal, sempre se espera deste cara que diz vencer seu bloqueio criativo lavando louça.

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Livro comprado na Bamboletras

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A Descoberta da Currywurst, de Uwe Timm

A descoberta da currywurstLi este livro durante uma longa viagem pela Europa. Queria algo leve e achei que o best seller A Descoberta da Currywurst combinaria bem a já gasta mas agradável fórmula de “gastronomia e história”. E, com efeito, apesar de quase tudo se passar logo após o final da Segunda Guerra Mundial, trata-se de um livro leve. Uwe Timm simula uma longa entrevista com Lena Brücker, a possível inventora da iguaria. Porém, antes de dizer qual é a origem da currywurst, Lena, enquanto tricota num asilo de velhos, faz questão de contar sua aventura de final de guerra. E o que ela conta por quase todo o livro é seu caso amoroso com o jovem soldado alemão Hermann Bremer. Ele fora designado para uma unidade de caça de blindados, mas, nos dias finais da guerra, Lena o convence a tornar-se um desertor, arrastando-o primeiro para um abrigo antiaéreo e depois para seu apartamento. Bremer fica escondido ali, tentando adequar-se a mil cuidados para não ser ouvido pelos moradores do prédio. Já Lena sai bastante de casa. Trabalha numa cantina e é lá que, não obstante a escassez, rouba alimentos para si mesma e Bremer. Também consegue enganar Bremer, dizendo que a guerra não acabou. Ela mente que não há jornais e confirma que a Alemanha juntou-se aos aliados para atacar a União Soviética. Ou seja, a guerra segue e ele ainda seria um desertor. É interessante a relação entre ambos. O fato é que ela o quer e ponto final. Transam todos os dias e vão engodando. Então, o livro cai em outro clichê, saindo de “história e gastronomia” para o “romance de cativeiro”. Só nas páginas finais sabemos da origem da currywurst. Até curti o livro, queria saber seu final, não obstante o amontoado de clichês. Timm escreve muito bem, a tradução é boa, só que a história é um amontoado de coisas há muito tempo vistas ou lidas.

Uwe Timm: desta vez passa, tá?

Uwe Timm: desta vez passa, tá?

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Ruína y leveza, de Julia Dantas

ruina-350Gosto de resenhas curtas, mas acho que esta será pouca coisa maior do que o habitual.

Muitos de meus amigos elogiavam Ruína y leveza e faziam cara de espanto quando eu dizia que ainda não tinha lido. De certa forma, eles me enganaram. Não quanto à qualidade do livro, que é efetivamente excelente, mas quanto ao tema. Esperava uma espécie de “romance de viagem” pela América Latina, com descrições das minas de Potosí, de Nazca, do Salar de Uyuni, de Machu Picchu, misturadas com a vida sentimental da narradora, algo assim. Eles me falavam do livro e eu imaginava algo de inspiração goethiana ou hessiana, solitária e paisagística, sempre com a viagem como centro, abrindo espaço para uma viagem interior de auto-conhecimento. E pensava que talvez não fosse o livro mais adequado a este leitor… Só que Dantas me ganhou facilmente.

Porque é o inverso. A crise pessoal da personagem — fim de um caso amoroso, súbita demissão de seu trabalho como publicitária — é que a leva a viajar e as tais transformações e recomeço ocorrem como resultado dos contatos de Sara com figuras como a do argentino Lucho e a da peruana Carmem e não através de lições ou grandes frases forçadas. Ou seja, tudo parte da simples interação. Ponto para Dantas. Ou seja, não é um livro de um narrador solitário, apesar de Sara buscar ficar sozinha. Sim, escrevo uma resenha mais dizendo o que Ruína y leveza não é, mas a culpa é de quem me fez ler o livro…

E o que é o livro? É um livro sobre um processo de retomada da vida, de um recomeço. Da crise à retomada. Ele gravita em torno das experiências passadas e da viagem de Sara, uma narradora de voz muito sedutora e envolvente. Em segundo lugar, é um texto bem escrito, fluente, inteligente e realista. Os capítulos alternam entre as experiências da viagem e os motivos a levaram até ali. Então, boa parte do livro é urbana e porto-alegrense. Sara está deprimida, mas sempre permanece interessante e até divertida — o livro contém boas piadas e histórias. Não se trata de uma pessoa perdida e desesperada “que se encontrou”, pelamor.

A frase que parece dar título ao livro é do duro Lucho, que afirma: “Turistas voltam para casa com malas mais pesadas. Viajantes voltam com mais leveza”. Gosto especialmente da palavra leveza e a uso com cuidado. Na acepção que prefiro, ela não é confundida com simplicidade ou falta de profundidade, mas com delicadeza e viço. Mozart, para mim, seria uma mistura de leveza e ousadia. Julia Dantas a utiliza bem.

Recomendo a leitura.

Julia Dantas em foto sem crédito encontrada na rede

Julia Dantas em bonita foto sem crédito encontrada na rede

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Luz em Nevoeiro, de Iuri Müller

luz-em-nevoeiro-iuri-mullerVolume de estreia de Iuri Müller na área da ficção, Luz em Nevoeiro traz doze contos, alguns já conhecidos meus da internet. Mas nada como lê-los em grupo. Neste caso, a desvantagem da leitura esparsa foi a de dificultar a distinção da boa voz de Iuri e de prejudicar a observação da unidade e da coerência do trabalho do autor. Em livro, tudo ficou mais claro. Os contos são escritos em ritmo decididamente adágio, tendo por base, quase via de regra, as ações dos personagens. Há também há uma peculiar integração entre eles e os diversos ambientes. Por ambiente, entenda-se as ruas e as cidades. A coisa acontece de tal maneira que é impossível imaginar o belíssimo e original Andava a te buscar fora de Montevidéu ou o ótimo Avenida Salgado Filho fora da conhecida e infernal rua de Porto Alegre. As histórias vêm grudadas às características específicas de cada habitat.

(Intervenção gonzo: li o livro durante uma viagem à Europa na qual mudei 4 vezes de cenário. Era curioso receber a enorme carga de informações da cada nova cidade onde me hospedava, enquanto lia um livro tão ligado a outras cidades também conhecidas de mim. Caminhava por Berlim, Praga, Amsterdam e Londres, vagando literariamente por Montevidéu, Buenos Aires, Porto Alegre, Santa Maria, Lisboa…)

A atmosfera ficcional de Luz em Nevoeiro é cuidadosamente rarefeita. Os contos não dizem tudo, deixando bom espaço para a imaginação do leitor e para a poesia. Iuri Müller nos joga detalhes sem ser exageradamente explícito (ou explicadinho), criando lentamente boas histórias de conflitos contra a situação política, a pobreza, a falta de perspectivas. Papéis Molhados, Edifício Paris e Acevedo, poeta são bons exemplos de sua arte. Os personagens são lenta e maravilhosamente bem construídos. E costumam tomar atitudes desconcertantes.

Além dos contos citados, gostei muito de O Estado das Coisas. Importante salientar: citei seis, mas a outra meia dúzia não é nada esquecível. Recomendo a leitura.

P.S. — Iuri Müller já tinha publicado anteriormente a reportagem Estilhaços de Rodolfo Walsh, comentado aqui no blog.

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O Céu de Lima, de Juan Gómez Bárcena

o-ceu-de-lima-juan-gomez-barcenaJosé Galvéz e Carlos Rodríguez são dois jovens ricos que, com o futuro garantido, escolhem viver de maneira leve e superficial. São daquele tipo de estudantes universitários que raramente frequentam as aulas. Amam a literatura, sobretudo poesia, apreciando especialmente o poeta espanhol Juan Ramón Jiménez. Querem ler seu novo livro, mas não o encontram na provinciana Lima da primeira década do século XX. E resolvem pedir o livro diretamente ao autor. Para que dê certo, fazem com que uma mulher o faça, criando assim a personagem Georgina Hübner – uma moça apaixonada pela obra de Juan Ramón. É ela quem lhe escreve uma doce e inteligente carta solicitando o livro, preparada pela bela e feminina caligrafia de Carlos. Ambos ficam loucos de felicidade quando a edição chega, acompanhada de uma resposta. E começa uma longa correspondência que forma um romance, tanto literário quanto amoroso.

É curioso. A narrativa é inspirada em uma história real. Sim, o grande Juan Ramón Jimenez foi iludido por dois dândis limeños. A partir desta uma introdução de comédia, Bárcena constrói minuciosamente a relação entre José e Carlos, além da deles com seus aconselhadores. Mostra-nos como se envolvem cada vez mais na farsa. Também a elite de Lima e suas relações sociais com os empregados e serviçais é retratada com particular exatidão. O contexto histórico é rico e esclarecedor, auxiliando e tomando boa parte da narrativa.

O livro é dividido em quatro capítulos: I- Uma Comédia; II- Uma História de Amor; III- Uma Tragédia e IV- Um Poema. Neles, lemos algumas cartas de Georgina, que acaba se tornando cada vez mais real, além de alguns trechos das cartas que o escritor Juan Ramón Jiménez lhe envia. Há sutil e inteligente metalinguagem. Os dois farsantes acabam discordando muitas vezes. Buscam conselhos de um homem que trabalha no centro da cidade redigindo cartas de amor. Carlos não deseja aderir às sugestões. Depois, outros amigos acabem se envolvendo, o que leva a dupla a um quase rompimento. A coisa fica séria e eles apenas voltam a se encontrar quando…

O Céu de Lima é excelente e foi uma grande surpresa. Comprei-o por indicação do amigo Iuri Müller e só porque tinha algum dinheiro sobrando no bolso, coisa rara. Valeu muito a pena. Recomendo!

Juan Gómez Bárcena

Juan Gómez Bárcena

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A Natureza Intensa, de Nelson Rego

a-natureza-intensa-nelson-regoNão sei quais são as principais referências literárias de Nelson Rego, mas não devo errar muito se falar em Bataille, Sade, Genet, Gombrowicz e Gide, além de algo mais político. Porém, este livro não segue nenhum modelo utilizado pelos autores citados, apenas fazendo com que lembremos deles. Em A Natureza Intensa, Rego faz uma curiosa literatura hedonista, onde há belas e glamurosas mulheres em posições de poder. Elas administram suas empresas a partir de fundamentos éticos muito pouco praticados, que incluem não somente a solidariedade como o sexo e a beleza.

O volume abre com o conto Garota Espiralada, onde uma modelo posa nua para um grupo de artistas. Só que estes parecem um grupo de voyeurs mais interessados no corpo da menina do que em seus trabalhos. O trabalho parece pretexto para a contemplação.

Farsantes Sinceras conta uma viagem onde duas mulheres circulam por uma Itália cheia de tentações e mistérios. Aqui, somos apresentados a algumas personagens da narrativa que fecha o livro.

Sim, o melhor é o conto final (ou novela, pois tem 75 páginas). A natureza intensa brota por todo lado trata de um homem maravilhosamente perdido na casa da dona de uma grife que retira da pobreza meninas para trabalharem como modelos. Vitória dá-lhes tudo: educação, roupas, segurança, beleza… Dá-lhes o mundo. E elas tornam-se “queridas, ousadas, nada submissas, valentes, justiceiras, taradinhas, narcisistas, perspicazes e profundas, um pouco fúteis, criativas, inteligentes e estudiosas e aplicadas em suas responsabilidades, cheias de compaixão e amor apaixonado, exibicionistas, ecológicas, solidárias, com espírito de equipe, independentes, vaidosas, uns amores, tudo de bom”.

Rego não faz pornô soft, faz boa literatura com um belo trabalho de linguagem, que lembra os autores citados na abertura desta resenha. O que é também singular no mundo de Nelson Rego é que tudo isso é temperado por posições contra o establishment. Isto é, não estamos nunca no terreno do conformismo. Os planos das poderosas mulheres incluem investimentos nos promissores editores gays de Londres que sonham em abrir uma sucursal antirreligiosa em Jerusalém e outra antirracista no Texas. Elas também pretendem abrir linhas de crédito para quintais quilombolas dedicados à agricultura orgânica nas regiões mais latifundiárias e racistas do RS… Lembram que o deputado Luis Carlos Heinze disse que quilombolas, índios, gays e lésbicas era “tudo que não presta”? Pois bem, ele ficaria louco com os planos delas.

Sem dúvida, é um mundo é bem interessante e, infelizmente, distinto de nossa realidade. Talvez, como diz a poderosíssima Jewel, verdadeira suma-sacerdotisa, a intenção seja a de dar esperança para o mundo através do tesão.

Recomendo!

Nelson Rego | Foto: Palavraria

Nelson Rego | Foto: Palavraria

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Enclausurado, de Ian McEwan

enclausurado-mcewanA ideia é insólita e tinha tudo para dar errado, acho. Mas do outro lado não estava um diretor de comédias norte-americanas e sim Ian McEwan. Bem, gente, o narrador de Enclausurado é um feto. Dentro do útero, ele aprende as coisas da vida ouvindo programas de rádio que sua mãe tanto aprecia. Ouvindo tais programas, que falam da política e da situação mundial, o feto teme por seu futuro. Além disso, degusta e tem opiniões acerca dos vinhos que ela ingere não obstante a gravidez. Sua mãe prefere o Borgonha, ele, o Sancerre. (McEwan afirmou que se trata de um feto alcoolista). E ali, dentro do útero de sua genitora, fica sabendo dos planos de Trudy, a mãe, para matar o pai em conluio com o amante que é irmão do pai, ou seja, seu tio.

Apesar de estarem sempre misturados ao desconforto e, às vezes, à burrice e ao descontrole, o livro tem momentos absolutamente hilariantes. Há alta e baixa comédia. O feto declara-se impotente para alterar tanto o destino da trama que vê ocorrer em torno de si, como da situação do mundo onde vai chegar, mas faz comentários acerca de tudo. Preocupa-se demais, inclusive em se esquivar das estocadas do pênis do tio, o insuportável Claude. Então, o romance tem uma base absolutamente fantasiosa, momentos de comédia e outros de grande realismo e sinceridade, guardando também pontos de contato com as tragédias shakespearianas, apesar da ambientação 100% contemporânea. O nome da mãe, Trudy, obviamente vem de Gertrudes, a Rainha da Dinamarca de Hamlet; enquanto que o nome do irmão do pai é Claude, um sujeito traidor, assassino e tolo. Lembram que o irmão de Hamlet chama-se Claudius?

O feto desaprova os planos, porém não consegue detestar a mãe e sua placenta saudável e alcoolizada. Neste livro, McEwan mantém as detalhadas descrições de seus melhores textos, mas revisita o espírito de suas primeiras obras que lhe valeram o apelido de Ian MacAbre (Ian Macabro).

Há um momento em que levantei e comecei a caminhar rindo. O marido inverte o discurso e Trudy fica enfurecida em razão de que o abandono deve ser uma decisão dela, não dele. Ela quer se separar, não ele… A raiva de Trudy é “vasta e profunda e é seu meio ambiente, sua personalidade”. Puxa, como eu conheço isso!

Enclausurado é uma pequena joia. De início tão inverossímil quanto Memórias Póstumas de Brás Cubas, o livro ganha enorme força através da arte de um McEwan inspiradissimo como em Reparação e Amsterdam.

Recomendo fortemente!

Livro comprado na Bamboletras.

Ian McEwan

Ian McEwan

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O Inverno e Depois, de Luiz Antonio de Assis Brasil

o_inverno_e_depoisDepois de Música Perdida (2006), eu tinha desistido de Assis Brasil. Sendo mais claro: sempre lia os livros do autor gaúcho em busca de algo tão vivo quanto O Homem Amoroso (1986), mas ele permanecia perdido em romances históricos que me pareciam difíceis de engolir, seja pela artificialidade de algumas situações, seja pela linguagem clássica e perturbadoramente deslocada daquilo que descrevia — normalmente o Pampa inculto e romantizado –, seja por minhas manias e gostos de velho leitor, certamente a razão mais forte.

Mas aí veio o excelente escritor, crítico literário e amigo Carlos André Moreira. Ele escreveu bobamente que gostaria de ler uma resenha de Milton Ribeiro sobre o recém lançado O Inverno e Depois. Espero que tenha se lembrado que isto aqui é um blog onde apenas me coleciono de um jeito meio estabanado. Bem, mas moço obediente que sou, liguei para a Ladeira Livros pedindo o romance. E o livro é ótimo.

A narrativa tem seu foco em Julius, um violoncelista que se isola numa estância que herdou de seus pais — e que não visitava há 40 anos — para estudar uma obra pela qual é obcecado desde seus estudos na Alemanha, o Concerto para violoncelo e orquestra, de Dvořák. Ele tem um concerto marcado como solista e quer ser digno da grande música que escolheu.

Logo no início do livro, enquanto é descrita a longa viagem de carro entre Porto Alegre e a fronteira com o Uruguai, já deu para notar que tudo estava muito bem encaixado: humor, linguagem e tema. Durante a jornada, Julius, que nascera no mítico Pampa de Assis Brasil e que mudara-se criança para São Paulo, divaga sobre seu passado. A viagem vai sendo descrita paralelamente à história de vida de Julius e, quando vi, estava totalmente envolvido. Aprendi que o maior sinal de que o livro é bom é quando abro novos espaços de tempo para apressar a leitura. Isso aconteceu e passei a achar legal que o volume tivesse 350 páginas.

Hitchcock não era escritor, mas sabia como poucos o que era uma narrativa bem feita. Na imensa entrevista que concedeu para Truffaut, disse uma coisa fundamental: um profissional vê o mundo a partir de sua profissão e trata de influenciá-lo e defender-se a partir e com o que faz. Lembram do fotógrafo de A Janela Indiscreta defendendo-se de Lars Torvald com “flashes”? Há algo mais crível do que aquilo? Ou queriam que ele pegasse em armas?

Pois Julius pensa e vê o mundo a partir do violoncelo. Foi o instrumento que o levou à Würzburg (Alemanha) e depois fez com que se fixasse em São Paulo. Suas opiniões e amores são mediados pelo violoncelo. Ele não conheceria a amiga Klarika, seu professor Brand, seu amor Constanza e talvez nem a esposa contadora sem ele. Um bom romance realista deve ter surpresas, mas não pode conter sinais de artificialidade. E Assis Brasil aceita o fato de tal forma que não recua em dar detalhes técnicos do instrumento e das peças com que Julius se debate. Os desentendimentos que ocorrem também são típicos do mundo musical. (Lembrem que sou casado com uma violinista da Ospa, conheço o ambiente).

Outro elogio que faço ao livro é o de sua arquitetura narrativa. A linguagem é aquela clássica que Assis Brasil nunca abandona, aquela que mira a clareza e a elegância. Mas aqui a construção é muito bem feita, as narrativas paralelas funcionam bem e nos levam a boas cenas simétricas, como a do recital de Constanza e a do concerto de Julius. Porém…

Algumas vezes Assis Brasil pisa a linha do melodrama e até dá um passeio por lá. A descrição da morte do professor Brand é menos digna do que poderia e algumas coisas funcionariam melhor se deixadas a cargo da imaginação do leitor. Também é surpreendente que Julius, ao retornar do outro lado da fronteira, tenha perdido todos os medos — algum artista que sofre de medo do palco pode perdê-lo 100%? —  e tenha ido de peito aberto, surpreendendo até o maestro com seu risoluto. Creio que, na cena final, ele pudesse ter deixado claro o medo inicial e a sua diminuição à medida que Julius observava a plateia e criava vínculos com Antônia, Maria Eduarda, Sílvia e Constanza. Pô, nem uma visitinha às pressas ao banheiro antes de entrar do palco? Sua súbita segurança pareceu meio mágica, como se ele tivesse incorporado Starker.

Mas isto são detalhes. É o varejo no meio de um atacado de acertos. Eu comi o livro. O romanção me convenceu fácil, fácil. E não pensem que eu não quero que Constanza e Julius vivam felizes para sempre. Garanto-lhes: fazem um belo casal!

Recomendo.

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(Livro comprado na Ladeira Livros).

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Oswald — Ponta de Lança e outros ensaios, de Éder Silveira

oswaldCVEu sempre me aproximo com receio de obras escritas por acadêmicos. Nelas, às vezes tudo fica muito esquisito, com os rodapés crescendo quase tão altos quanto a parede. Por isso, foi uma surpresa abrir a obra do historiador Éder Silveira e ver-me logo envolvido por temas culturais fundamentais do Brasil, acompanhados de elegância, boa prosa e comentários consistentes. Antes de descerrar esta cortina de elogios, aviso que sim, há os malditos rodapés, mas o autor esforçou-se para integrá-los ao texto. Deste modo e erguendo o nariz para alguns deles, a leitura ioiô ficou reduzida.

Oswald ponta de lança e outros ensaios trata de temas culturais e políticos da primeira metade do século XX, com foco na Semana de Arte Moderna de 22 e suas margens. São textos cheios de informação — e algumas fofocas — sobre figuras como Monteiro Lobato, Anita Malfatti, Mário de Andrade, Di Cavalcanti e Oswald. Para mim, o verdadeiro interesse do livro está no fato de que o autor cuida mais da algaravia geral. Isto é, cuida menos de suas individualidades e mais de suas obras e dos diálogos entre eles e a política da época, vertidas principalmente em artigos publicados em jornais. No início do século passado, não havia tanto compadrio entre os autores brasileiros e muitas vezes uns criticavam aos outros. Também mudavam de opinião, o que é saudável. Ou seja, o ambiente intelectual não estava boiolizado como o que vemos hoje.

(Bem, antes que a patrulha da correção me alcance com seus dedos pegajosos, informo que boiola tem também o significado de indivíduo fraco ou medroso, tá? OK? Certo? Então tá, podem abraçar seus dicionários e dormir tranquilos).

E, além de não haver tanto compadrio, era uma época agitada, com o vanguardismo tentando abrir a golpes de facão as brumas parnasianas e naturalistas. O painel que os textos do livro toca é amplo — vai desde o higienização de Lobato até as lutas de Oswald contra o “desprezo pela inteligência” na direção do PCB, das tendências nacionalistas e conservadoras do modernismo brasileiro até o humor praticado pelo movimento, do encantamento e à frustração dos dois Andrades e, é claro, de muitos e muitos projetos irrealizados.

A pergunta de fundo não é nada fácil: o que é o Brasil, qual é sua identidade? É claro que a resposta não está no livro, mas a discussão é bonita.

Livro fundamental para quem se interessa por cultura no Brasil.

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O historiador Éder Silveira confirma com o indicador: é o único gremista que sabe escrever em Porto Alegre | Foto: Joana Berwanger / Sul21

O historiador Éder Silveira confirma com o indicador: é o único gremista que sabe escrever em Porto Alegre | Foto: Joana Berwanger / Sul21

Obs. final: o que me deixa encafifado é o fato de tão bom autor ser gremista, incidência que ele não declina em seu livro. Por anos, o mítico Impedimento andou procurando bons cronistas gremistas. Os resultados foram claros: eles não sabem escrever direito. Os raríssimos bons ou eram deprimidos ou não se mostravam suficientemente disciplinados para a tarefa. O único azul que escreve bem — além de dançar tango — em Porto Alegre é Sergio Faraco. Ele torce para o Cruzeiro, sim, o cruzeirinho de Erico Verissimo e Moacyr Scliar. O outro é Peninha.

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O Amor de Mítia, de Ivan Búnin

o-amor-de-mitiaIvan Búnin (Prêmio Nobel de Literatura de 1933) fez parte daquele grupo de nobres russos, ricos ou decaídos, que fugiu da Revolução de 1917. Era vizinho de Nabokov em seu exílio parisiense. A Rússia de sua novela O Amor de Mítia (1925) ainda era a dos nobres e grandes donos de terras tão bem descritos por Tchékhov. Não é para menos. Filho de uma antiga família de proprietários rurais, Búnin viu sua fortuna ser perdida pelo avô e depois pelo pai, um alcoolista viciado nos jogos de cartas. Teve que trabalhar cedo na cidade para ganhar a vida, mas a infância na Rússia pastoril czarista parece tê-lo marcado muito.

O tema de O Amor de Mítia não é a política, mas a inquietação e o Ciúme com C maiúsculo. Mítia tem muito a ver com o Otelo de Shakespeare. Ele ama e ama uma jovem saracoteante que se dedica a concertos, saraus e aulas de teatro. Mas o inferno do ciúme faz com que ele não viva nem aproveite nada. Tudo isto é descrito rapidamente até que ele deixa Moscou e parte para a casa da mãe no interior, cansado dos desentendimentos com Kátia. Como vários apaixonados, crê não ser correspondido.

O livro é basicamente a espera de Mítia. Ele quer receber cartas de sua amada, mas ela não manda. Estará ocupada? Não gosta mesmo de escrever? O que estará fazendo? Ela é fiel? Onde está Kátia? E ele passeia pelo campos, belamente descritos por Búnin em tradução do excelente Boris Schnaiderman. Em seus passeios, sempre acaba no Correio, à procura de cartas.

O contato com os camponeses leva-o a uma negociação direta para a compra de sexo. Búnin descreve toda a estratégia criada por um funcionário da fazenda. Mas ele não quer Alionka, quer Kátia, que persiste em seu silêncio.

É um bom e perfeitamente esquecível livrinho que dá para ler numa sentada ou deitada (118 páginas com capítulos bem curtos).

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A guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Aleksiévitch

A guerra não tem rosto de mulherA guerra não tem rosto de mulher é mais um excelente produto do curioso, trabalhoso e eficiente método de Aleksiévitch fazer literatura. O livro é formado de pequenas introduções da autora e de trechos de entrevistas que são retrabalhadas, classificadas e ordenadas. O efeito é o de um torpedo, cheio de dor e humanidade. Os relatos são curtos, vindos todos de mulheres soviéticas que lutaram na 2ª Guerra Mundial. Suas funções são de francoatiradoras, enfermeiras, lavadeiras, médicas, pilotas, cozinheiras, artilheiras, comandantes, tanquistas, sapadoras, enfim, elas estiveram em todos os gêneros de trabalho de soldados em guerra. Matavam e eram mortas. E cada sobrevivente tem uma história diferente e pessoal para contar. A morte, é claro, é onipresente. Todos os relatos envolvem sofrimento, mas também há histórias de amor, de coqueteria e de pequenas alegrias.

Todos sabem que a história é escrita pelos vencedores, mas é pior do que isso, ela é escrita por homens e apenas sobre homens. As mulheres são apenas enfermeiras? Nada disso. E a escolha do feminino no livro de Aleksiêvitch é fundamental. O masculino ama as ações honrosas, a narrativa oficial, enquanto que as mulheres são mais afeitas às “anotações da alma” e aos sentimentos. Nada de estatísticas, de narração de batalhas, apenas detalhes do que é viver dentro de um conflito como aquele..

Isto é, depois de sete anos de entrevistas e de quilômetros de cassetes gravados, Svetlana Aleksiévitch não escreveu um livro somente sobre a guerra, mas principalmente sobre o comportamento do ser humano na guerra, perseguindo menos “os grandes feitos e o heroísmo, mas aquilo que é pequeno e humano”.

A originalidade de Aleksiévitch está em nos descortinar as mulheres não reconhecidas e que participaram ativamente de uma guerra crucial do século XX. Os relatos são crus e violentos, dando-nos uma realidade despida de heroísmo. O ambiente parece muito artificial para aquelas mulheres que usavam cuecas — por falta de calcinhas –, não menstruavam e trabalhavam dias sem dormir. O paradoxo entre ser mulher e soldado é um dos principais pontos dos relatos.

Não é um livro tão bom quanto Vozes de Tchernóbil — os fatos narrados em A guerra não nos causam as cada vez mais terríveis surpresas de cada capítulo daquele –, mas a autora bielorrussa nos dá uma notável contribuição para o entendimento do que foi o dia a dia do maior conflito armado de todos os tempos.

Svetlana Aleksiévitch

Svetlana Aleksiévitch

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Oito e meio, de Federico Fellini

ottoemezzo_02Ontem, na Sala 8 do Espaço Itaú do Bourbon Country em Porto Alegre, teve início a 8 ½ Festa do Cinema Italiano com a apresentação, em gloriosa cópia renovada e digitalizada, do clássico de Federico Fellini Oito e meio (8½). A programação da Festa pode ser conferida aqui.

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Rever Oito e meio (1963) em impecável projeção digital é uma grande alegria. Para quem não sabe, Oito e meio é um filme autobiográfico de Federico Fellini cujo foco está no bloqueio criativo de um diretor de cinema, alter ego do próprio diretor. Este já tem os atores contratados e disponíveis, o produtor, o dinheiro do mesmo e a equipe, só lhe faltam as cenas e a história. Só. Muitas das cenas do filme foram retiradas da vida do próprio Fellini, outras, de seus sonhos e inseguranças. O título é uma referência à carreira do próprio, que até então já havia dirigido sete filmes e meio, sendo este o de número 8,5º.

Uma das imagens do sonho da sequência inicial

Uma das imagens do sonho da sequência inicial

O cineasta chama-se Guido Anselmi. Ele está esgotado e resolve se internar em uma estação-de-águas para buscar inspiração. Anselmi é conhecido por fazer filmes desencantados, sem esperança, e ele próprio parece tomado destas perspectivas em relação a si mesmo. Da mesma forma, Fellini passara por um desses bloqueios, só que utilizou uma estratégia engenhosa para contornar o que estava sentindo: narrou a própria dificuldade. Então, Oito e meio é metalinguístico, usa a linguagem do cinema para comentar um filme que parece que não vai acontecer. Só que muita, mas muita coisa ocorre na tela enquanto os personagens perguntam ao diretor o que farão.

Como disse, a ideia foi concebida em meio às dificuldades do próprio Fellini com um roteiro que simplesmente não andava. No caso real, a confiança em Fellini era tão completa que a produção — cujo roteiro nem existia — já tinha recebido financiamento, elenco principal e equipe técnica. Então, em vez de comunicar aos profissionais o cancelamento, o diretor criou uma original, rarefeita e simbólica história sobre um diretor de cinema sob bloqueio criativo. E foram realmente notáveis a liberdade de criação e os recursos disponibilizados pelos produtores. Assim, os fantasmas do diretor ganharam corpo e voz num filme de narrativa caótica, com um vasto exército de atores e figurantes, mas com cenas altamente estudadas. Várias delas parecem verdadeiros balés realizados em frente às câmeras. Todo um mundo onírico é mostrado paralelamente à realidade.

Fellini demonstra a seu alter ego Mastroianni como fazer

Fellini demonstra a seu alter ego Mastroianni como fazer

É um filme incrivelmente belo e confuso. O olho de Fellini parece mover-se impacientemente sobre cenas altamente plásticas, sem se fixar. Estamos realmente assistindo a uma crise. Guido Anselmi — interpretado por Marcello Mastroianni — é vazio e parece não ter o menor respeito por si e pela produção. Parece arrependido do que está causando, mas não consegue ou não quer fazer a máquina do cinema parar. O resultado é um filme todo quebrado em diversos episódios soberbos.

Também é uma história de culpa, de uma vida compartimentada onde a mentira está presente em todos os escaninhos. Ele diz aos produtores que tem um filme, quando na verdade não tem. Diz aos atores que o roteiro está pronto, quando não escreveu nada. Tenta apaziguar sua mulher — Anouk Aimée, lindíssima –, enquanto tem um caso.

Na cena da mesa do café, Guido está com sua esposa enquanto a amante, Sandra Milo, parece mostrar fisicamente a falta de direção do filme. Toda torta, suas pernas voltam-se para um lado, mas ela vai para outro… (Nota: Milo era a amante de Fellini na vida real). Como se não bastasse, ele parece criar uma mulher de sonho, a inatingível Claudia, vivida por uma inacreditável Claudia Cardinale.

Cardinale: beleza ideal, inacreditável

Cardinale: beleza ideal, inacreditável

Tudo isso vai acontecendo em uma crescente e estranha atmosfera de desencanto circense, um clima do qual apenas Fellini tinha a fórmula. A incerteza sobre o filme, a angústia, parecem não importar muito. Valem mais o riso e a reflexão. O final é esplêndido ao mostrar a vida como uma festa. Após formar uma imensa roda com todos os figurantes e equipe, espécie de melancólica despedida (a vida é triste, mas também é uma festa a ser compartilhada), Fellini cria um dos mais emocionantes momentos do cinema quando Guido e sua esposa, reconciliados, aderem à dança que Guido não dirige mais, passando a fazer parte dela.

Guido entra na dança da vida, confundindo-a com a arte

Guido entra na dança da vida, confundindo-a com a arte

 

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Francofonia, de Alexander Sokúrov

francofonia-Sokurov(****) Filmado em boa parte no Museu do Louvre, Sokúrov questiona a permanência da arte mesmo em um momento tão grave quanto a 2ª Guerra Mundial. Jacques Jaujard, diretor do Louvre, e o Conde Wolff-Metternich, general da ocupação nazista em Paris, inimigos e posteriormente colaboradores, formaram uma aliança para a preservação dos tesouros do museu francês. Explorando as relações entre arte e poder, o filme mostra o Louvre como um exemplo de nossa civilização. Misturando documentário e ficção, o denso filme do grande Aleksander Sokúrov (de Arca Russa e Fausto) reflete poeticamente sobre os papéis da arte e da civilização. Como pano de fundo, vemos toda a grande cultura europeia tendo que escapar de ser pisoteada. Belo filme.

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