Bach, Vivaldi, suas mortes e a ironia das datas

Bach, Vivaldi, suas mortes e a ironia das datas
Vivaldi e Bach

Ingmar Bergman, o cineasta que dedicou parte de sua obra a analisar o silêncio de Deus e a solidão do ser humano, morreu em Fårö no dia 30 de julho de 2007, na mesma data em que morria em Roma Michelangelo Antonioni, o cineasta da incomunicabilidade. Miguel de Cervantes faleceu em Madrid na data de 23 de abril de 1616, mesmo dia da morte de William Shakespeare em Stratford-upon-Avon. O fato de a morte dos dois maiores escritores da Idade Moderna ter ocorrido na mesma data apenas é deslustrado por uma verdade que destrói o mito temporal: Shakespeare faleceu sob a regência do calendário juliano, o que empurra sua morte para dez dias depois. Já Johann Sebastian Bach (1685-1750) não morreu no mesmo ano em que Antonio Vivaldi (1678-1741) faleceu, mas há muitas coincidências que ligam os dois maiores nomes da música barroca — para começar, ambos “escolheram” o 28 de julho como data de morte.

Bach e Vivaldi foram compositores totalmente diferentes. Basta uma audição de alguns segundos para que fique identificado um e outro. Eles criaram suas obras numa época especialmente complicada — são compositores do barroco tardio, ou seja, produziam no momento histórico em que se iniciava o período clássico. Eram, portanto, compositores antiquados em seu tempo. Os filhos compositores de Bach já encaravam o pai como alguém do passado e Frederico II, quando o convidou para visitar sua corte, ouviu-o sem o menor respeito, como quem ouve um animal em extinção, apesar do que dizem algumas lendas desinformadas. Já Vivaldi, il prete rosso, sem público em Veneza, vendeu grande parte de seus manuscritos para pagar uma viagem a Viena, onde Carlos VI o admirava, mas o imperador faleceu dias depois de sua chegada, frustrando os planos do italiano. A consequência é que ambos, Bach e Vivaldi, morreram pobres e fora de moda.

Vivaldi: um talentoso padre que não escondia suas relações com mulheres

Se não havia relações de estilo, havia relações musicais entre ambos, ao menos no sentido de Bach ter sido um admirador do estilo italiano e de conhecer profundamente a obra de Vivaldi. Ele fez mais: transcreveu vários dos concertos de Vivaldi para o cravo e o órgão. Alguns concertos para violino do L’Estro Armonico (1712) e de outros ciclos foram transcritos por Bach e certamente interpretados por ele, seus filhos e alunos. Podemos citar também a quase inevitável religiosidade dos dois compositores numa época em que se ensinava religião por mais da metade do horário escolar. Por muito tempo, Bach foi considerado uma espécie de santo, ao menos até Emil Cioran colocar alguns empecilhos, separando Bach e Deus, com vantagem para aquele: Sem Bach, Deus seria apenas um mero coadjuvante. Sem Bach, a teologia seria desprovida de objetivo, a Criação fictícia, o nada peremptório. Se há alguém que deve tudo a Bach, é seguramente Deus. E Vivaldi? Vivaldi era padre. Il prete rosso, o padre ruivo, ou vermelho.

Apesar de sacerdote, Vivaldi teve muitos casos amorosos, um dos quais com uma de suas ex-alunas do conservatório de Ospedale della Pietà, a depois influente cantora Anna Giraud (ou Girò), com quem mantinha também relações profissionais na área da ópera veneziana. As biografias mais pudicas dizem que Anna foi a moça por quem o grande compositor se apaixonou, a inspiradora de suas óperas e a tormenta de todos os seus dias, até a morte. Ela teria muitas vezes beneficiado Vivaldi em troca de papéis adaptados a suas capacidades vocais. Tais trocas levaram outros compositores, como Benedetto Marcello, a escreverem panfletos contra Vivaldi e Giraud. Já Bach teve dois longos casamentos. O amor por suas esposas pode ser depreendido através de suas cartas e dos vinte filhos resultantes — sete com a prima Maria Bárbara e treze com Anna Magdalena, uma cantora profissional com metade de sua idade. O casamento com Maria Bárbara acabou em razão da inesperada morte da mulher e o com Anna Magdalena ocorreu em 1721. Bach tinha 36 anos; Anna, 18.

Bach: evolução permanente e cegueira

Bach escreveu mais de mil obras. Muitas são curtas, mas há mais de 200 Cantatas com duração aproximada de vinte minutos e Paixões com 3 horas de duração. Sua obra completa foi gravada numa coleção da Teldec: são 153 CDs, mais ou menos 153h ou 6 dias e 8 horas de música, sem repetições. Já Vivaldi escreveu 477 concertos — segundo o hostil Stravinsky, tratava-se de 477 concertos iguais — , mais 46 óperas e 73 sonatas. Em seu caso, ainda há muitas óperas não gravadas — porém, considerando o porte das óperas gravadas, é crível que o tamanho de sua obra seja semelhante ao de Bach.

Vivaldi parecia ter nascido pronto, seu estilo de composição variou pouco durante sua vida. Já a música de Bach, se não teve seu estilo alterado de forma radical, foi ganhando qualidade de forma inacreditável. Grosso modo, suas últimas composições foram as Variações Goldberg, A Oferenda Musical e A Arte da Fuga. Estas são monumentos, verdadeiras catedrais construídas em homenagem ao contraponto e à polifonia. No final de sua vida, Johann Sebastian Bach estava em seu auge, criando, se não suas obras mais perfeitas, aquelas que mais recebem tempo e dedicação dos especialistas.

Bach fora míope durante toda a vida e, durante a composição de A Arte da Fuga, sua visão se apagou. Porém, em fins de março de 1750, ano de sua morte, o famoso cirurgião oftalmológico John Taylor esteve de passagem em Leipzig. Ele foi levado até Bach e o operou. Taylor afirmou que em dois os três dias o paciente voltaria e enxergar. Depois de algumas semanas, como o paciente não apresentasse melhoras, houve uma nova operação, além de sangrias, ventosas e bebidas laxativas para limpá-lo. Apareceu um outro médico que brigou com Taylor. Então foi utilizado sangue de pombo nos olhos do compositor, além de açúcar moído e sal torrado. Dizem que em 18 de julho, dez dias antes de morrer, ele voltou a enxergar, mas no mesmo dia teve febre alta e caiu na inconsciência.

Não era alguém importante para a época. Nem sequer seu túmulo foi indicado. O corpo se perdeu. É um fato tristemente cômico que aquilo que está na catedral de São Tomás, em Leipzig, uma espécie de jazigo construído em sua honra em 1950 — por ocasião do bicentenário de sua morte — não sejam seus restos mortais, mas apenas o testemunho de seu esquecimento. Sua obra começou a ser recuperada por Felix Mendelssohn em meados do século XIX. Mas não é mera casualidade o fato de Mozart e Beethoven terem conhecimento de parte da obra do mestre. Eram estudiosos. Tanto que Beethoven escreveu que seu nome não deveria ser Bach (regato, ribeiro) e sim mar.

Túmulo de Bach na Catedral de St. Thomas, em Leipzig: Bach não está aí

Já Vivaldi foi esquecido por muito mais tempo. Sua ressurreição começou apenas em 1939, quando o compositor italiano Alfredo Casella organizou uma exótica Semana Vivaldi. Depois veio a guerra e só em 1947 foi fundado um tímido Istituto Italiano Antonio Vivaldi com o propósito de promover a música de Vivaldi e publicar novas edições de seus trabalhos. O longo inverno vivaldiano começou logo após sua morte. Quando morreu, era um mendigo em Viena. Teria morrido de “infecção interna”.  Em 28 de julho, ele foi enterrado em um túmulo simples no cemitério do hospital de Viena. Seu corpo, assim como o de Bach, foi perdido. Hoje existe apenas uma placa de homenagem na parede da Universidade de Viena registrando um dos possíveis locais do seu túmulo.

Placa indicando a possível localização do túmulo de Vivaldi, em Viena (Áustria)

Totti: o que a Roma pode ensinar ao Inter

Totti: o que a Roma pode ensinar ao Inter
O grande Francesco Totti
O grande Francesco Totti

Francesco Totti tem 39 anos, em setembro completa 40. O tratamento que recebe na Roma fala de inteligência, oportunidade e respeito. Totti está ativo e muito. O técnico Luciano Spalletti ainda não descartou um dos melhores jogadores da história da Roma. Ele não foi para o River Plate como D`Alessandro ou enxotado como Iarley, apenas reduziu seu salário e permanece útil ao clube. Sim, em campo.

Na complicada partida do Campeonato Italiano do último domingo, entre Napoli (2º lugar) e Roma (3º), Totti foi colocado no time aos 80 minutos, conforme pode ser visto no vídeo abaixo. Estava 0 x 0. Na beira do gramado, ele foi ovacionado como ídolo, aplaudido de pé pelo Olímpico de Roma. O time se animou. Totti entrou correndo muito e fazendo tudo o que sabe naqueles 10 ou mais minutos finais. Deu três passes espetaculares. Dois foram desperdiçados. O outro deu início a uma troca de passes que resultou no gol da Roma aos 89 minutos.

Totti passou por um período complicado em que esteve dizendo que “não contava mais”, mas hoje ninguém mais discute sua veterana utilidade.

Respeito, inteligência e oportunidade. E às vezes tudo ainda é resolvido por Totti. Eu não sei o que passava pela cabeça dos dirigentes do Inter quando emprestaram nosso super ídolo D`Alessandro para o River. É um desrespeito, é virar as costas para o passado recente do clube, além de ser uma triste demonstração de burrice e falta de gratidão.

https://youtu.be/PiIPUepZdJc

Antes da improvável penitência, o Carnaval, Carnis Valles, ou os prazeres da carne

Antes da improvável penitência, o Carnaval, Carnis Valles, ou os prazeres da carne

Publicado no Sul21 em 14 de fevereiro de 2015

Ramiro Furquim / Sul21
Ramiro Furquim / Sul21

Tal como o Natal, o Carnaval é uma festa anterior ao Cristianismo. É comemorado há pelo menos 10 mil anos. Existia no Egito, na Grécia e na Roma antigos, sempre associado à ideia de fertilidade da terra. Era quando o povo comemorava a futura boa colheita, a proximidade da primavera e a generosidade dos deuses. A festividade começou pagã e trouxe até nossos dias parte de suas características originais: os rostos pintados, as máscaras, o excesso, a extravagância e a troca de papéis.

Em Roma, o mais belo soldado era designado para representar o deus Momo do Carnaval. Era coroado rei e permanecia três dias nesta condição. Posteriormente, passou-se a escolher o homem mais obeso da cidade para servir como símbolo da fartura e reinar por três dias. Esta troca de papéis durante o carnaval foi extensivamente analisada por Mikhail Bakhtín no clássico A Cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. Segundo Bakhtín, o carnaval permitia a inversão da ordem estabelecida, a fuga temporária da realidade. Seria um espaço de suspensão da rotina que ofereceria aos homens um grau de liberdade não experimentado normalmente. Se Bakhtín visava descrever a Idade Média e o Renascimento com a frase anterior, também descreve o que ocorre hoje, aqui, agora.

Os espectadores não assistem ao carnaval, eles o vivem, uma vez que o carnaval, pela sua própria natureza, existe para todo o povo. Enquanto dura o carnaval, não se conhece outra vida senão a do carnaval. Impossível escapar a ela, pois o carnaval não tem nenhuma fronteira espacial. Durante a realização da festa, só se pode viver de acordo com suas leis, isto é, as leis da liberdade.

Mikhail BAKHTÍN

Jonathan Heckler / PMPA
Jonathan Heckler / PMPA

O antropólogo Roberto Da Matta, em sua obra Universo do Carnaval: imagens e reflexões, traz a obra de Bakhtín ao encontro da realidade brasileira. Se não há uma inversão completa da ordem, é o momento em que os mais pobres, organizados, invadem o centro da realidade, estabelecendo um “mecanismo de liberação provisória das formalidades controladas pelo estado e pelo governo”. Durante o carnaval, há toda uma encenação em que se desmancham as subordinações – os pobres vestem ricas e escandalosas fantasias tomando o lugar da elite –, em que há outras inversões de papéis – homens travestindo-se de mulheres e vice-versa — e a celebração da abundância – de riqueza, de brilho, de música, de dança, de energia – em contraposição à rotina e à austeridade. Voltando à Bakhtín: “É a violação do que é comum e geralmente aceito; é a vida deslocada do seu curso habitual”.

Evandro Oliveira / PMPA
Evandro Oliveira / PMPA

A Igreja Católica defendeu por muitos anos que a festa surgiu a partir da implantação da Semana Santa, no século XI. A Semana Santa ou, mais exatamente, a Sexta-feira Santa, é antecedida pela Quaresma, período de 40 dias que começa exatamente na Quarta-feira de Cinzas. A Quaresma seria um longo período voltado à reflexão e onde os cristãos se recolheriam em orações e penitências a fim de preparar o espírito para a chegada do Cristo ressurreto. Mas, antes, festa total! O longo período de privações teria incentivado as festividades nos dias anteriores à Quarta-feira de Cinzas. A palavra “carnaval” estaria também relacionada à ideia dos prazeres da carne e a etimologia vem a nosso auxílio: carnaval deriva da expressão carnis valles, carnis significa “carne” em latim e valles significa “prazeres”. Então, se há a devoção a Cristo, antes há a devoção aos prazeres da carne. E não é nada de espantar a nudez das pessoas durante o período…

A passagem de uma data para outra, do Carnaval para Quaresma na Quarta-feira de Cinzas, foi tema para o grande Pieter Bruegel, o Velho (1525-1569) no quadro A Luta entre o Carnaval e a Quaresma (1559), onde são mostrados dois grupos frente a frente, o dos penitentes e o carnavalesco. É curioso notar que a genial gravura confronta dois grupos diversos e não uma mudança de postura das mesmas pessoas. Se há realismo no quadro do flamengo, havia dois grupos, o dos festeiros e o dos religiosos. À direita, vem o grupo de religiosos; à esquerda, o de carnavalescos.

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Acima, ‘A luta entre o carnaval e a Quaresma’, obra de Pieter Brueghel, O Velho. Clique na imagem para ampliar.

O dia anterior ao fim do Carnaval é a Terça-feira Gorda, em francês Mardi Gras, nome do Carnaval de New Orleans.

No Brasil e em todo o mundo onde há Carnaval, são verificadas características das manifestações antigas. O que são os trios elétricos senão cortejos que carregam milhares de pessoas que cantam, dançam e bebem numa verdadeira celebração dionisíaca? O que é o desnudamento aliado à luxúria, garantindo um cenário altamente propício à liberdade sexual, senão o clima tão bem descrito em Concerto Barroco, romance histórico do cubano Alejo Carpentier que se passa na Veneza de Vivaldi (no início do século XVIII)? Tais excessos, que normalmente acabavam em grandes orgias eram condenados pela Igreja, mas arrebatavam a nobreza. Bakhtín chama de “realismo grotesco” tal conjugação de materialidade e corpo, onde as satisfações carnais (comida, bebida e sexo) têm lugar de destaque.

Ramiro Furquim / Sul21
Ramiro Furquim / Sul21

Apesar da Quaresma ser quase desconhecida e pouco sentida em nossos dias, a catarse coletiva, o exagero e os efêmeros dias de festa contínua seguem e certamente seguirão por séculos. Na “sociedade do espetáculo”, como diria Guy Debord, o Carnaval se transforma em desfiles monumentais transmitidos pela TV, onde o que se vê é ainda o exagero, a troca de papéis e as alegorias e paródias que vêm desde há 10.000 anos, quando os homens afastavam os maus espíritos de suas plantações através de máscaras. A catarse atual não ocorre depois do longo inverno do hemisfério norte, nem é causada pela perspectiva de um longo período de penitência, mas é a data estabelecida no imaginário popular como a do verdadeiro início do ano, depois da qual tudo volta ao normal, entronizando finalmente o cotidiano que reina pelo resto do ano. Muito pensadores marxistas veem o carnaval como uma válvula de escape para as tensões do cotidiano, permitida, controlada e estimulada pelos grupos dominantes a fim de, depois, manipular e reforçar a ordem vigente, mas não sejamos tão revanchistas no dia de hoje. Dioniso não ficaria feliz.

Londres, 20 de fevereiro: British Museum e Wigmore Hall

Londres, 20 de fevereiro: British Museum e Wigmore Hall

Nós estávamos indo para o British Museum. Pegamos o metrô até Russel Square Station. A Elena sentou-se ao lado de um rapaz provavelmente de Punjab. Ele estava super sério, parecia estar rezando. De longe, não dava para notar se o que ele tinha em ambas as mãos era um livro de orações ou outra coisa sagrada, tal era a devoção com que segurava o objeto de leitura ou observação.

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Quando Elena sentou ao lado do cara, deu uma olhadela e viu o que era. Ele estava entretido com um joguinho do iPhone onde passavam legumes. Ele eliminava tomates e cenouras, a coisa mais linda. Eu compreendo o moço — é complicado ser fundamentalista Sikh no mundo ocidental. Um dia, o cara escorrega e é visto com algo bem vulgar nas mãos, apesar da  cara de quem só pensa na salvação.

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A estação de Russel Square é da mais profundas, mas lembro que eu e a Bárbara subimos os…

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… 175 degraus — correspondentes a 15 andares — em fevereiro de 2013. Não lembro o motivo pelo qual fizemos isso, mas não pense que vivemos em academias e outros que tais.

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O British Museum foi fundado em 7 de junho de 1753. Sua coleção permanente inclui peças como a Pedra de Roseta e os frisos do Partenon de Atenas, conhecidos como a coleção de mármores de Elgin. Ao todo, o Museu abriga milhões de itens expostos. É claro que aquilo lá é tudo pilhagem muito bem apresentada e catalogada. Há alguma irritação de quem foi roubado, claro.

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Por exemplo, desde 1980, o governo grego vem tentando reaver peças do Partenon que foram roubadas por ingleses e que compõem o acervo do Museu. A disputa gira principalmente em torno dos mármores de Elgin. Na esperança de tê-los de volta, os gregos construíram uma grande estrutura no sopé da acrópole para receber as peças. Estão esperando até agora, sentados. A rapinagem também foi enorme no Egito. Eu não sei como eles trouxeram as imensas peças romanas, gregas e egípcias que há no Museu, mas afirmo que são ladrões sensacionais. Tanto que o interior do British pode ser visto no filme O retorno da múmia.

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Acima, o centro do museu, reformado em 2000. É a maior praça coberta da Europa. Ela ocupa o espaço central do prédio, ao redor do The Reading Room. Pois bem, a gente estava numa das salas, admirando as coisas boquiabertos, quando começou a tocar uma sirene acompanhada de vozes tonitruantes dizendo para evacuar o prédio. Era um aviso de incêndio. Escolado por anos de futebol, não acompanhei a massa, até porque Cadê o cheiro de queimado, cadê a fumaça? Meu nariz detectou apenas excesso de zelo. O alarme, altíssimo, repetia-se sem parar. Mandava todo mundo embora. Crianças choravam, aquelas vidas ceifadas precocemente, que triste.

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Aí, o aviso mudou: dizia, ainda repetidamente, para que a gente ficasse parado onde estava, mas o bando de malucos só queria saber da porta. Disse para a Elena que, se alguma coisa explodisse era melhor estar longe dali (da porta). Acabaríamos pisoteados.

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Ficamos juntinhos, numa posição de inteiro conforto, agradabilíssima, na verdade. Dei-lhe beijos e mais beijos. Anunciava sempre que o próximo beijo teria que ser muito bem dado, pois poderia ser o último. Trocamos abraços com o mesmo espírito. A coisa estava esquentando quando tudo parou. Olhamos para os lados e… O British era quase propriedade exclusiva nossa.

Por 15 minutos, claro. Depois, veio uma multidão sem a menor noção do sofrimento pelo qual passamos. Gente insensível, credo!

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O British é impressionante, mas ao lado da admiração por peças de notável significado histórico, meu espírito zombeteiro fez com que eu só fotografasse curiosidades. A peça acima é uma máquina automática de fazer chá. Sim, uma Automatic tea-maker alarm dos anos 70. Olhando agora, não vejo mais graça, talvez fosse efeito da tensão.

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Quando Elena viu esta pequena e belíssima peça, logo observou: o Brasil já exporta havaianas há dois mil anos. Correto.

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(Tradução: Vênus perde suas havaianas enquanto sua capa voa com o vento).

(continua)

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Porque hoje é sábado, A Grande Beleza de Sabrina Ferilli

Porque hoje é sábado, A Grande Beleza de Sabrina Ferilli

Em 2010, nosso radar já tinha detectado a presença de Sabrina Ferilli em Roma

(ver os comentários deste post, abaixo).

Mas agora, com a obra-prima A Grande Beleza, seu retorno ao PHES

torna-se imperativo.

Torcedora da Roma e um dos símbolos vivos

de uma cidade que é um museu a céu aberto,

Sabrina, de 49 anos, aparece luminosa no filme de Paolo Sorrentino.

Filha de um ex-presidente do Partido Comunista italiano no Conselho Regional do Lazio,

Sabrina nunca manteve em segredo o fato de ser progressista.

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E, desde que conseguiu um papel no filme de Alessandro D’Alatri Americano Rosso,

sua presença jamais parou de crescer.

E agora chega ao auge com um filme absolutamente fora do comum, extraordinário,

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1º de fevereiro: Roma e uma pequena aventura em Londres

Dia complicado e cansativo, nossa! Eu e minha filha Bárbara tínhamos saído de Porto Alegre no dia 31. Neste dia tivemos que chegar ao aeroporto cedo, muito cedo, a pedido da Casamundi. Acho que foi excesso de zelo, mas tudo bem, melhor o excesso do que a falta. De Porto Alegre, fomos ao Rio de Janeiro e de lá saímos para Roma pela Alitalia. Não é que estivesse quente dentro do avião, é que era o verdadeiro inferno. A Bárbara mal dormiu, eu consegui umas duas horas de sono. Queria tirar a camiseta que usava e ficar sem camisa, mas temia que aqueles italianos — incrivelmente de terno — me jogassem para fora do avião.

Chegamos a Roma 40 minutos antes do horário previsto. E demos graças ao Diabo pela franquia destes preciosos minutos. A sugestão de pegarmos o serviço de ônibus da TerraVision revelou-se sensacional. Pegamos o ônibus antes do previsto e a viagem de Fiumicino a Roma foi absolutamente rápida e confortável. Chegamos a Cidade Eterna pelas 8h da manhã e, talvez pela raiva pela péssima noite, resolvemos fazer um turismo doido. Saímos do terminal de ônibus da via Marsala e decidimos: vamos fazer todos os principais monumentos a pé. E começamos a infantaria: Coliseu, Piazza Navona, Fontana de Trevi, Panteon, Vittorio Emmanuelle (aquela máquina de escrever horrível) e ainda fomos ao Musei Capitolini, que eu desconhecia e ao qual fui indicado pela Bárbara. Valeu muito a pena.

O resultado de alguns quilômetros de caminhada e de alguns equívocos de percurso, mais a noite mal dormida, foi um enorme cansaço. Além disso, a Babi estava com as pernas doloridas e eu com dor nos pés… Mas chegamos de volta à via Marsala e depois ao aeroporto de Fiumicino. O voo para Londres — novamente pela Alitalia — foi também a uma temperatura de banho, mas sem água.

Londres começou com uma missão ao estilo 007, só que jamais a imaginávamos. Chegamos no horário previsto das 23h05, mas a imigração, as malas e o enorme aeroporto fizeram com que nós ficássemos liberados quase à meia-noite. Quando perguntei pelo serviço de trem que nos levaria a Paddington Station, fiquei sabendo que este não existia mais, mas que poderia ir a Earl`s Court, local de nosso hotel, de modo muito mais tranquilo, pelo metrô, que aqui é chamado simpaticamente de Underground para diferenciar dos outros trens. Melhor ainda, não? Claro, só que eram 23h57 e o último trem sairia de Heathrow às 24h. Até agora não sei como conseguimos correr até o guichê automático — pois não havia mais atendentes na estação –, enfiamos o cartão Diners na máquina que cuspiu duas passagens e entramos a tempo no trem. Não sei. Só sei que um funcionário do metrô se compadeceu de nós e não apenas operou o equipamento como abriu todas as cancelas até a porta do trem. Isto é, compramos as passagens, mas não as utilizamos. Sim, estamos entre polite, and very good people. Se não fosse a política externa deles…

Então, aí vai a nossa segunda dica — a primeira foi a TerraVision: nunca chegue tão tarde a Londres, a não ser que queira gastar os tubos com um táxi de Heathrow até a cidade.

A 1h da madrugada estávamos chegando ao fim de nossa longa viagem: entrando no easyHotel, hotelzinho de quartos diminutos, mas de preço muito bom, daqui em Earl`s Court. Olha, nunca um banho foi tão libertador.

A Bárbara ornamentada por uma lasca de Coliseu.
As lojas de moda eclesiástica. Presenteie seu padre preferido.
Essa foto deu certo, né? É do teto do Panteon.
O Panteon por fora.
Jornalismo Sul21; protesto dos funcionários da RAI. Eles estão amordaçados, mas um deles ainda fala.
E como!
Sem Anita Ekberg e com demasiada luz.
O que é IMU?
Olhei, olhei e não sei como o cara fica ali. Não há fios, nada.

Férias

Estarei em viagem entre os dias 31 de janeiro e 19 de fevereiro. Vou dar uma volta com a Bárbara. Acho estranho viajar só com minha filha e lamento muito o fato de que meu filho Bernardo chegue de sua longuíssima turnê pela América do Sul — está fora desde 20 de dezembro — apenas no dia primeiro, o que fará com que eu fique dois meses sem vê-lo, algo inédito desde o dia 4 de janeiro de 1991.

Os acontecimentos de Santa Maria também influenciam. Nunca vi tamanha comoção, nem um prefeito tão anão frente a ela. O caso é para pedir renúncia, mas talvez ele jamais se dê conta disso.

Imaginem que nem olhei a programação de concertos em Londres, cidade onde há ingressos de todos os tipos e dá acesso à cultura como nenhuma outra que conheço.

Vou levar um netbook. Não é dos melhores, mas deve servir para que eu deixe aqui algumas fotos e comentários para meus sete leitores durante o período. Como dizia nosso amigo, Dr. Herbert Caro, vamos fugir da canícula em Roma (2 dias), Londres (12 dias) e Praga (4 dias), tudo por obra das milhas de minha cara-metade e do booking.com, onde reservamos alguns hotéis bem em conta.

Praga é assim, dizem.

Três horas a mais, duas a menos

Primeiro, uma viajou terça-feira para Roma. Agora, deixei os guris no aeroporto; vão para Havana trabalhar nas Brigadas Internacionais. Trabalhar… O trabalho é leve e depois ele vão ficar flanando como personagens de Flaubert (lembrança dos flâneur) pela capital e Matanzas.

A viagem de uma começou complicada. Antecipou sua passagem em um dia a fim de ver o Concerto (sim, com cê maiúsculo!) comemorativo aos 70 anos de Maurizio Pollini. Só que a Gol atrasou-se e ela perdeu a conexão da Alitalia em Guarulhos. De dentro do avião da Gol, viu o avião onde devia estar fechar suas portas. Passou um dia num hotel da periferia de São Paulo, pensando no grande pianista e no fato de ter comprado a peso de ouro o último ingresso disponível. Acaba de entrar no Facebook. Eram 10h50 e estava 1 grau em Roma. Boa temperatura para a rodada de exposições que pretende fazer: O’Keefe, Mondrian e McCurry. Que sofrimento. Ela vai numa reunião do PD, Partito Democratico, volta na terça, dia 24.

Meio atrapalhados e com excesso de coisas pessoais nas malas, em minha opinião, os guris foram para Cuba hoje pela manhã. Acordei às 5h para levá-los. A Bárbara (17) diz que não dormiu, o Bernardo (21) adormece fácil, mas foi ele quem me despertou para dizer que não achava o café. Vão doar um monte de coisas e espero que comprem bastante livros, pois em Cuba eles são quase dados. Também vão se surpreender pelo fato dos cubanos saberem muito sobre a história latino-americana do que 99% dos brasileiros. Quem vai ao país volta apaixonado pelos cubanos. Também vão a Isla de la Juventud, que dizem ser uma coisa de louco. Voltam dia 11 de fevereiro. Dilma chegará ao país no dia 31, se não me engano. É uma invasão.

Fico por aqui. Não sei se estou triste de ficar ou se estou cansado. Tenho trabalhado demais e com uns horários meio loucos. É da vida.

P.S. — Ah, a Lia, a vizinha, também viajou com seu filho para o Rio de Janeiro. Tô só com a Juno e a Vicentina. O título do post poderia ser Minha vida como caseiro.

O genial Renato Portaluppi

Colorado, quando alguém disser que Renato jogava mais do que Falcão ou que Cristiano Ronaldo, basta você invocar as atuações de Portaluppi na seleção brasileira e na Itália. Abaixo, sua história italiana. Ele tentou 614 dribles na Roma, conseguiu finalizar 7. Fez zero (0) gols em 23 jogos. Foi corrido de lá. Divirtam-se.

Tu podes mentir nas entrevistas, mas aí vêm as imagens e...
Tu podes mentir nas entrevistas, mas aí vêm as imagens e…

Relato de uma Viagem à Itália (II)

Pegamos o vôo para Roma pela Ibéria, já acostumados ao mau tratamento e aos atrasos da empresa. Chegamos às 22h ao aeroporto de Fiumicino e o amigo da Claudia, Mario De Cristoforo, já estava nos esperando. Ele me perguntou se eu já conhecia Roma e, ouvindo minha resposta negativa, propôs a seu colega Pedro, que dirigia o carro, um rápido tour pela cidade. Senti-me protagonizando a cena final de Roma de Fellini, na qual um grupo de motociclistas percorrem alucinadamente a cidade, passando — e não poderia ser diferente, porque a cidade é um museu a céu aberto — por vários de seus monumentos históricos. Vimos o Altar de Pátria, o qual foi descrito por Pedro como um horror criado por Mussolini (verdade); paramos em frente ao Coliseu, muito bonito e fantasmagórico à noite; e vi ruínas, ruínas, ruínas por todo o lado, as quais vão sendo sistematicamente cuidadas, recolhidas e remontadas. Percorrendo Roma de carro, à noite, certamente estava despejando ohs! e ahs! para todo o lado, nem que fosse em silêncio.

Ficamos insuficientes 4 dias na cidade. A chuva, aquela que costuma me acompanhar e que desta vez até transformou-se em neve, esteve sempre presente em Roma, mas não nos impediu de passar todo o tempo fora de casa. Penso que o ponto alto foram as caminhadas pelas ruelas da cidade histórica, com o ambiente barulhento e desorganizado em torno de nós e as surpresas que aconteciam a cada virada de esquina. Deixando de lado o mapa, tínhamos a possibilidade de ver uma Piazza Navona, uma Fontana di Trevi, o bairro judeu, uma pequena piazza ou apenas mais uma rua ao fazermos uma curva. Se tivesse que eleger o que mais gostei em Roma, ficaria com suas ruas, depois com o Pantheon, a Fontana di Trevi, a Piazza Navona, a Piazza di Spagna ligada à Scalinata della Trinità dei Monti, o Caffè Greco, os estupendos Musei Vaticani, a estranha imensidão do Circo Massimo com seus atletas de fim de semana e o mercadão dominical de Porta Portese. Também adorei as pequenas igrejas da Via del Corso, os notáveis afrescos de Santa Maria del Popolo na Piazza del Popolo e mais vinte outras que esqueci os nomes.

As decepções foram a Catedral de São Pedro, uma ostentação medonha que parece existir mais com a intenção de oprimir os pobres seres humanos com o poder da igreja do que ser um local de devoção e fé. Sinceramente, a Catedral do Papa pareceu-me destinada a arrancar exclamações de turistas deslumbrados. A mim, causou um pouco de medo e fantasias rápidas de inquisição. Também fiquei desiludido ao ver a chocha expressividade perfeita da Pietà – esperava algo com a intensidade da clássica cena de Bergman em Gritos e Sussurros e vi apenas algo impecável, perdido na riqueza da Catedral. E voltando ao Altar da Pátria (Altare della Patria)… aquilo é um trambolho imenso, heróico e mussoliniano a estragar a paisagem, só tornando-se interessante de longe, quando não se vê seus detalhes.

Comemos sempre muito bem. Se íamos fazer economia nas pizzeria al taglio, o resultado era maravilhoso; se íamos gastar numa gelateria das piazze, experimentávamos o melhor dos sorvetes; se estávamos congelando e entrávamos num caffè ou numa cioccolateria, tínhamos vontade de passar lá o resto da tarde, lendo, bebendo e conversando. É natural que a comida italiana seja melhor na Itália, não? As pizza al taglio deles – que ficam atrás de vitrines acompanhadas de atendentes apressadas e simpáticas, sempre querendo nos cortar pedaços muito maiores do que o solicitado — poderiam ser servidas, com vantagem, nas melhores pizzarias brasileiras. Uma questão de qualidade dos ingredientes, explicava-me a Claudia.

Gastamos muito e bem em Roma. Há coisa barata e boa fora do circuito Helena Rubinstein; deveríamos ter viajado com a mala vazia para enchê-la com roupas de inverno na Itália. Os eletrônicos de pequeno porte também são acessíveis. Comprei um Walkman com CD, MP3, etc. por 39 euros. Tinha I-Pods a partir de 50 euros. Por que o mesmo Walkman custa R$ 300,00 no Brasil? Já os CDs são caros, principalmente para alguém financeiramente contido como eu, mas há honestos balcões de ofertas que me fizeram comprar uns 20 de primeira linha, sem cometer suicídio financeiro. Os livros também são muito acessíveis. O que é caro é a comida, as lojas para turistas e a hospedagem.

Depois destes 4 dias de caminhadas malucas, fomos para Verona de carro, com o casal Marisa Machado e Mario De Cristoforo, amigos da Claudia, como já disse. Mas isso fica para um próximo post. Finalizo Roma com fotos.

Escultura de Arnaldo Pomodoro na parte interna dos Museus do Vaticano, adornada pelo brinco da Claudia (lado direito da foto).

Os museus do Vaticano têm um acervo artístico interminável, seja em obras sacras, seja em profanas, afrescos, etc. De quebra, ainda temos a insuperável Cappella Sistina e os aposentos de Rafael, etc. Compreensivelmente, as fotografias são proibidas, mas não aqui, neste corredor bloqueado.

Caffè Greco: local onde pobres mortais podem alimentar-se acomodados em salas antes frequentadas por gentalha como Goethe e Byron.

O Coliseu: o cartão postal é uma ruína mais bonita por fora do que por dentro. A Arena de Verona, apesar de menor, é mais interessante.

Mesmo sem Anita Ekberg e com um frio do cão, a Fontana di Trevi é belíssima.

Do outro lado, o Imperador; deste lado, o povo; no meio, corridas de bigas e outras competições. Hoje, apenas atletas de fim de semana com seus abrigos e Nikes.

A escadaria da Trinità dei Monti com a Piazza di Spagna lá embaixo. Procurei em vão a janela utilizada por Bertolucci em Assédio. Acho que foi montagem…

Chamem a Inquisição! Perdoem-me, mas penso que a Pietà montada por Bergman em Gritos e Sussurros era tão intensa que olhei para aquela coisa toda perfeitinha  e achei sem nenhuma alma… Esperava muito mais. Pietà por Pietà, fico com esta, muito mais humana.

Não pensem que vou só ficar falando mal de Michelangelo por aí… Vale o torcicolo ficar admirando esta pequena parte do teto da Cappella Sistina. Melhor sentar ao fundo da Cappella para olhar. Mesmo assim, saí com o pescoço duro. A Sistina é o ponto alto dos Musei Vaticani e, mesmo que estejamos acompanhados por centenas de turistas, observá-la é uma experiência inteiramente individual que nos leva aos céus e nos traz de volta várias vezes. É Bach em pintura.