Jorge Amado: os 100 anos do mais popular ficcionista brasileiro

Publicado em 11 de agosto de 2012 no Sul21

“Trabalho sempre, quando escrevo e quando não escrevo. Creio que o trabalho do escritor se processa mais fundo e denso enquanto ele está aparentemente ocioso. Quando amadurece o que escreverá depois. Acordo todos os dias entre 5 e 6 da manhã. E trabalho”. | Foto: Fundação Jorge Amado

Faz tempo que Jorge Amado (1912-2001) foi praticamente abandonado pela academia, que parece considerá-lo um escritor inferior, popularesco, regional ou meramente folclórico. Nos últimos anos, porém, houve algum movimento no sentido de recuperar a obra do escritor baiano. A Flip homenageou-o em 2006 e, em 2012 —  ano dedicado à Drummond — , ocorreram eventos oficiais e paralelos onde se discutiu a obra do baiano. Por outro lado, nesta sexta-feira, dia 10 de agosto, quando Jorge Amado completou 100 anos de nascimento, a academia foi acompanhada pelos principais jornais brasileiros, que publicaram poucos e tímidos artigos, ao menos no papel.

O deputado constituinte Jorga Amado | Foto: Fundação Jorge Amado

Jorge Amado foi o mais popular dos escritores brasileiros, sendo também o mais conhecido e lido no exterior em sua época. Hoje, este posto é ocupado por Paulo Coelho, mas ainda seria de Jorge Amado se nos limitássemos à literatura de ficção. Em sua época, Amado dividiu o posto de “escritor mais lido do Brasil” com Erico Verissimo (1905-1975). Eram outros tempos, tempos em que o escritor era ouvido sobre os mais diversos assuntos e ocupava uma posição de consciência ética do país. Houve um processo silencioso em todos estes anos: a importância do escritor dentro da sociedade foi levada para uma posição secundária, ele foi deslocado pouco a pouco para a periferia. Amado e Erico participaram ou opinaram sobre todos os assuntos fundamentais da vida nacional. Ambos testemunharam e participaram dos principais fatos de suas épocas. Se Erico falou e escreveu muito contra a ditadura militar (1964-1985), Amado foi deputado constituinte em 1945 pelo PCB e, em função de suas atividades extraliterárias, viveu exilado na Argentina e no Uruguai (1941 a 1942), em Paris (1948 a 1950) e em Praga (1951 a 1952). É difícil imaginar algum ficcionista ou autor de auto-ajuda brasileiro indo para o exílio, na hipótese demencial da implantação de uma ditadura militar hoje no país.

Com a atriz Sônia Braga, que personificou Gabriela e Dona Flor | Foto: Fundação Jorge Amado

Após o período como deputado, Jorge Amado viveu exclusivamente dos direitos autorais de seus livros. Aliás, mesmo durante o período como deputado, ele doava 80% de seu salário para o Partidão.

Sua obra transcendeu os limites do regionalismo modernista a que foi ligada num primeiro momento. Como escritor, pode-se dizer que houve dois Amados: a separação entre ambos seria Gabriela Cravo e Canela (1958). O primeiro Amado dedicava-se mais aos romances de costumes e à  crítica social e o segundo dava mais atenção ao humor popular, ao sincretismo religioso e à sensualidade. Tal fronteira não é rígida, mas não deixa de ser verdadeira. Em comum entre as fases está um narrador envolvente e extremamente hábil ao construir personagens e tramas. E também o fato de as duas fases apresentarem grandes romances.

A fase pré-1958, por exemplo, tem romances como o excelente Capitães da Areia (1937). Dentro de uma divertida trama baseada na vida de menores abandonados de Salvador, o romance expõe as diferenças de classe, a concentração de renda e os efeitos da marginalidade nos jovens. E pasmem, o romance, hoje lido sem maiores sustos, teve mil exemplares queimados em praça pública pelo governo da Bahia sob a acusação de ser uma obra “comunista” e “nociva à sociedade”. O livro também teve cópias apreendidas em outros estados. Outro imenso romance da primeira fase foi Terras do sem-fim (1943) que conta uma história sobre fazendeiros-coronéis, jagunços e sobre lutas pela posse de terras para desmatar e plantar cacau.

O PCB reúne-se: Amado com Pablo Neruda e Luís Carlos Prestes | Foto: Fundação Jorge Amado

Nestes livros, há a revelação de uma sociedade injusta, baseada na lei do mais rico ou armado, nas mentiras sociais e na hipocrisia geral. Pensando que foram escritos num período nada democrático, às portas do Estado Novo, Jorge Amado demonstra coragem ao criar personagens tão verossímeis, violentos e dispostos ao diálogo quanto quaisquer ditadores.

Em 1951, Amado escreveu O Mundo da Paz. É um livro de viagens que depois foi  renegado pelo autor. É compreensível; afinal, há trechos como aquele onde ele afirma que Stálin é “mestre, guia e pai, o maior cientista do mundo de hoje, o maior estadista, o maior general, aquilo que de melhor a humanidade produziu”. Em entrevista para Geneton Moraes Neto, nos anos 90, durante o colapso do comunismo nos países do leste europeu, Amado confessou: “Eu me desorientei – e muito – quando descobri que Stálin não era o pai dos povos, ao contrário do que sempre pensei. Aquele foi um processo doloroso, difícil, cruel e demorado. A maioria das causas dos acontecimentos atuais talvez já fossem claras para mim. Mas os acontecimentos são de uma rapidez imensa”.

Com o filósofo Jean-Paul Sartre e um cacau | Foto: Fundação Jorge Amado

Os livros da primeira fase, assim como os da segunda, são romances de estruturas semelhantes e para serem lidos com disposição pantagruélica: engole-se com o maior dos interesses a história contada e esquece-se dos expedientes de linguagem. Funcionam muito bem desta forma. Em Jorge Amado, a forma contribui para contar a história da forma mais eficiente possível e, de resto, esconde-se.

A fase pós-1958 marca seus maiores sucessos: o citado Gabriela, cravo e canela, Dona Flor e seus dois maridos (1966), Teresa Batista cansada de guerra (1972), Tieta do Agreste (1977) e Tocaia Grande (1984). A popularidade do escritor pode ser medida pelo simples fato de todos os livros citados neste parágrafo terem se tornado novelas de TV, seja na Rede Globo ou na extinta TV Manchete. Há também os filmes. Basta dizer que Dona Flor e seus dois maridos foi por 34 anos o recordista de público no cinema brasileiro: foram 10 milhões de espectadores, até ser ultrapassado por Tropa de Elite 2 em 2010.

Um livro especialmente interessante são suas memórias em Navegação de cabotagem (1992). No texto são desfiados diversos casos e fatos, narrados com delicioso humor e fora de ordem cronológica. Fica a comprovação de que Jorge Amado testemunhou grandes acontecimentos do século XX e que, em sua trajetória pessoal, desempenhou um papel central na cultura brasileira. Por outro lado, é o mais despretensioso dos livros de memórias, abrangendo desorganizadamente o longo período entre meados da década de 20, do qual Jorge Amado recorda o ciclo do cacau e o movimento da Academia dos Rebeldes (grupo literário do qual fez parte na juventude), e o começo dos anos 90.

Na leitura dos livros de Jorge Amado, sempre é bom manter a disciplina da leitura. As primeiras páginas são dedicadas a uma balzaquiana apresentação de personagens e da trama. Após este obstáculo, a leitura envolve e emociona. Quando perguntado sobre como gostaria de ser lembrado, Jorge Amado respondia:  “Como um baiano romântico e sensual. Eu me pareço com meus personagens — às vezes, também com as mulheres”. Amado costumava fazer pouco de sua importância. Em 1991, disse: “Quando eu morrer, vou passar uns vinte anos esquecido”.

O velhos comunistas Amado e Saramago | Foto: Fundação Jorge Amado

.oOo.

“Vou passar uns vinte anos esquecido” | Foto: Fundação Jorge Amado

Bibliografia completa:

— O País do Carnaval, romance (1930)
— Cacau, romance (1933)
— Suor, romance (1934)
— Jubiabá, romance (1935)
— Mar morto, romance (1936)
— Capitães da areia, romance (1937)
— A estrada do mar, poesia (1938)
— ABC de Castro Alves, biografia (1941)
— O cavaleiro da esperança, biografia (1942)
— Terras do Sem-Fim, romance (1943)
— São Jorge dos Ilhéus, romance (1944)
— Bahia de Todos os Santos, guia (1945)
— Seara vermelha, romance (1946)
— O amor do soldado, teatro (1947)
— O mundo da paz, viagens (1951)
— Os subterrâneos da liberdade, romance (1954)
— Gabriela, cravo e canela, romance (1958)
— A morte e a morte de Quincas Berro d’Água, romance (1961)
— Os velhos marinheiros ou o capitão de longo curso, romance (1961)
— Os pastores da noite, romance (1964)
— O Compadre de Ogum, romance (1964)
— Dona Flor e Seus Dois Maridos, romance (1966)
— Tenda dos milagres, romance (1969)
— Teresa Batista cansada de guerra, romance (1972)
— O gato Malhado e a andorinha Sinhá, historieta infanto-juvenil (1976)
— Tieta do Agreste, romance (1977)
— Farda, fardão, camisola de dormir, romance (1979)
— Do recente milagre dos pássaros, contos (1979)
— O menino grapiúna, memórias (1982)
— A bola e o goleiro, literatura infantil (1984)
— Tocaia grande, romance (1984)
— O sumiço da santa, romance (1988)
— Navegação de cabotagem, memórias (1992)
— A descoberta da América pelos turcos, romance (1994)
— O milagre dos pássaros , fábula (1997)
— Hora da Guerra, crônicas (2008)

Terras do Sem Fim, de Jorge Amado

É estranho reler Jorge Amado depois de mais trinta anos. Não deixa de ser um retorno ao Colégio Júlio de Castilhos e a suas “leituras obrigatórias”. Nós, gaúchos meio ou menos bairristas, sempre tivemos problemas com o baiano. Naqueles anos, havia dois escritores que conseguiam viver de seus livros no Brasil: Jorge Amado e Erico Verissimo. Sendo Verissimo gaúcho de Cruz Alta — terra de minha mãe, que o conheceu –, sempre fazíamos seu elogio à custa de críticas ao baiano. Pura bobagem. Não obstante, éramos obrigados a ler dois de seus romances para o colégio: Gabriela Cravo e Canela e Dona Flor e Seus Dois Maridos. Claro, estes romances, nos anos 70, quando comparados à produção de Erico daquela época – Incidente em Antares, O Senhor Embaixador e os dois autobiográficos Solo de Clarineta, fazia com que Jorge parecesse um escritor folclórico, malemolente e brejeiro, de menor importância. Como resultado, acabávamos nos afastando dele.

Houve várias tentativas de reavaliar — sempre para melhor — a obra de Jorge Amado. A última vez foi uma Flip (2006?). Foi com este espírito que abri Terras do Sem Fim. Logo tive uma surpresa: o romance, escrito em 1943, homenageia em dedicatória Dmitri Shostakovich, “compositor e soldado de Leningrado”. Mas as surpresas ficam por aí, pois, ao iniciar a leitura deparo-me com a frase inicial: O apito do navio era como um lamento e cortou o crepúsculo que cobria a cidade. Achei a frasezinha meio sem-vergonha e vi que ou me adaptava ou passaria maus bocados, pensando em cortar frases e expressões desnecessárias ou de gosto duvidoso. Apesar de duvidar da necessidade de recuperar Amado, mudei, passando a me ater não aos detalhes mas à trama, a fim de suportar a leitura. Ainda sublinhei diversas dessas pérolas e erros, mas não vou encher o saco de vocês nem copiar mais trechos do livro.

A postura pantagruélica de comer a história contada e esquecer a linguagem revelou-se a correta. O romance funciona muito bem dessa maneira. O capítulo em que o negro Damião fraqueja é autenticamente maravilhoso, assim como a construção de alguns personagens, como a dos coronéis combatentes, a do advogado Virgílio, a do Dr. Jessé e a do jogador “capitão” João Magalhães. A única coisa de que realmente não gostei foi do atalho que Amado percorreu para desfazer o triângulo amoroso entre o Coronel Horácio, sua mulher Ester e Virgílio. Em vez de encarar o conflito, em vez de nos colocar a interessante questão sobre quem seria mais mais importante para o violento coronel, se a mulher que amava ou o competente advogado que lhe apoiava, Amado arranja uma providencial e implacável febre que mata a mulher e o conflito. Para não ficar muito chato, o romancista volta à questão num quase epílogo, fazendo com que Horácio descubra a traição postumamente. Porém, naquela altura, o trabalho do advogado não era mais fundamental, a luta acabara. É uma covardia muito utilizada e aceita pela maioria das pessoas; prova disso é que grande parte das pessoas enterneceu-se com o filme dos caubóis (Brokeback Mountain), onde também um personagem morre justo no momento em que seu amante cobra-lhe uma solução e uma continuidade para seu caso amoroso. Detesto este gênero de expediente e isto prejudica muito o romance, em minha opinião.

Sobram uma história bem contada, uma narrativa envolvente e talvez aquilo que fosse o objetivo do comunista Jorge Amado: a denúncia das condições de vida na região do cacau. Sim, não tenho dúvidas, nisto o romance é poderoso. Mas, convenhamos, poderia ser melhor. Minha dúvida é se Erico também era tão descuidado… Acho que não.

Para finalizar, tenho que dizer três coisas que julgo importante.

1. Não sofro da sacrofobia que parece ter atingido nosso leitor e comentarista Marcos Nunes, mas também não creio que seja necessário recuperar Jorge Amado.

2. Porém, se for para demonstrar que o Brasil já teve bons romancistas vendedores de livros, se for para demonstrar nossa decadência ao eleger Yed…, ops, Paulo Coelho e a atual auto-ajuda de Lya Luft como campeões de vendas, RECUPEREM AGORA O BAIANO COM TODO MEU APOIO!

3. Certas cenas de Terras do Sem Fim são pura Rede Globo. Espero que Paulo Coelho não venha futuramente influenciar nossa televisão. Aumentaria a venda de antieméticos e de suicídios no país.