Sibelius: os 150 anos de um compositor que está na base da identidade de seu país

Sibelius: os 150 anos de um compositor que está na base da identidade de seu país
Sibelius em 1939, época de seu logo e definitivo silêncio
Sibelius em 1939, já na época de seu longo e definitivo silêncio

Publicado em 8 de dezembro de 2015 no Sul21

Os finlandeses dizem que seu país é uma mistura de sauna, sisu e Sibelius. Todos sabem o que é sauna, mas você sabe o que é sisu? A palavra está naquele grupo de difícil tradução para outros idiomas. Trata-se de uma mistura de confiança e autonomia, algo que faz com que a pessoa se veja como capaz de realizar qualquer coisa. O povo finlandês teria o tal sisu e isto faz parte do orgulho nacional. E Sibelius? Bem, Sibelius é um compositor de música erudita que é outra das bases da identidade do país. Ele teve um impacto muito maior na mentalidade finlandesa do que o meramente musical.

Por exemplo, o poema sinfônico Finlândia. A peça era um protesto contra a crescente censura do Império Russo que controlava o país no final do século XIX. Como a execução pública da peça orquestral fora proibida pelos russos, tornou-se comum trocar seu nome nos anúncios de concertos. O fato adquiriu ares de piada. A peça foi mascarada foram numerosos títulos falsos. Se anunciassem a obra Sentimentos Felizes ao Amanhecer da Primavera Finlandesa, já se sabia o que viria. Finlândia evoca a luta nacional do povo finlandês. À medida que vai chegando ao final, a música torna-se tranquila e a melodia serena do hino da Finlândia é ouvida.

Outro exemplo é a Sinfonia Nº 2. Escrita na Itália logo após a composição de Finlândia, foi um acontecimento nacional. Numa época de invasão e opressão russas, ela foi ouvida novamente como representação sonora do nacionalismo finlandês. Quando de sua estreia, foi tocada quatro vezes em oito dias, até ser proibida. Mas não se precisa saber de tudo isso para gostar dela, a música sobrevive tranquilamente sem o contexto de sua origem. Do ponto de vista atual, a música de Sibelius não transparece revolta ou orgulho nacionalista, mas de forma muito particular, deixa claro quão vasto e frio é o país.

https://youtu.be/qSp2ecoRyi8

Johan Julius Christian Sibelius, conhecido como Jean Sibelius (1865-1957) foi um dos mais populares compositores do fim do século XIX e início do XX. Ele nasceu na cidade de Hämeenlinna, então pertencente ao Império Russo, em 8 de dezembro de 1865, há 150 anos. O compositor preferia utilizar a forma francesa de seu nome, Jean.

Ele terminou o ensino médio em 1885 e começou a estudar Direito na Universidade de Helsinque, porém a música sempre foi a responsável por suas melhores notas na escola e ele logo desistiu do Direito. De 1886 a 1889, Sibelius estudou música na escola de música de Helsinque (hoje a Academia Sibelius), depois estudou em Berlim de 1889 a 1890, e em Viena de 1890 a 1891.

Sibelius fez parte de um grupo de compositores que aceitou as normas de composição do século XIX e foi muitas vezes criticado como uma figura reacionária da música clássica do século XX. Apesar das inovações da Segunda Escola de Viena, ele continuou a escrever num idioma estritamente tonal. Entretanto, sua música é profundamente criativa e nova.

Sibelius é muito diferente de seus rivais na virada do século XIX para o XX. Gustav Mahler e Richard Strauss, eram adeptos de misturar temas muito diferentes, buscando contrastes quase bipolares, enquanto Sibelius transformava lentamente seus temas. Os temas apresentados são poucos, mas estes crescem organicamente, de forma lógica e sem grandes contrastes. Este gênero de música é geralmente entendido como uma representação do país. É curioso como um compositor que admirava a severidade de estilo e a profunda lógica que ligava intimamente os temas fosse tão popular.

Sua Sinfonia Nº 7, por exemplo, é composta de quatro movimentos sem pausas, onde as variações vem do tempo e do ritmo. Sua linguagem não é nada reacionária, apesar de tonal. Sibelius dizia que, enquanto a maioria dos outros compositores estavam preocupados em oferecer coquetéis à audiência, ele oferecia água pura e gelada.

Em O resto é ruído, Alex Ross explica-nos uma parte do drama de Sibelius. Citando um texto de Milan Kundera que fala das características das pequenas nações da Europa, ele se refere ao sentimento de isolamento que os heróis nacionais dessas pequenas nações podem sentir. Todos sabem tudo sobre eles, não havendo espaço para o erro. Isto pode ser uma pressão insuportável. A vida de Sibelius era um pouco pior. Sem espaço para erros na Finlândia, considerado um gênio nos EUA, o finlandês ressentia-se da recepção altamente negativa de seus trabalhos no resto da Europa. Alguns chamavam Sibelius de “o pior compositor de todos os tempos”, apesar de Richard Strauss ter admitido que sua produção era inferior a do finlandês.

Há dois tipos de composição onde Sibelius focou o seu talento: o poema sinfônico e a sinfonia. Mas há duas peças célebres fora do foco principal. Obviamente, estamos falando da belíssima Valsa Triste

… e do espetacular Concerto para violino e orquestra, obra excepcionalmente melódica e virtuosística.

No que diz respeito ao poema sinfônico, foi neste tipo de composição em que uma boa parte da identidade finlandesa se fixou. Não só porque Sibelius soube capturar musicalmente o espírito finlandês — indo buscar elementos no folclore, técnica na qual precedeu Bartók, Kodály e Stravinsky –, como também soube encontrar a poética adequada que o fixou definitivamente como o representante nacional. Há várias destas composições, Tapiola parece ser a melhor….

e Karelia, a mais divertida.

https://youtu.be/2FJIy3UirHA

No que diz respeito às sinfonias, Sibelius procurava em cada uma delas basear-se na anterior, melhorando-a. É conhecido o fato de Sibelius ter destruído a sua 8ª Sinfonia — aquela que deveria resumir e dar um passo adiante em relação à sétima — depois de anos de tentativas e de ter por várias vezes prometido mostrá-la a seus fãs americanos. Mas a oitava nunca apareceu.

Como dissemos, as avaliações de Sibelius eram controvertidas. De um lado, o mundo anglófono — a Inglaterra e os Estados Unidos — consideravam suas sinfonias como monumentos de nossa época. Por outro lado, a Europa continental, principalmente os alemães, acusavam-no de ser um passadista medíocre, que não teve a coragem de fazer avançar a linguagem musical de seu tempo, permanecendo numa zona de conforto que lhe proporcionou popularidade.

Assim, para Olin Downes, o influente crítico do jornal The New York Times, e a opinião pública anglófona, Sibelius tinha lugar garantido entre os grandes sinfonistas do século ao lado do russo Dmitri Shostakovich. De outro lado, o mais influente crítico musical da vanguarda, Theodor Adorno, simplesmente considerava Sibelius o pior compositor do mundo.

Sibelius aos 30 anos
Sibelius aos 30 anos

Hoje, a 150 anos de distância de seu nascimento e a 58 de sua morte, já possuímos distância histórica suficiente para avaliá-lo tão somente pela qualidade de sua música, ignorando os critérios estético-ideológicos. E o que se vê é, sim, um dos mais importantes sinfonistas do século 20. Suas sete obras neste gênero possuem uma lógica interna implacável.

Mahler foi um dos “culpados” ao escrever que considerava o finlandês um compositor provinciano.

sibeliuksen-maailma_www_bertil-dahlgrenSímbolo nacional e figura artística mundial, Sibelius parou subitamente de compor em 1927. Ele passou os trinta anos seguintes no mais completo silêncio criativo, recolhido a sua casa encravada numa floresta finlandesa e à qual de Ainola em homenagem a sua mulher.

Sibelius viveu 92 anos. O alcoolismo certamente contribuiu para o bloqueio criativo de 30 anos. Sua última aparição pública como maestro foi desastrosa — ele estava completamente bêbado. Mas, como imagina o escritor inglês Julian Barnes no conto O Silêncio (editado em 2006 no Brasil pela Rocco no livro Um toque de limão), o compositor, sentado diante de uma garrafa de vodca, deve ter proclamado a vitória. “Hoje, sou tão famoso por meu longo silêncio quanto o fui por minha música”.

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Fontes:
Jean Sibelius: os sons nórdicos de um dos maiores compositores do século passado
Jean Sibelius
Jean Sibelius (1865-1957)

A Ospa no frio e sob o domínio de Teraoka

Teraoka durante ensaio com a Ospa (Clique para ampliar)
Teraoka durante ensaio com a Ospa | Foto: Augusto Maurer (Clique para ampliar)

Ontem, no dia em que Brahms completava 180 anos de nascimento, a Ospa programou Sibelius e Prokofiev. Nossa orquestra é rebelde e não se liga muito em datas. Também não é nada nacionalista: por exemplo, no dia 17 de novembro de 2009, quando Villa-Lobos completava 50 anos de morte e todos os cadernos culturais só falavam nisso, a Ospa só falava em outra coisa, apresentando um programa que era inteiramente dedicado a Mendelssohn. Mas, enfim, deixemos Brahms e as datas de lado. Era uma noite gelada em Porto Alegre e tivemos mais uma comprovação de que o gaúcho não é macho o suficiente para enfrentar o frio. Talvez também pela fuga que as pessoas empreendem do centro da cidade ao final do dia, talvez pela falta de estacionamento, a Reitoria de UFRGS parece ser amaldiçoada para além da má acústica. Estava com menos de meia casa. Mas digo pra vocês que a o Theatro São Pedro e o Auditório Dante Barone — que também estão no centro da cidade — trarão mais pessoas nos concertos dos dias 14 e 21. Esperem e verão.

Sibelius foi um enorme compositor. Não é apenas o mais famoso compositor da Finlândia, é o mais famoso dos finlandeses ao lado do piloto Mika Häkkinen e dos celulares Nokia. Sua figura estava nas notas de cem marcos antes do euro chegar. Era um nacionalista e foi figura fundamental na independência do país. Muito mal visto pela escola alemã — pelo simples motivo de ser bom e popular — , recebeu todo o gênero de críticas injustas, boa parte delas feitas pelo contumaz equivocado musical Theodor Adorno. Sibelius era um herói em seu país e ficou logo famoso em Paris e nos EUA, que até hoje aguarda ansiosamente sua oitava sinfonia…

Na coletânea de ensaios Os testamentos traídos, Milan Kundera analisa as culturas periféricas da Europa, tomando como exemplo sua Tchecoslováquia. “A intensidade muitas vezes assombrosa de sua vida cultural pode fascinar um observador”. Porém, “no seio dessa intimidade calorosa, um inveja o outro, todos vigiam a todos”. Se um artista ignora as regras locais, a rejeição pode ser cruel, a solidão, esmagadora”. No início do século XX, cada uma destas pequenas nações tinha seu círculo de compositores locais e, dentre eles, seus representantes nacionais. Sibelius na Finlândia, Bartók na Hungria, Grieg na Noruega, Dvorak, Smetana e Janáček na Tchecoslováquia, Nielsen na Dinamarca, Elgar e Vaughan Williams naquele grande país quase sem música até o século XX. Até nós tínhamos um nacionalismo musical com Villa-Lobos, lembram? A influência de Sibelius na cultura de seu país é tão grande que até hoje a Finlândia dedica generosa fatia de seus investimentos culturais em orquestras e na formação de músicos. Mas tergiverso e preciso voltar logo à Reitoria da UFRGS.

O programa iniciou com a suíte Pelléas et Mélisande, música incidental de Jean Sibelius escrita em 1905 para o dramalhão homônimo de Maurice Maeterlinck. A obra tem nove movimentos curtos e é muito bonita, mais ainda quando não se dá importância ao triângulo amoroso protagonizado pelos irmãos Pelléas e Golaud e que acaba na morte de princesa Mélisande. O tema também serviu a uma ópera de Debussy. Em meio àquelas brumas, a Ospa saiu-se muito bem, orientada eficientemente pelo maestro Teraoka. (Soube que nos ensaios, os cães que habitam as proximidades da Igreja São Pedro, local improvisado de ensaios da Ospa, detestaram as ameaças de mau tempo desferidas pelos contrabaixos e respondiam latindo loucamente).

Depois veio a Valsa Triste, também de Sibelius. É uma das peças mais esplêndidas que conheço. Lacrimosa quando ouvida sem atenção, torna-se absolutamente comovente quando nos aproximamos. São seis minutos do melhor Sibelius, microcosmo de suas melhores sinfonias e poemas sinfônicos. A curtíssima Valsa Triste é o mais belo dos haikais e vi algumas lágrimas próximas a mim durante a execução.

http://youtu.be/P8Oc_J1Lu-o

Já o mesmo não pode ser dito de Cena com garças, medonha peça semi-onomatopaica onde os clarinetistas Augusto Maurer e Marcelo Piraíno fizeram o papel de garças com donaire, esbelteza e garbo. Tudo inútil. As garças gostam de rios e lagoas, mas estas de Sibelius se ligavam mais num charco. A peça era merecidamente desconhecida, os xerox das partituras eram quase ilegíveis e devem ser jogados fora hoje. Por favor, não guardem papelada inútil.

O final do concerto veio pela maravilhosa Sinfonia Clássica Op. 25 de Serguei Prokofiev. Foi uma verdadeira lufada primaveril para a plateia e muito trabalho para a orquestra. A sinfonia — radicalmente feliz e melodiosa — também é muito difícil de tocar e pode ser um tormento para orquestras que ensaiam apertadas em igrejas. É claro que a interpretação não foi das melhores que vi, mas também é verdade que só consegui me dar conta disso ao final, rememorando alguma coisa. Música ao vivo é assim. Muitas vezes a gente nem se dá conta dos erros e foca a atenção na musicalidade e no tesão.

O regente Kiyotaka Teraoka já comandou a Ospa uma dezena de vezes e, este ano, ainda a comandará na Sagração da Primavera, se esta não for cancelada em função da falta de local adequado para ensaios. Se é gentil e educado com os músicos, também é competentíssimo e engraçado. Ontem, bem dentro do espírito da música, fazia momices durante o primeiro movimento da Sinfonia Clássica, marcando o tempo para quem caçava borboletas. É muita classe.

P.S. — E houve um bis. Um certo Andante Festivo, de Sibelius. É uma composição de um  movimento, originalmente escrito para quarteto de cordas em 1922. Em 1938, o compositor rearranjou a peça para orquestra de cordas e tímpanos. É um belíssimo e lírico fluxo de temas que só pode ser considerado festivo na Finlândia.