Negligência de governos destrói o Museu Nacional: acompanhe a sequência do corte de verbas

Negligência de governos destrói o Museu Nacional: acompanhe a sequência do corte de verbas

Um incêndio consumiu quase todo o Museu Nacional do Rio de Janeiro. Há apenas dois meses, a instituição tinha comemorado os 200 anos de sua criação.

O Museu foi fundado por Dom João VI em 1818 e possuía o quinto maior acervo do mundo, com mais de 20 milhões de peças, e era referência para pesquisadores de várias áreas. Suas obras contavam uma parte importante da história antropológica e científica da humanidade.

Lá estava o fóssil — com mais de 11 mil anos — de Luzia, a mulher mais antiga das Américas, cuja descoberta nos anos 1970 alterou todas as pesquisas sobre a ocupação da região.

Também havia a reconstrução do esqueleto do Angaturama Limai, o maior dinossauro carnívoro brasileiro, com quase todas as peças originais, algumas com 110 milhões de anos.

Foi queimado igualmente o sarcófago da sacerdotisa Sha-amun-em-su, mumificada há 2.700 anos e presenteada a Dom Pedro 2º em 1876, e que nunca tinha sido aberto. A coleção de múmias egípcias e a de vasos gregos e etruscos evidenciam o perfil mundial do acervo, que também abrigava o maior conjunto de meteoritos da América Latina.

Porém Bendegó, o maior meteorito já encontrado no país com mais de 5 toneladas, sobreviveu intacto.

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O Museu Nacional encontrava-se sob a guarda da UFRJ, ou seja, sofrendo com os cortes da Educação, recebendo apenas R$ 13.000 de manutenção mensal para seus 20 milhões de itens de História e Arte brasileira. Não me digam que o incêndio de hoje não é resultado das políticas da quadrilha — com Supremo, com tudo — que atualmente ocupa o Planalto, que não é resultado do Centrão que está destruindo o país há bem mais de um governo. Claro, o governo anterior igualmente não tratou nada bem a cultura — imaginem que o Museu teve de fechar as portas, em 2015, por falta de verbas para o pagamento dos funcionários, em pleno governo Dilma. Mas é agora que se orquestra um grande ataque à cultura. Os governos estaduais e municipais começaram a combater o meio cultural do país que não os apoia. Sartori e Marchezan estão fazendo o seu tanto do RS e em Porto Alegre, assim como Pezão e Crivella no RJ.

Aliás, no mesmo sentido, Bolsonaro defende a extinção do Ministério da Cultura… Ele pensa que uma secretaria seria o suficiente para tratar do assunto.

Vejamos: em 2014, ano em que as atenções estavam voltadas para as arenas da Copa do Mundo, foram repassados apenas R$ 427 mil para o Museu. Em 2015 foi ainda pior: R$ 257 mil. Subiu um pouco em 2016, R$ 415 mil. No ano passado, foram 246 mil e agora, no ano do bicentenário, somente R$ 54 mil. A estrutura apresentava sinais visíveis de má conservação, como fios elétricos expostos e paredes desencascadas, rachaduras na estrutura, sem falar na falta de dispositivos anti-incêndio. A Petrobras, através da Lei Rouanet, ajudou a manter o museu até a Lava a Jato. Com a crise da empresa, cessou o patrocínio.

Bem, o dinheiro destinado para a manutenção do Museu Nacional era equivalente a 10 auxílios-moradia do Judiciário. Agora, nem precisam mais ter esse gasto. Me apavora o fato de que o Theatro Municipal, o MAM, o Jardim Botânico, o Real Gabinete Português, a Biblioteca Nacional, etc., — para não falar em instituições de outros estados –, estejam sob as mãos de governantes como os nossos. Já o STF e o Congresso Nacional devem estar limpíssimos e conservadíssimos, ao menos seus prédios.

Foto: Mídia Ninja

Hora de se informar mais e escrever menos

Hora de se informar mais e escrever menos

A tolice das redes sociais neste fim de semana foi tamanha que desisti de ler as postagens. Era gente reclamando da bandeira da França nas fotos de perfil, era gente reclamando de que a lama de Mariana tinha virado nota de rodapé — bem, com nossa imprensa e políticos, o que esperavam? –, era gente que chegava ao ponto de comparar o incêndio na boate Kiss com o massacre do Bataclan.

Pessoalmente, minha solidariedade pessoal vai para Paris, Minas Gerais, África, Japão, Oriente Médio e para as periferias brasileiras. O que houve em Mariana e em Paris têm nome: são ambos crimes e espero que sejam punidos rigorosamente. Essa comparação de tragédias, misturadas com nacionalismo, é muito pouco humanista.

Nestes momentos, o melhor a fazer é ficar quieto e tentar não ler a montanha de gente que resolve dar sua contribuição após passar dias e dias ignorando o que acontece no mundo. Pois é muito irritante ler as “soluções” propostas.

Montagem do site Mural do Coach
Montagem do site Mural do Coach

A questão de Mariana é gravíssima. Trata-se de um crime ecológico de enormes proporções e de longa duração. A destruição de fauna, flora e solo ao longo da bacia do Rio Doce é algo gigantesco e de consequências incalculáveis. O desastre remete à velha exploração indiscriminada de nossos recursos naturais, com altos custos ambientais e com os principais ganhos indo para o exterior. Mas o governador de Minas deu coletiva em plena sede da empresa causadora da lama… Enquanto isso, a empresa inventava um “abalo sísmico”, mas ele garantiu que esta realizava todos os esforços para minorar o problema.

Se as responsabilidades forem abrandadas e se o descaso reinar, nosso país estará entregue a própria sorte. Uma das analogias para o caso de Mariana é a de dizer que trata-se de um tumor primário do qual começam a se desprenderem células cancerígenas para a corrente sanguínea. O que fazer? Não sei.

Já Paris é o câncer em âmbito mundial. Para o Brasil, Mariana é muito mais importante. Para o mundo, bem, o Estado Islâmico considera-se o agente do Apocalipse, tá bom?

Nestes momentos, todos esquecem que o Ocidente optou por investir no fundamentalismo islâmico, escolhendo-o como “solução” ao nacionalismo árabe. Depois, quando estes grupos passaram a criar problemas, passaram a invadir e bombardear as regiões dominadas por estes grupos. (Quem lucra sempre? Ora, os fabricantes de armas!) Só que esta reação gerou tal ódio que começaram os atentados no Ocidente. Então, pensa o Ocidente, vamos atacá-los ainda mais. E nós, decidem os fundamentalistas, cometeremos ainda mais atentados. Ou seja, é uma questão complexa, não é discussão para ignorantes como eu. É o momento de ler quem entenda do assunto e seja minimamente honesto.

O autoproclamado Estado Islâmico não é um simples grupo de psicopatas. É um grupo religioso com crenças que acho perfeitamente imbecis, mas que são cuidadosamente pensadas, entre elas a de que o grupo será o agente do apocalipse que se aproxima. Querem saber mais? Comecem por aqui. Sim, é complicado.

O ISIS é diferente dos grupos anteriores. Não estamos mais no campo do bando de xaropes que vende religião, nem no do grupo dos que quer matar os infiéis. Eles são um grupo que se visa acabar com tudo, inclusive e principalmente com a história. E… São 30 mil caras que controlam um território maior que o da Inglaterra e que têm dinheiro para recrutar pessoas. E… É dinheiro ocidental. Afinal, nações aliadas aos Estados Unidos estavam financiando os rebeldes sírios que lutavam contra a ditadura de Bashar Al Assad. O que fazer? Não sei.

Um rascunho de Svetlana Alexievich, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2015

Um rascunho de Svetlana Alexievich, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2015
A escritora Svetlana Alexievich, Prêmio Nobel de 2015
A escritora Svetlana Alexievich, Prêmio Nobel de 2015

Publicado em 10 de outubro de 2015 no Sul21 (*)

O Nobel de Literatura, concedido à bielorrussa Svetlana Alexievich, 67 anos, na última quinta-feira (7), foi a senha para que se iniciassem duas barulhentas discussões em três países: a Bielorrússia (ou Belarus), a Rússia e a Ucrânia.

A primeira delas envolve a nacionalidade da literatura e da própria Alexievich. Os russos dizem que ela escreve em russo e nasceu na União Soviética. Colocando inadvertidamente lenha na fogueira, a própria autora disse, logo que recebeu o prêmio: “É muito perturbador. O Nobel evoca imediatamente os grandes nomes de Búnin, Pasternak e Brodsky”. Todos russos.

Ivan Búnin (Nobel de Literatura de 1933) e Boris Pasternak (recebeu em 1960) nasceram na Rússia czarista, produziram na União Soviética e foram opositores ao regime. Búnin, inclusive, emigrou e morreu na França. Joseph Brodsky (Nobel de 1987) nasceu durante a Segunda Guerra e morreu em Nova Iorque, exilado. Todos escreviam em russo. E Svetlana Alexievich também. Então, como ela não escreve em bielorrusso… Para os russos, ela é russa.

E a Ucrânia entre no jogo pelo simples fato da escritora ter nascido em seu solo e de ter mãe ucraniana, mesmo que tenha ido para Minsk ainda quando criança. Então é ucraniana.

Porém, para os bielorussos, ela cresceu, estudou e se formou como jornalista no país. O pai era um militar bielorrusso que fora transferido temporariamente para a Ucrânia. Além disso — e eles estão corretos –, ela sofreu enorme influência de grandes escritores do país, como Alés Adamóvich, o fundador do gênero de romance-documentário que a escritora pratica. Então é bielorrussa.

Lukashenko, o eterno
Lukashenko vê sua inimiga premiada

A outra discussão

A outra discussão gira em torno dos temas dos livros de Svetlana Alexievich. A partir de entrevistas — ela é uma extraordinária entrevistadora — a autora se dedica a criar painéis de vozes reais. Seus livros são “romances coletivos”, também conhecidos como “romances corais”, ou “romances de evidências”. São pessoas que falam de si mesmas numa espécie de coral.

Tais corais são formados por vozes de sobreviventes da Segunda Guerra Mundial, do acidente nuclear de Chernobyl, da campanha no Afeganistão, etc. Também há um livro sobre como o povo sentiu a passagem do comunismo para o capitalismo. São relatos pessoais, onde, apesar de a política permanecer subjacente, têm um tom de forte crítica a várias gerações de governantes da União Soviética, Bielorrússia e Rússia.

(A Bielorrússia tem o mesmo presidente desde a implosão da União Soviética. Aleksandr Lukashenko, conhecido como O Último Tirano da Europa, está no cargo desde 1994 em sucessivas e mui discutidas reeleições).

Deste modo, o Nobel teria sido concedido a uma pessoa que dedica-se a tecer críticas à sociedade russa e bielorrussa, isto é, a uma pessoa de posições claras, non grata para muitos.

Então, na quinta-feira à noite, enquanto os amigos de Svetlana Alexievich faziam uma enorme festa numa vinoteca de Minsk, parte dos jornais e redes sociais referiam-se a um Nobel dado a uma autora que “odeia nosso país”.

A escritora em Portugal, na ocasião do lançamento de seu único livro traduzido para nossa língua
A escritora em Portugal, na ocasião do lançamento de seu único livro traduzido para nossa língua

Europeia

A escritora fala com grande tranquilidade sobre a primeira questão levantada, a de sua nacionalidade. “Eu sou europeia. Nasci na Ucrânia, de uma família que era metade do local e metade bielorrussa. Quase imediatamente após meu nascimento, fomos para a Bielorrússia. Durante mais de 12 anos eu vivi na Itália, Alemanha, França e Suécia. E há dois anos, voltei para Minsk”.

A Academia Sueca, anunciando sua vitória, elogiou os “escritos polifônicos” de Alexievich, descrevendo-os como “um monumento ao sofrimento e à coragem em nosso tempo”. Muito influenciada pelo escritor Alés Adamóvich, que considera como seu mestre, Alexievich tem a particularidade de deixar fluir diferentes vozes em torno de um tema. Ela esclarece diversos destinos individuais, descrevendo mosaicos que criam a certeza de tragédias reais. Alexievich trabalha decididamente na faixa do drama e da morte.

A edição portuguesa da Porto
A edição portuguesa da Porto

Os livros

Em 1989, ela publicou Tsinkovye Málchiki (Meninos de Zinco), sobre a experiência da guerra do Afeganistão. Para escrevê-lo, percorreu o país entrevistando mães de soldados mortos no confronto. Em 1993, publicou Zacharovannye Smertiu (Encantados pela morte), sobre os suicídios cometidos por aqueles que não haviam conseguido sobreviver ao fim do socialismo. Em 1997, foi a vez de Vozes de Chernobyl, um aterrador retrato da tragédia cuja devastação radioativa atingiu principalmente a Bielorrússia. O livro vendeu 2 milhões de exemplares em língua russa.

No ano passado, foi lançado O Tempo de Segunda Mão (ou O Fim do Homem Soviético, em Portugal). Nesse novo trabalho, Alexievich se propõe a “ouvir os participantes do drama socialista”. Para a escritora, o “homo sovieticus” ainda continua vivo, e não é apenas russo, mas também bielorrusso, turcomano, ucraniano, casaquistanês, etc. “Hoje vivemos em Estados distintos, falamos línguas distintas, mas somos inconfundíveis, rapidamente reconhecidos. Todos nós somos filhos do socialismo”, afirma, referindo-se a seus “vizinhos de memória”. “O mundo mudou completamente e não estávamos realmente preparados para isso”

Falando à emissora sueca SVT, Svetlana Alexijevich disse que o prêmio a deixou com um sentimento “complicado”. A academia telefonou para ela enquanto estava em casa “deixando passar o momento da divulgação do vencedor”, disse ela, acrescentando que os mais de 3 milhões de reais do prêmio “comprariam sua liberdade”. “Demoro muito para escrever meus livros, de cinco a 10 anos cada um. Eu tenho duas ideias para novos livros, por isso estou muito satisfeita: agora vou ter dinheiro e tranquilidade para trabalhar neles.”

Os romances corais

Alexievich nasceu no dia 31 de maio de 1948 na cidade ucraniana de Ivano-Frankovsk. Após a desmobilização do pai do exército, a família retornou à Bielorrússia e se estabeleceu em uma aldeia onde ambos os pais trabalhavam como professores. Ela deixou a escola para trabalhar como repórter no jornal local na cidade de Narovl.

Alexievich escreve contos, ensaios e reportagens, mas diz que só encontrou sua voz sob a influência de Alés Adamóvich. Na cerimônia de divulgação do prêmio, a crítica literária Sara Danius disse que “não se trata de uma escritora de eventos nem de análise política, é uma historiadora de emoções. O que ela nos oferece é realmente um mundo emocional. O desastre nuclear de Chernobyl e a guerra soviética no Afeganistão são pretextos para explorar a indivíduo soviético e pós-soviético”.

Chernobyl, o horror
Chernobyl, o horror

Em Vozes de Chernobyl, Alexievich entrevista centenas de pessoas afetadas pelo desastre nuclear, indo desde uma mulher que, agarrada a seu marido morto, ouve os enfermeiros lhe dizerem que “isso não é mais uma pessoa, é um reator nuclear”, até os soldados enviados ao local. Fala de suas raivas por terem sido “arremessados lá, como areia no reator”. Em Meninos de Zinco, ela reúne vozes da guerra do Afeganistão: soldados, médicos, viúvas e mães.

“Eu não pergunto às pessoas sobre a política, eu pergunto sobre suas vidas: o amor, o ciúme, a infância, a velhice”, escreveu Alexievich na introdução ao O Tempo de Segunda Mão (O Fim do Homem Soviético). “Me interessam não apenas as tragédias vividas, mas a música, as danças, as roupas, os penteados, os alimentos. Os detalhes diversos de uma maneira desaparecida de viver. Esta é a única maneira de perseguir a catástrofe”.

“A história está interessada apenas em fatos; as emoções são excluídas do seu âmbito de interesse. É considerado impróprio admiti-los na história. Eu olho para o mundo como uma escritora, não como uma historiadora. Eu sou fascinada por pessoas “.

Seu primeiro livro, A guerra não tem rosto de mulher, tem como base entrevistas com mulheres que participaram da Segunda Guerra Mundial. “É uma exploração da Segunda Guerra Mundial a partir de uma perspectiva que era, antes do livro, quase completamente desconhecido “, disse Danius . “Ela conta a história de mulheres que estavam na frente de batalha na segunda guerra mundial. Quase um milhão de mulheres soviéticas participaram na guerra, e esta era uma história desconhecida. A obra foi um enorme sucesso na União Soviética, vendendo mais de 3 milhões de cópias. É um documento comovente e íntimo, trazendo para muito perto de nós cada indivíduo.” 

A edição alemã de "A guerra não tem rosto de mulher"
A edição alemã de “A guerra não tem rosto de mulher”

Tradutores, editores e leitores

Embora Alexievich tenha sido traduzida para o alemão, francês e sueco, ganhando uma série de importantes prêmios por seu trabalho, as edições em inglês do seu trabalho são escassas. Em Portugal, O Fim do Homem Soviético saiu este ano pela Porto Editora.

Seu editor francês diz que este livro é uma pesquisa micro-histórica da Rússia da segunda metade do século XX, indo até os anos Putin. Aliás, Alexievich é uma das vozes de oposição, costumando criticar duramente Putin e Lukashenko em palestras para leitores.

Bela Shayevich, que atualmente está traduzindo Alexievich para o inglês disse que “esta vitória significa que mais leitores serão expostos às dimensões metafísicas de sobrevivência e desespero das tragédias da história soviética. Espero que mais pessoas entendam o sofrimento provocado por circunstâncias geopolíticas estranhas a elas”.

A opinião geral de seus admiradores é a de que seus livros são muito incomuns e difíceis de categorizar. São tecnicamente não-ficção, mas recebem um belíssimo tratamento literário e de trabalho de linguagem. Sua tradutora inglesa faz uma reclamação: “Os editores ingleses e americanos são relutantes em assumir riscos e não gostam de livros muito trágicos. Não investem em um livro só porque ele é bom. Agora, com Nobel, talvez a coisa mude”.

Nas entrevistas após o prêmio, perguntaram a Alexievich sobre os refugiados na Europa. “A Europa agora passa por mais um teste sobre sua própria humanidade. Estive recentemente em Mântua, na Itália, e alguns amigos me convidaram para “marchar de pés descalços”. Este tipo de marcha foi organizada pela primeira vez em Veneza e agora está indo para todas as cidades. As pessoas tiram os sapatos e caminham descalças pelas cidades em solidariedade aos refugiados. Lá estavam refugiados, imigrantes e italianos solidários a eles. E isto na Itália, onde o nacionalismo é muito forte. Espero que, desta vez, a Europa seja aprovada no teste”.

Svetlana Alexievich é apenas a 14ª mulher a receber o Nobel de Literatura. Ao todo, 111 autores já foram premiados.

(*) Com Elena Romanov

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A tragédia do Sistema Cantareira: mas não era para sermos o celeiro de água do mundo?

A tragédia do Sistema Cantareira: mas não era para sermos o celeiro de água do mundo?

Fico fascinado pelo provável fim do Sistema Cantareira. Mesmo sendo ignorante no assunto, busco informações diariamente. Trata-se de um gênero de tragédia que infelizmente deverá tornar-se comum nos próximos anos. Como o fazer político é cada vez mais campo de empresários e religiosos com uma minoria de quixotes, não vejo como escapar de uma sucessão de tragédias como essa do Cantareira.

Acompanhar o dia-a-dia do Sistema Cantareira é como acompanhar a marcha do placar de um jogo com atualizações on-line. O jogo parece previamente perdido, mas a atração que sinto por observar a decadência da coisa faz-me permanecer atento. Claro que não é uma questão pessoal. São Paulo viverá um cenário de enorme privação, dependente da vazão natural da água, sem reservas, o que fará com que o abastecimento de água ocorra, quem sabe, duas ou três vezes por semana, em horários limitados. E o atual sistema era para atender a 8 milhões de seres humanos.

Entendam, neste cenário, que não está muito longe de ocorrer, a população só será atendida se chover, já que não haverá água nos reservatórios. Como está agora, a matemática reencher o Cantareira e evitar situações extremas não é simples. Depende de chuvas muito acima da média, o que não deverá acontecer devido ao desmatamento, e diminuição do consumo. Não é nada divertido.

Toda esta situação crítica ocorre justamente na maior cidade do país que é — é ainda? — o maior manancial e celeiro de água do mundo. Os políticos, a grande imprensa e o Ministério da Agricultura não gostam de falar nisso, mas o caso do Cantareira é filho do desmatamento.

Existe uma relação entre as árvores, quaisquer árvores, com as chuvas. Basta ver que a mata que ronda Bombinhas, onde estou, gera chuvas diárias. Pouca gente lembra disso. As matas, a arborização urbana ou mesmo as plantas de jardim podem ajudar a aumentar a umidade da atmosfera, gerar nuvens de chuva, reduzir a irritação da poeira no ar e ainda diminuir o calor. E o que ronda o Cantareira é o desmatamento.

Os primeiros lances demonstram o desespero da Sabesp e a estupidez dos políticos. Eles querem apenas a diminuição do consumo, como se isso fosse resolver o problema. Na causa do mesmo, todos evitam falar. A partir da conta de fevereiro, serão cobrados 40% de multa para quem consumir até 20% a mais do que a média entre fevereiro de 2013 e janeiro de 2014. E quem ultrapassar 20% dessa média será multado em 100% sobre o gasto com água, o que representará metade de uma conta certamente alta.

Ampliar a produção de água de outros sistemas, como o do Billings e outros, são alternativas apenas viáveis, segundo os especialistas, a médio ou longo prazo, pois eles não foram projetados para demandas tão altas. Como o Cantareira atende a 8 milhões de pessoas, seria necessária fazer a ampliação dos sistemas existentes além de novas estações de tratamento. São coisas demoradas. Uma alternativa seria a de lançar água não tratada na rede, mas isso poderia contaminar os usuários. Seria água não potável, já pensaram?

Tem gente que fala em êxodo da população da cidade, como num filme americano de bomba nuclear, mas como isso ocorreria? Não sei.

Da raiz do problema — o desmatamento, o descontrole e desrespeito ecológico –, quase ninguém fala. Parece que a culpa é apenas das chuvas e estas são mandadas (ou não) aleatoriamente, por São Pedro.

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Santa Maria trinta dias depois

A charge de Latuff na manhã de 27 de janeiro quando ainda se pensava em “apenas” 100 mortos.

Oh, filhos, filhos! Como têm coragem de partir?
O Outro Filho, Luigi Pirandello

Um dos lugares comuns com os quais mais concordo é que é absolutamente contra a natureza os filhos morrerem antes dos pais. E que nenhum pai-mãe merece uma coisa dessas. É uma situação intolerável e sempre penso em Drummond, que não queria mais viver após a morte de sua filha Maria Julieta. Ele tinha 85 anos e não suportou: morreu rapidamente, apenas 12 dias depois. Cada pai tem medo do que possa acontecer com seu filho e tem noções muito claras do inferno que sua vida será sem um deles. É isto que está sendo vivido por aqueles que ficaram. Tenho dois filhos e me forço a pensar no assunto porque esta é uma perspectiva que me preocupa e da qual se fala muito pouco: a dos que ficam.

Dia desses, estava com um amigo que é dono de um estabelecimento que pode receber aproximadamente 100 pessoas. Ele me disse que tomou a iniciativa de chamar uma consultoria a fim avaliar o local, “porque depois de Santa Maria temos que ser sérios, não quero carimbo, gaveta, nem jeitinho, quero segurança”. E acho que a sociedade, ao menos aqui no RS, vai conseguir melhorar muito as casas noturnas. Acredito nisso, mas voltemos ao viés inicial.

Não, não conheço ninguém envolvido, mas fico com enorme pena dos pais. Hoje, agora, às 8h, Santa Maria vai parar por um minuto. No sábado passado, 600 pessoas compareceram a um encontro da recém formada Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM). A associação tem como principal objetivo a reintegração social dos pais e irá acompanhar as investigações do caso. Nada mais correto. Essas pessoas precisam de ajuda a fim de trazê-las de volta a uma vida que será tudo menos normal. Há relatos de que muitos estão reclusos, coisa que, conhecendo a mim mesmo, talvez fizesse. Foram 239 mortos, 100 feridos. O grupo de pais tem certamente todo tipo de pessoa, todo tipo de biografia, todo tipo de reação. Essas pessoas devem se conhecer, devem ouvir as histórias um do outro a fim de obter apoio entre seus iguais.

Pois, como escreveu Sábato em Sobre Heróis e Tumbas (cito de memória), nós deveríamos ser como as formigas que veem seu formigueiro pisoteado e começam imediatamente a reconstrução. Por mais que nos desesperemos, não deve haver outra saída. Só que o ser humano tem a noção do que é a morte e é impossível simplesmente agir como um formiga-autômato numa hora dessas. Haja terapia, porque o buraco que o pisão criou é uma verdadeira cratera.

A normalidade não existirá mais para essas pessoas. Um pai esquecer seu filho? Não, impossível. O que acontecerá será um lento e doloroso aprendizado para viver sem a presença dele-dela. Como lidar com as datas, com a saudade, com a madrugada, com o quarto vazio, com a ida ao supermercado sem comprar a guloseima preferida do filho, com os encontros com os amigos, com o computador? Nada do que aconteceu foi banal ou descartável, essas pessoas têm de ser respeitadas, ainda mais neste período em que a ficha está caindo e a dor da realidade está vindo em ondas cada vez mais altas. Será muito dura a rotina sem o filho. Tudo parecerá inútil.

E que a sociedade, as fiscalizações, as defensorias e as prefeituras trabalhem para que uma merda dessas não ocorra em outro lugar. É o mínimo que se pode fazer para honrar aquelas crianças que morreram. A única utilidade delas hoje. Porque o resto é tristeza.

They lived and laughed und loved end left
Nasceram serriram seamaram seforam

Finnegans Wake, James Joyce (trad. Caetano Galindo)

Revista Veja inicia 2011 como terminou 2010

NOTA CONJUNTA DE REPÚDIO

O PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO, O MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO, A DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO, A OAB/RJ, POR SUA 9ª SUBSEÇÃO, O MUNICÍPIO DE NOVA FRIBURGO, O DIRETOR DO IML-AP/RJ E O DELEGADO DE POLÍCIA TITULAR DE NOVA FRIBURGO, vem apresentar nota conjunta repudiando a matéria publicada na Revista Veja, edição 2200, ano 44, nº 03, de 19 de janeiro de 2011, em especial, o conteúdo do último parágrafo de fls. 54 até o primeiro parágrafo de fls. 56, em razão de seu conteúdo totalmente inverídico, conforme será esclarecido a seguir:

1) Inicialmente, cumpre esclarecer que em momento algum os corpos da vítimas fatais ficaram sobrepostos uns sobre os outros no Instituto de Educação de Nova Friburgo, local em que foi montado um posto provisório do IML, em razão da catástrofe que assolou toda esta região, mas sim acomodados separadamente lado a lado no ginásio do Instituto;

2) O acesso ao referido Instituto foi limitado às autoridades públicas e aos integrantes das Instituições inicialmente referidas, sendo certo que o ingresso dos familiares no local para a realização de reconhecimento somente foi permitido após autorização de um dos integrantes das mencionadas instituições e na companhia permanente do mesmo;

3) A liberação dos corpos para sepultamento somente foi autorizada após o devido reconhecimento efetuado por um familiar, sendo totalmente falsa a afirmação de que “ao identificar um conhecido, bastava levá-lo embora, sem a necessidade de comprovar o parentesco”. Frise-se, que mesmo com o reconhecimento, foi realizado posteriormente procedimento de identificação pelos peritos da Policia Civil do Estado do Rio de Janeiro, bem como de outros cedidos pela Polícia Civil de São Paulo, pela Polícia Federal e pelo Exercito Brasileiro, estes por intermédio da Secretaria Nacional de Segurança Pública, com a análise da impressão digital, do exame de arcada dentária e exame de DNA;

4) Ademais, cada um dos falecidos foi colocado em uma urna e sepultado individualmente, não existindo qualquer tipo de sepultamento coletivo, mas sim vários sepultamentos individuas e simultâneos no mesmo cemitério;

5) Em meio a infeliz perda de 371 vidas, somente neste Município de Nova Friburgo (até presente momento) é importante registrar que houve apenas 03 (três) casos de divergência dos reconhecimentos feitos pelos parentes, os quais estão sendo devidamente esclarecidos pelos peritos do IML/Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, através do exame das impressões digitais, das arcadas dentárias e do exame de DNA. Assim, ao contrário do que a narrativa contida na matéria publicada leva o leitor a concluir, não houve uma feira livre na busca e no sepultamento de corpos, mas ao contrário, um trabalho sério realizado por profissionais exemplares, dedicados e comprometidos em minimizar, naquilo em que era possível, o sofrimento da população local, e ainda preservar, dentro das possibilidades existentes, a ordem e a saúde pública.Aliás, o respeito pelas famílias e pelos corpos dos cidadãos falecidos não permitiria que os mesmos fossem tratados pelas autoridades da maneira descrita pelas jornalistas.

Assim, é com extremo pesar, que em meio a um evento trágico e que entristeceu a todos, tenhamos que vir a público repudiar as inverdades publicadas, de cunho meramente sensacionalista, a fim de evitar que o desserviço gerado pela matéria venha a causar mais prejuízo, sofrimento e comoção aos familiares das vítimas e a toda nossa comunidade.

Nova Friburgo, 21 de janeiro de 2011.