Bom dia, Renato (com os lances da derrota para o medíocre Vasco da Gama)

Bom dia, Renato (com os lances da derrota para o medíocre Vasco da Gama)

Por Samuel Sganzerla

Quer dizer, nem tão bom assim, convenhamos!

Renato, eu vou ser curto e grosso: é de desistir de acreditar que o Grêmio pode ser campeão do Brasileirão. Ano após ano, é uma história que se repete. Com todo o respeito ao Vasco da Gama, que já viveu tempos bem melhores, mas não dá para perder para aquele time medíocre, tendo um jogador a mais durante dois terços da partida.

Foto: gremio.net
Foto: gremio.net

Acho que os deuses do futebol estão sendo bem claros em seu recado: deixemos o Campeonato Brasileiro de lado e foquemos na Copa do Brasil e na Libertadores da América, que é onde nos saímos melhor. Pelo menos enquanto essa fórmula de pontos corridos e a possibilidade de fazer 10 jogos por mês perdurarem (razão pela qual eu entendo tu teres poupado o Maicon).

Enfim, era só isso que eu tinha para dizer: foco na busca pelo hexa da Copa do Brasil e pelo tetra da América. A partida de ontem não me permite dizer mais. Pelo menos nada que seja publicável aqui. Que m…

Saudações Tricolores, Renato!

E segue o baile…

https://youtu.be/oNvJYi4uDgk

Bom dia, Odair (com os gols do promissor Inter 3 x 1 Vasco)

Bom dia, Odair (com os gols do promissor Inter 3 x 1 Vasco)

Numa noite fria, sob o olhar de 22,5 mil torcedores, o Inter realizou uma bela exibição antes da parada da Copa do Mundo. Venceu o Vasco por 3 x 1. Odair surpreendeu ao escalar Nico López no lugar do suspenso Edenílson. E Nico fez o que sabe: abriu o marcador logo de cara, acertando um violento chute cruzado de dentro da área.

Enfim, iniciamos uma partida com Nico López. Deu no que deu | Foto: Ricardo Duarte
Enfim, iniciamos uma partida com Nico López. Deu no que deu | Foto: Ricardo Duarte

Mas o que importa é que, apoiado em boa solidez defensiva e com atuação fundamental de Dourado, o Inter está crescendo, mesmo sem os bons Zeca e Dale.

Claro que o Vasco não é nenhuma Brastemp, mas quando se está mal até peido descadeira.

Com a entrada de Nico no time ontem, abrem-se novas possibilidades para ti, Odair. Edenílson pode entrar na lateral direita quando Zeca não jogar, com Nico Lopes no enganche. Com todos os titulares, querendo um futebol ofensivo, pode-se jogar com Zeca de lateral, com Nico como jogou hoje e com D’Alessandro no lugar do Pottker. Ah, e teremos Rithely. Interessante, né?

Pottker voltou a jogar coisa nenhuma. Mas coisa nenhuma mesmo!

Achei ridículo o cartão amarelo recebido por Patrick. O futebol tem que ter humor e símbolos. Além disso, todo mundo sabe que o Pantera Negra tem a ver com o orgulho negro. Não é mera frescura nem coisa de guri.

Agora temos 22 pontos em 36 disputados (12 jogos). São 61% de aproveitamento. É bom notar que quase 1/3 do Brasileirão já passou. Destes 12 jogos disputados, já jogamos contra 7 do G-10, faltando apenas Atlético-MG e Botafogo (o décimo do G-10 somos nós). Faltam 23 pontos para ficarmos livres da Serie B e uns 37 para estarmos no grupo que vai para a Libertadores 2019.

Ou seja, a situação é boa por todas as perspectivas que possamos analisar. Ainda há o fato de muita gente boa, estar envolvida com Copa do Brasil e Libertadores. Bem, vamos ver a Copa e treinar em Atibaia para os outros 2/3 do Brasileiro.

Dá-lhe, Odair.

Irritados com as convocações de Mano? Rebelem-se, ora.

Grêmio, Fluminense, Santos, Atlético-MG, Vasco, Botafogo, São Paulo, Corinthians e Inter  perderão jogadores por duas rodadas do Brasileirão? Alguns deles estão irritados? O Santos gostaria de usar Neymar, que recebe mais de 1 milhão por mês? Mas que coisa… Há anos digo que a CBF deve respeitar as datas Fifa parando seus campeonatos e que a única forma de fazer isso é RETIRAR OS CAMPEONATOS REGIONAIS DO CALENDÁRIO DOS GRANDES CLUBES. A CBF é a única Confederação do mundo que promove e boicota seus campeonatos.

Bem, em 2013, com os amistosos e a Copa das Confederações, tudo vai piorar. Mas as excrescências continuarão, sem dúvida. São puro entulho autoritário não removido desde o Golpe, quando o Almirante Heleno Nunes era presidente da CBF e gostava de ver suas federações regionais satisfeitas. Fodam-se os clubes que não fazem nada.

É isso.

Heleno de Freitas: a mais solitária das estrelas

Publicado originalmente no Sul21 em 6 de de abril de 2012

Uma tragédia fica caracterizada onde não há apenas seriedade e dignidade, mas também conflitos com instâncias superiores, sejam elas metafísicas, como com deuses ou o destino, ou tangíveis, como com as leis e a sociedade. No caso de Heleno de Freitas o algoz foi o destino, o qual, como nas tragédia grega, não se deixou dobrar em nenhum momento. Pode-se dizer que Heleno cumpriu minuciosamente todo o papel trágico que lhe cabia, saindo da glória para a loucura e a morte em linha reta, com a convicção demonstrada sobejamente em Heleno, filme de José Henrique Fonseca, em cartaz nas principais cidades brasileiras.

A obra, rodada em gloriosa fotografia em preto a branco, deixa-nos por duas horas livres de quaisquer vestígios de ciúmes sobre a qualidade do cinema argentino, apesar da presença do hermano Fernando Castets dentre os roteiristas. Mais: não é necessário gostar de futebol para gostar de Heleno. Advogado, jogador de futebol dos bons, galã, boa vida, viciado em éter e lança-perfume, intratável, inteligente e vítima da sífilis, Heleno de Freitas traz todos os ingredientes de um grande personagem de tragédia. Vitimado pelos vícios e pela sífilis diagnosticada tardiamente — e que ele se negava a admitir ou tratar — , Heleno também foi vitimado pela celebridade e arrogância. É uma história triste, claro.

O craque e seu cabelo bem repartido

Heleno foi o primeiro grande encrenqueiro do futebol brasileiro e talvez mantenha-se no topo até hoje. A Adriano Imperador falta não apenas classe. O comportamento de nosso contemporâneo é uma brincadeira boba e monotemática frente a alguém que foi o principal jogador do Botafogo por oito anos — que fez 209 gols em 235 jogos no Bota, além de 19 em 24 jogos pelo Vasco e 15 em 18 jogos pela Seleção — , que desprezava seus companheiros pelo fato de serem um bando de pernas-de-pau (e que dizia e repetia isso para quem quisesse ouvir, a imprensa deliciava-se), que conquistava as mulheres que bem entendia, que se irritava por nada, que deu um nada metafórico tiro no pé ao tentar acender um fósforo enfiado na unha (John Wayne foi sua inspiração), que tinha amigos empresários, juristas e diplomatas e que acabou louco. Como definiu seu biógrafo Marcos Eduardo Neves:

Ele era temperamental como Edmundo, bonito como Raí, mulherengo como Renato Gaúcho, artilheiro como Romário, boêmio como Ronaldinho Gaúcho, inteligente como Tostão, de boa família como Kaká, elegante como Falcão e problemático como Adriano.

(Faltou dizer que ele torrava dinheiro e era explorado pelos amigos como Garrincha).

Rita Hayworth no papel de Gilda

Seu gênio irascível e predador de mulheres rendeu-lhe o apelido de Gilda, analogia com a célebre personagem de Rita Hayworth, também bela e incontrolável. O apelido foi criado pela torcida do Fluminense. As noites de Heleno eram no Copacabana Palace, no Cassino da Urca ou na boate Vogue, tudo o que de melhor que a noite do Rio oferecia. Porém, assim como Rita Hayworth dizia que “todos os homens que já tive foram para a cama com Gilda e acordaram comigo”, Heleno dormia no Copacabana Palace e acordava no Botafogo. E o Botafogo era ruim demais, só Heleno se salvava. O time era tão ruim que Heleno nunca foi campeão carioca pelo time.

Em 1948, a contragosto, foi vendido ao Boca Juniors na maior transação do futebol brasileiro até então. Deixou a mulher grávida no Rio e seguiu fazendo seus gols até dar o tal tiro no pé. Voltou para conquistar seu único título carioca pelo Vasco, no ano de 1949. O técnico do Vasco era o exigente Flávio Costa, que também comandava a Seleção Brasileira. Aliás, a Seleção tinha por base o Vasco. Assim, era quase inevitável que Heleno jogasse e fosse Campeão do Mundo em 1950. Mas não gostava dos treinos, coisas chatas e cansativas após as noitadas. Um dia, irritado, ameaçou Flávio Costa com uma arma descarregada e acabou apanhando. Ficou fora da Copa, claro. E acabou partindo para a Colômbia, que pagava os mais altos salários do continente. Com a camisa do Atlético Barranquilla, “El jugador”, com era conhecido, encantou um jovem jornalista chamado Gabriel García Márquez.

Durante a Copa do Mundo, Heleno esteve na Colômbia. Quando soube da derrota, numa das melhores cenas do filme, Heleno comemorou a perda do título, finalizando a festa como sempre: com bebedeira e mulheres.

Fora de forma e falido, viciado em éter e lança-perfume, mas com os sintomas da sífilis já absolutamente presentes, teve uma passagem pelo Santos — nunca entrou em campo — e voltou ao Rio em 1953 para jogar em seu novo clube, o América-RJ. Jogou apenas alguns minutos. Foi expulso no primeiro tempo e nunca mais entrou em campo. Foi internado em 1954 na Casa de Saúde São Sebastião. Emagreceu, perdeu dentes e cabelo e o que lhe restava de sanidade. Ouvia vozes e agia de forma violenta.

O cuidadoso mosaico que o filme vai montando é formado por cenas alternadas da ascensão, glória, decadência e fim do craque, sem respeito à linha de tempo. É perfeito ao mostrar como que sua vida fora do campo foi lentamente matando o craque. Rodrigo Santoro, no papel de Heleno, voltou a demonstrar que não é apenas mais uma carinha bonita. Poucas vezes se viu no cinema nacional uma imersão tão radical num personagem. Basta dizer que o ator perdeu 12 quilos para viver as cenas finais do filme, já louco num sanatório. Santoro começou as filmagens pesando entre 80 e 82 quilos e chegou a 68, 69, fruto de uma dieta rigorosa ou, segundo declarou, da fome. Também tomou aulas com o bailarino Marcelo Misailidis para ganhar leveza e agilidade, características do jogador. O treinamento com bola foi feito com o ex-jogador Cláudio Adão.

O trio principal de atores é completado por Alinne Moraes, como Sílvia, esposa do jogador, pela colombiana Angie Cepeda, uma de suas amantes, e por Erom Cordeiro, que faz Alberto, o melhor amigo de Heleno e que acaba ficando com sua mulher… Heleno foi a mais solitária das estrelas.

Heleno é um filme rigoroso, não é moralista e muito menos piegas. Mesmo a música que acompanha a degenerecência mental do craque não busca lágrimas. É um movimento da 5ª Sinfonia de Mahler. O diretor Fonseca diz que gostaria que os espectadores soubessem da biografia de Heleno antes de verem o filme, pois considera que as cenas mostradas sejam insuficientes. Pedimos licença para discordar. O que é mostrado nos deixa tão fascinados que é impossível não sair do cinema e dar uma olhadinha no Google.