Ali Hassan Ayache reclama da presença estrangeira no Brasil

“Existe no Brasil uma dezena de excelentes profissionais capacitados para o cargo e a direção escolhe uma italiana”.
Ali Hassan Ayache

O potencial cômico desta matéria (e do titulo acima) pode ser resumido na seguinte frase: “Em um texto cheio de xenofobia, mas travestido de austero, Ali Hassan Ayache reclama da saída de Naomi Munakata da regência titular do Coro da OSESP para dar lugar a Valentina Peleggi”. A frase é autoexplicativa porque todos os envolvidos têm nomes não brasileiros, mostrando o óbvio: somos um país de imigrantes. Então, um Ayache faz beicinho para Munakata e Peleggi. O texto foi-me apresentado por Augusto Maurer.

Valentina Peleggi: ninguém discute sua qualidade, já a etnia...

Valentina Peleggi: ninguém discute sua qualidade, já a etnia…

Eu sou neto de portugueses, Ali Hassan veio do Líbano, Naomi é japonesa, Valentina é italiana, Augusto tem ascendência alemã. Sim, sabem que o perfil do Facebook de Ayache indica que ele nasceu em Beirute? Ora, Ali, nós matamos nossos índios, aqui quase todo mundo tem um pé fora do Brasil. Seja na África, seja na Europa, seja em lugares mais distantes. E todos, mas todos nós, saímos da África.

A matéria também reclama da presença de Marin Alsop por apenas dez semanas / ano na Osesp. Tão simples de explicar: a estadunidense Alsop é uma estrela mundial. Assisti a uma masterclass e uma entrevista dela no Southbank Center (Londres). Afirmo que aquele grau de conhecimento você não vai encontrar facilmente em nenhum lugar do mundo. Ela vale muito. Os ingleses — que não são fáceis de convencer — amam a norte-americana Alsop.

Mas o Brasil é assim. Gente de família que recém chegou acha que deve evitar os estrangeiros. Quando conheci Lisboa, vi o quanto de português havia em mim. No primeiro dia, eu já estava adaptado. Portugal já estava em mim sem eu saber. E entendi o que meus avós deviam ter sofrido no Brasil com seus sotaques, com o recomeço de meu avô como estivador no cais do porto, com as piadas de português, etc.

O texto de Ayache revela um preconceito muito comum em nosso país. Somos formados pela imigração, mas não queremos mais imigrantes por aqui, mesmo que eles venham fazer bons trabalhos ou nos ensinar. Enquanto isso, um grande homem como Jordi Savall faz isso. É que Savall conhece história. Em suas pesquisas, já encontrou a presença espanhola em todo o mundo e sabe como as trocas culturais funcionam. Te digo que certamente temos coisas a aprender com os senegaleses e haitianos que recém chegaram aqui, nem que seja sobre elegância.

Ademais, a Osesp só é a Osesp em razão dos estrangeiros. Aqueles violinos… Onde havia algo semelhante na América do Sul à época em que foram trazidos?

Tenho exemplos de xenofobia bem aqui a meu lado. Dentro de casa inclusive. Afinal, minha querida Elena é uma bielorrussa naturalizada brasileira e tem histórias muito interessantes e comprovadas para contar e mostrar. Se ela sofre de xenofobia? Nossa, e como! Não nos provoquem… Sou ótimo contando histórias.

E, falemos sério, Peleggi é uma deusa regendo. É muito competente e deveria ser um orgulho — jamais um problema! — para São Paulo recebê-la. Se não quiserem, mandem para Porto Alegre. Não temos ninguém como ela aqui na cidade. NEM DE LONGE!

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O estranho concurso da Ospa (Parte III – final: Os Requisitos)

Venezuelanos, stay at home!

Venezuelanos, stay at home!

A primeira parte está aqui e a  segunda aqui.

Nas duas primeiras partes, contei com o auxílio de várias pessoas — citadas ou não — que falaram com muita seriedade e conhecimento a respeito do assunto. Finalizo mantendo a seriedade, mas contando apenas com o pouco brilhantismo de minhas opiniões.

Antes de analisar alguns dos requisitos, gostaria de escrever algumas frases sobre a pressa e o momento inoportuno em que ocorre o concurso. E nem falo mais no final do mandato do governo do estado.

O edital foi publicado no DOE (Diário Oficial do Estado) no dia 3 de outubro e o final das inscrições ocorrerá nesta sexta-feira, 24 de outubro, às 23h59. Penso que tudo foi feito dentro da lei, mas fora do bom senso. As provas serão realizadas em novembro, que é uma parte do ano em que todos estão muito ocupados. Também o pequeno prazo torna complicado marcar passagens, cancelar compromissos, etc., para as pessoas de fora de Porto Alegre. E acredito que a Ospa pense em obter os melhores instrumentistas para a orquestra, facilitando ao máximo o acesso ao concurso. As vagas não são milionárias mas há a estabilidade logo ali no horizonte. Por isso, muita gente se interessa. Seria o caso de fazer tudo com mais tempo, acredito.

Bem, a questão dos requisitos é delicada e costuma agredir os brios de muita gente. O primeiro problema é com o item b) no caso de estrangeiros, estar em situação regular no Brasil. Ora, estar em situação regular significa ter visto de trabalho. Ou seja, os que podem participar do concurso são os brasileiros, os estrangeiros naturalizados e aqueles que já estiverem trabalhando no país. Isso exclui o pessoal do Prata e, principalmente, os venezuelanos do El Sistema. Desta forma, podemos ter médicos cubanos, mas não violinistas venezuelanos! Ou seja, o item b) é limitador e, diria, provinciano. A Osesp, para dar um exemplo de alta qualidade no país, faz o mesmo — pois a lei exige, é claro, situação regular no país –, mas dá um prazo para que o estrangeiro regularize sua situação. A Ospa não poderia fazer o mesmo? Outro problema é que o formulário de inscrição da fundatec.org.br só fala português e, para poder chegar até a tela de inscrição, há que se informar o CPF… E há músicos desempregados e orquestras desmanchando-se na Espanha, Itália, etc.

Paradoxalmente, o item d) é extremamente democrático. É assim: podem participar do concurso os que d) possuir(em) escolaridade nível médio completo ou equivalente (estrangeiros) (sic). Tal indulgência extrema é empobrecedora ao não valorizar a educação e a cultura. A falta de uma formação musical acadêmica não deveria ser eliminatória, mas tal formação deveria ser pontuada. A Ospa não dá muita bola, mas creio que não precise explicar para meus sete leitores que educação é uma coisa boa. E talvez não precise explicar que a entrada de músicos de outras culturas melhoram o nível da orquestra, apesar do estado orgulhar-se de seu caráter insular. Não pontuar por títulos, não diferenciar a experiência, a vivência, o conhecimento e a cultura… Desculpem, mas eu ri. Com seriedade.

Faria mais alguns reparos, mas é semana de eleições e as obrigações me chamam.

Antes de terminar, gostaria de acrescentar à Parte I desta série que recebemos um telefonema informando que há 22 pessoas trabalhando na administração da Ospa. Destas, 20 seriam CCs. Pergunto: é verdade? Os espaços para comentários — nosso guichê de atendimento — está sempre aberto para esclarecimentos, elogios, choros, ofensas e bombons.

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